⚡ Destaques
Mais de 800 lojas encerradas em todo o território americano após processo de liquidação total iniciado em fevereiro de 2025.
Segunda falência em menos de um ano: a rede entrou com pedido de recuperação judicial pelo Capítulo 11 em janeiro de 2025, após já ter passado pelo processo em 2024.
Nascida numa loja de queijos em Cleveland em 1943, a Joann se tornou o maior nome do varejo de artesanato e tecidos dos Estados Unidos.
Imagine entrar numa loja cheia de tecidos coloridos, linhas, agulhas e projetos de artesanato prontos para ganhar vida. Para milhões de americanos, isso era a Joann. Mas esse cenário ficou no passado: depois de mais de oito décadas de história, a rede fechou todas as suas portas, e o varejo de artesanato nos Estados Unidos nunca mais vai ser o mesmo.
De loja de queijos a gigante do artesanato americano
Poucos sabem, mas a Joann nasceu em 1943 como uma humilde loja de queijos em Cleveland, Ohio, fundada por três famílias de imigrantes alemães. Com o tempo, o negócio migrou para tecidos e artesanato, e o nome da rede acabou sendo criado a partir dos nomes das filhas das famílias fundadoras: Joan e Jacqueline Ann. Um detalhe curioso que poucos consumidores conheciam.
Ao longo de mais de oito décadas, a empresa foi crescendo até operar mais de 800 lojas espalhadas pelos 49 estados americanos. Virou referência para costureiras, artesãos e entusiastas do “faça você mesmo”, com prateleiras repletas de materiais criativos que faziam parte do cotidiano de gerações inteiras.

A tempestade que ninguém conseguiu parar
A trajetória de queda da Joann não começou do nada. A pandemia de Covid-19 reduziu drasticamente o fluxo de consumidores nas lojas físicas, e a rede não encontrou fôlego para se reinventar digitalmente como concorrentes do setor de artesanato, como Hobby Lobby e Michaels, conseguiram fazer. Em março de 2024, a empresa entrou pela primeira vez com pedido de recuperação judicial, o chamado Capítulo 11.
Após sair da primeira falência como empresa privada, a situação não melhorou. Em janeiro de 2025, a Joann voltou a pedir proteção judicial, citando queda contínua nas vendas. Dessa vez, não haveria retorno.
500 lojas, depois todas: o colapso em etapas
Em 12 de fevereiro de 2025, a Joann anunciou o fechamento de 500 das suas 800 lojas restantes, numa tentativa de “redimensionar” a operação e manter o negócio vivo. Menos de duas semanas depois, em 24 de fevereiro, ficou claro que não haveria comprador interessado. A decisão foi liquidar tudo: os ativos foram vendidos ao GA Group, empresa especializada em desinvestimentos, e o destino de todas as unidades estava selado.
Os fatores que levaram ao colapso foram se acumulando ao longo dos anos. Entenda os principais:
- Queda no fluxo de clientes: lojas físicas de nicho sofreram com a migração do consumidor para o ambiente digital.
- Concorrência crescente: redes como Hobby Lobby e Michaels se adaptaram melhor às novas exigências do mercado de artesanato.
- Endividamento acumulado: a empresa carregava uma dívida pesada que a primeira recuperação judicial não foi suficiente para resolver.
- Ausência de comprador: nenhuma empresa se interessou em adquirir a operação durante o segundo processo falimentar.
- Liquidação total: a venda dos ativos ao GA Group inviabilizou qualquer tentativa de reestruturação parcial do negócio.
📌 Pontos-chave
Fechamento em duas fases
255 lojas foram encerradas até o fim de abril de 2025, e as 535 restantes fecharam definitivamente até 30 de maio, um dia antes do prazo previsto.
Marca sobreviveu na forma de IP
Em junho de 2025, a Michaels adquiriu a propriedade intelectual e as marcas próprias da Joann, sem comprar nenhuma loja física, e passou a vender os produtos da linha online e em suas unidades.
Descontos de até 70%
Nas semanas finais, as lojas realizaram liquidações agressivas para escoar o estoque, com descontos que chegaram a até 70%, variando conforme a unidade e o produto.
O que esse colapso revela sobre o varejo de hoje
O fim da Joann não é um caso isolado. Outras redes tradicionais de varejo físico enfrentaram dificuldades parecidas no mesmo período, especialmente aquelas com modelo de negócio centrado em lojas de nicho. O padrão se repete: empresas com décadas de história encontram cada vez menos espaço num mercado dominado pelo e-commerce, onde o consumidor compara preços e recebe produtos em casa sem sair do sofá.
Para os trabalhadores e clientes fiéis, o impacto foi direto. No momento da segunda falência, a rede empregava cerca de 19 mil pessoas, sendo mais de 15 mil em regime de meio período. Todos esses postos de trabalho foram eliminados com o encerramento das operações.

Quando uma marca vira memória afetiva
A Joann tinha algo raro no varejo moderno: uma comunidade de clientes apaixonados que enxergavam nas lojas muito mais do que um ponto de compras. Nas redes sociais, o anúncio do fechamento gerou uma onda de homenagens e relatos de pessoas que cresceram entre os corredores cheios de tecidos e linhas coloridas. Esse tipo de vínculo afetivo com uma marca é difícil de recriar num ambiente puramente digital.
Curiosamente, a Michaels, uma das rivais que soube se adaptar melhor ao novo cenário do varejo de artesanato, acabou adquirindo a propriedade intelectual da Joann em junho de 2025. As marcas próprias e os produtos da rede passaram a ser vendidos nas lojas e no site da Michaels, numa espécie de sobrevivência parcial de uma história que durou 82 anos.
A trajetória da Joann, de loja de queijos fundada por imigrantes a gigante do artesanato que não resistiu à era digital, é um retrato fiel das transformações que estão redesenhando o comércio em todo o mundo. Fica a reflexão sobre o que, de fato, faz uma empresa atravessar décadas sem perder o fôlego.
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