No alto da Serra Gaúcha, a 12 km do centro de Flores da Cunha, existe uma vila colonial onde quem procura a Avenida Uva Itália descobre que ela é só o começo. Em Otávio Rocha, distrito do município, todas as ruas foram batizadas com nomes de variedades de uva. A decisão foi tomada em 1975 e moldou para sempre a identidade do lugar.
Uma vila batizada pelos cachos que cultiva
A troca dos nomes das ruas aconteceu em fevereiro de 1975, ano do centenário da imigração italiana no Rio Grande do Sul. Conforme registros da Secretaria de Turismo de Flores da Cunha, a sugestão partiu do então prefeito em exercício, Dr. Claudino Muraro, e foi aprovada pela comunidade e pela Câmara de Vereadores.
A própria rua que levava o nome Otávio Rocha, em homenagem ao político gaúcho que dá nome ao distrito, virou Avenida Uva Itália. As demais ganharam denominações como Uva Isabel, Uva Bonarda, Uva Moscato, Uva Niágara, Uva Merlot, Uva Bordô e Uva Barbera. Cada placa, hoje, é uma pequena aula de ampelografia ao ar livre.

Quem foi Otávio Rocha e por que a vila leva seu nome?
Otávio Francisco da Rocha foi senador, deputado e prefeito de Porto Alegre, e teve papel decisivo na emancipação do então município de Nova Trento, atual Flores da Cunha, antes ligado a Caxias do Sul. Em reconhecimento, seu nome batizou o terceiro distrito do município recém-criado em 17 de maio de 1924, segundo informações reunidas pelo portal Otávio Rocha Vila Colonial.
A história da vila, porém, é bem mais antiga que o nome. A colonização começou em 1882, com a chegada de famílias italianas vindas em sua maioria das cidades de Schio, Chiampo e Arzignano, na Província de Vicenza. Mais de 140 anos depois, sobrenomes como Veronese, Molon, Schio e Gallioto continuam presentes na vida cotidiana da comunidade.
O túnel verde de 80 metros que cobre a rua principal
Em frente à Igreja Matriz São Marcos, o asfalto desaparece sob um teto vivo. O Túnel da Uva é formado por aproximadamente 100 mudas de videiras que se entrelaçam sobre a Avenida Uva Itália. Segundo informações turísticas locais, o corredor verde tem cerca de 80 metros de comprimento e 5,6 metros de altura, com formato e estrutura pensados para sustentar o peso dos cachos.
Na vindima, entre meados de janeiro e meados de fevereiro, é comum ver visitantes esticando a mão para colher uma uva direto do parreiral enquanto caminham. Em julho de 2025, conforme comunicado da Prefeitura de Flores da Cunha, o túnel ganhou iluminação noturna, ampliando o tempo em que pode ser visitado e dando uma nova atmosfera ao cartão-postal da vila.
A cooperativa de 1929 que entrou para a história do vinho
Em plena década de 1920, com a economia local apoiada em parreirais e pequenas vinícolas, os colonos do distrito decidiram unir forças. Em 1929, foi criada a Cooperativa Vinícola Otávio Rocha, considerada uma das pioneiras na América Latina. De acordo com levantamento histórico do Jornal O Florense, ela é apontada como a quarta cooperativa do gênero na região, atrás apenas das de Forqueta, Nova Milano e São Vitor.
Naquele momento, a vila era considerada uma das mais progressistas da serra. Em 1921, os moradores haviam financiado, com uma taxa sobre a produção de vinho, a construção da torre da Igreja São Marcos, dita à época a mais alta da região. Os sinos viajaram de barco, comprados em 1907 na cidade italiana de Bassano del Grappa, na própria Província de Vicenza.
O casarão restaurado por R$ 3 milhões e o museu raro
Entre os exemplares mais expressivos da arquitetura imigrante do estado está o Casarão dos Veronese, construído em 1898 por Felice Veronese, um dos pioneiros chegados de Vicenza. As paredes externas são de basalto talhado, comum na região, e os fechamentos receberam tijolos e madeira de araucária.
Conforme informação oficial do Governo do Rio Grande do Sul, a restauração foi concluída em 2018 com investimento de cerca de R$ 3 milhões, em parceria entre prefeitura, governo estadual e iniciativa privada. O projeto foi assinado pelo arquiteto Edegar Bittencourt da Luz, o mesmo responsável pelo restauro do Mercado Público de Porto Alegre.
Outro acervo singular fica dentro da subprefeitura local, na Praça Regional da Uva. O Museu Padre Alberto Lamonatto guarda mais de 1.000 garrafas de licores e vinhos produzidos pelo próprio sacerdote, em uma coleção descrita por sites de turismo da região como única do gênero no país, ao lado de objetos e fotografias da imigração italiana.
Quem busca um destino charmoso na Serra Gaúcha com vinícolas artesanais, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Canal Desbravantes, que conta com mais de mil visualizações, onde são mostradas as paisagens, o túnel da uva e a cultura de Otávio Rocha, Flores da Cunha:
Como é o clima em Otávio Rocha ao longo do ano?
O distrito fica a cerca de 700 metros de altitude, em pleno coração da Serra Gaúcha, e segue o ritmo climático de Flores da Cunha. Verões amenos, invernos rigorosos com geadas frequentes e estações bem marcadas definem o ritmo das vinícolas, dos parreirais e das festas tradicionais.
Confira como cada estação se comporta ao longo do ano:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Conheça a vila colonial das uvas
Poucos lugares no Brasil resumem em tão pouco espaço uma história de imigração, identidade e enraizamento. Em pouco mais de uma quadra, o visitante caminha entre videiras suspensas, casarões de pedra basalto e ruas que parecem páginas de um livro sobre vinho.
Você precisa subir a serra e conhecer Otávio Rocha para entender por que cada placa de rua, ali, conta um pedaço da história italiana do Rio Grande do Sul.




