No coração da Serra da Mantiqueira, a cerca de 350 km de Belo Horizonte, Caxambu carrega um título que a maioria dos brasileiros desconhece: é o maior complexo hidromineral do planeta. Com 21 mil habitantes e 12 fontes de água mineral de composições químicas completamente distintas concentradas num único parque urbano, a cidade mineira ainda figura em 19º lugar no ranking nacional de qualidade de vida.
Por que Caxambu é o maior complexo hidromineral do mundo
A singularidade de Caxambu começa no subsolo. O município repousa sobre metassedimentos do Grupo Andrelândia, com rochas xistosas e quartzitos que permitem a interação prolongada entre água e rocha. Quanto maior esse tempo de contato, maior a mineralização, o que explica por que as 12 fontes do Parque das Águas Dr. Lysandro Carneiro Guimarães têm composições tão diferentes umas das outras, segundo o relatório do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) citado pela própria prefeitura.
Tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA), o parque tem 210 mil m² de área com bosques, alamedas, lago com pedalinhos, teleférico, piscinas de água mineral e o Balneário Hidroterápico, construído em 1912 em estilo neoclássico, com vitrais e azulejos vindos da Europa. Nenhum outro lugar do planeta concentra tamanha diversidade de fontes hidrominerais em uma área urbana única.

As 12 fontes e o único gêiser do Brasil
Cada fonte do parque tem composição, indicação terapêutica e história próprias. Cinco delas homenageiam a família imperial brasileira, que visitava Caxambu no século XIX. As principais são:
- Fonte Dom Pedro: a mais antiga e simbólica do parque, construída em estilo greco-romano com réplica da coroa imperial na cúpula. Água carbogasosa, fluoretada, litinada, seleniada e radioativa. Indicada para problemas digestivos e estimulante do apetite.
- Fonte Dr. Viotti: homenageia o médico que clinicou 50 anos em Caxambu. Água carbogasosa, ferruginosa, fluoretada e radioativa. Com efeito diurético e depurativo, é usada para dissolver cálculos renais.
- Fonte Dona Leopoldina: água bicarbonatada, sódica, cálcica e fluoretada. Indicada para problemas hepáticos, de vesícula e alterações intestinais.
- Fonte Duque de Saxe: única com enxofre acentuado entre as fontes do parque. Água bicarbonatada, cálcica, magnesiana e sulfurosa. Indicada para afecções da pele.
- Fonte Dona Isabel/Conde d’Eu: rica em ferro e magnésio, atua como tônico geral com ação anti-anêmica. Foi a fonte que, segundo a tradição oral, curou a anemia profunda da Princesa Isabel em 1868, após o que ela mandou construir a Igreja de Santa Isabel da Hungria em agradecimento.
- Gêiser Floriano de Lemos: o único gêiser existente no Brasil. Jorra água mineral a 27°C até 8 metros de altura pela pressão natural do gás carbônico subterrâneo, sem calor vulcânico. Funciona duas vezes ao dia, em horários definidos. Fenômeno raro: existem cerca de mil gêiseres no mundo, metade deles no Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos.

Caxambu realmente está entre as melhores cidades do Brasil para viver?
Os dados do IPS 2024, elaborado pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) a partir de 53 indicadores socioambientais, colocam Caxambu na 19ª posição entre 5.570 municípios, com nota 69,69 de 100, conforme confirma a Prefeitura Municipal de Caxambu. A cidade figura à frente de capitais como São Paulo e Belo Horizonte em todas as três dimensões avaliadas: necessidades humanas básicas, fundamentos do bem-estar e oportunidades.
O clima ameno da Mantiqueira, a tranquilidade de cidade pequena e a infraestrutura termal centenária fazem de Caxambu um dos destinos mais procurados por aposentados do Sudeste. A cidade está a cerca de 350 km de BH pela BR-381 (Fernão Dias) e a distância semelhante de São Paulo e do Rio de Janeiro, o que a torna acessível para três das maiores metrópoles do país. A altitude de quase 900 metros garante temperaturas mais amenas do que no restante de Minas, com médias entre 15°C e 26°C no inverno e outono.
O que fazer além de beber água mineral
O Parque das Águas é o ponto de partida, mas Caxambu tem outras experiências que merecem tempo:
- Balneário Hidroterápico: dentro do parque, oferece mais de 50 serviços, entre banhos de imersão em água mineral, duchas, saunas a vapor e seca, hidromassagens e tratamentos estéticos. Aberto de quinta a segunda-feira.
- Teleférico do Parque: cadeirinhas individuais que sobrevoam o lago e sobem até o topo do Morro Caxambu, a 1.090 metros de altitude, com vista panorâmica da Mantiqueira.
- Cristo Redentor do Morro Caxambu: monumento de 15 metros de altura inaugurado em 1961, com vista de 360 graus sobre a cidade e a serra.
- Igreja de Santa Isabel da Hungria: construída pela Princesa Isabel a partir de 1868, em agradecimento pela cura de sua anemia após o tratamento com as águas ferruginosas de Caxambu. Marco histórico da ligação entre a cidade e a família imperial.
- Circuito das Águas de Minas: Caxambu é uma das cidades-polo do circuito, ao lado de São Lourenço. A região reúne outras estâncias hidrominerais como Lambari, Cambuquira e Baependi, todas acessíveis em excursões de um dia.
Quando o clima da Mantiqueira favorece cada tipo de visita
A altitude de Caxambu suaviza o clima durante todo o ano, tornando a cidade visitável em qualquer estação. As temperaturas são mais amenas do que no restante de Minas, o que é especialmente apreciado em julho e agosto:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à capital hidromineral do mundo
De Belo Horizonte, o acesso mais prático é pela BR-381 (Fernão Dias) até o trevo para Campanha, e mais 60 km até Caxambu, percurso total de aproximadamente 350 km em cerca de 4 a 5 horas de carro. De São Paulo, o acesso é pela Via Dutra (BR-116) até o Vale do Paraíba, depois pela rodovia SP-068 em direção a Cruzeiro e ao sul de Minas, em cerca de 5 horas. A rodoviária de Caxambu recebe linhas de BH, São Paulo, Rio de Janeiro e Juiz de Fora.
Uma cidade que o tempo tratou bem
Caxambu é daquelas cidades que envelheceu com elegância. O parque tombado, o balneário neoclássico, as fontes com nomes imperiais e o único gêiser do Brasil guardam mais de um século de história termal que ainda funciona, ainda trata, ainda atrai.
Se você quer entender por que o sul de Minas atrai quem busca desacelerar, vá a Caxambu, beba da fonte Dom Pedro e deixe a Serra da Mantiqueira ditar o ritmo dos dias.




