Em muitas casas brasileiras, a lembrança do quintal com plantas da vovó ainda aparece ligada ao cheiro de chá recém-feito, ao feijão temperado com folhas colhidas na hora e às frutas apanhadas direto do pé. Esse cenário, comum até poucas décadas atrás, vem se tornando cada vez mais raro, o que ajuda a explicar por que tantas espécies tradicionais sumiram do prato, do comércio e, em muitos casos, da memória das famílias.
O que são quintal da vovó e por que estão desaparecendo?
O termo “plantas do quintal da vovó” se refere a espécies tradicionais usadas em chás, sopas, saladas, farofas e remédios caseiros, muitas delas hoje classificadas como PANCs brasileiras – plantas alimentícias não convencionais. São folhas, raízes, flores e frutos que cresciam em espaços pequenos, como fundos de casa, beiras de cerca e canteiros improvisados, sem exigir insumos sofisticados.
O desaparecimento dessas plantas da mesa brasileira está ligado à industrialização dos alimentos, à padronização do consumo e ao abandono dos quintais produtivos. À medida que o mercado priorizou produtos duráveis, de aparência uniforme e logística fácil, espécies regionais perderam espaço, enquanto a vida em apartamentos reduziu o cultivo doméstico e a transmissão de saberes entre gerações.

Quais plantas tradicionais foram esquecidas no Brasil?
Quando se fala em plantas esquecidas do Brasil, não se trata apenas de espécies raras ou exóticas. Em muitos casos, são plantas comuns, que ainda brotam espontaneamente, mas deixaram de ser reconhecidas como alimento e passaram a ser vistas como “mato” ou “erva daninha”, apesar do seu alto valor nutricional.
Entre os exemplos frequentes em relatos de moradores mais antigos aparecem ora-pro-nóbis, taioba, bertalha, serralha, major-gomes, vinagreira, beldroega, caruru, capuchinha, mangarito e araruta. Cada uma carrega modos de preparo, histórias familiares e recordações de infância, que se perdem quando saem da rotina alimentar e são substituídas por misturas prontas e vegetais padronizados.
Qual é o papel das PANCs brasileiras no resgate desses alimentos?
O conceito de PANCs brasileiras ganhou força para dar visibilidade a espécies comuns e pouco valorizadas, que têm uso alimentar possível, mas não integram o circuito comercial dominante. Pesquisas mostram que muitas dessas plantas possuem alto teor de fibras, vitaminas, minerais e compostos bioativos, ajudando a enriquecer sopas, caldos e acompanhamentos do dia a dia.
Chefs e cozinheiros interessados em culinária regional contribuíram para recolocar algumas dessas espécies em destaque em restaurantes e feiras especializadas. Porém, o que antes era “comida simples” de quintal hoje muitas vezes aparece como produto de nicho, associado à alimentação orgânica e vendido com preço mais alto, o que limita o acesso de grande parte da população.
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Como as plantas do quintal da vovó podem voltar ao dia a dia?
O retorno das plantas alimentícias não convencionais à rotina depende de reconhecer visualmente essas espécies e reaprender seu uso culinário. Projetos em escolas, hortas comunitárias, materiais educativos e o diálogo com moradores mais antigos ajudam a diferenciar hortaliças espontâneas de mato qualquer e fortalecem o vínculo entre memória, alimento e território.
Uma forma prática de reintroduzi-las é investir em receitas simples, que mostrem como essas plantas podem entrar no cardápio cotidiano sem complicação. Para orientar quem deseja começar ou aprofundar esse resgate, algumas ações ajudam a construir experiência e confiança no uso dessas espécies:
- Resgatar conversas com familiares mais velhos sobre o que se comia no passado e como se preparavam essas plantas.
- Observar quintais, calçadas e hortas comunitárias em busca de espécies reconhecidas como PANCs, anotando nomes e características.
- Participar de feiras agroecológicas, onde produtores explicam o uso culinário de plantas menos conhecidas e oferecem mudas ou sementes.
- Registrar receitas tradicionais que ainda sobrevivem em festas de interior, almoços de roça e encontros de família.
Quais cuidados são necessários ao redescobrir e consumir essas plantas?
Embora as plantas do quintal da vovó e diversas PANCs tenham uso tradicional consolidado, a identificação correta é fundamental para evitar riscos. Espécies diferentes podem ser confundidas pela aparência semelhante, por isso é importante recorrer a materiais confiáveis, oficinas com especialistas, técnicos agrícolas ou agrônomos quando houver dúvida sobre o consumo.
Para garantir um resgate seguro, recomenda-se confirmar o nome popular e, sempre que possível, o nome científico, verificar registros de uso alimentar em fontes especializadas, evitar áreas contaminadas na hora de colher e iniciar o consumo em pequenas quantidades. Assim, torna-se possível valorizar a biodiversidade, recuperar saberes familiares e ampliar a diversidade do prato com responsabilidade.




