Você já parou para lembrar como era a infância “na rua”, com liberdade, poucos medos e quase nenhum adulto por perto, e comparar com a rotina cheia de telas, horários e supervisão das crianças de hoje? Entre esses dois extremos, pesquisadores, pais e educadores vêm tentando entender como cada forma de criar impacta a confiança, a independência e a saúde emocional ao longo da vida.
O que é estilo de criação e como ele afeta a saúde mental das crianças
Quando falamos em estilo de criação, não estamos falando só de regras, mas do jeito como os adultos se relacionam com as crianças no dia a dia: como falam, como escutam, como colocam limites e que espaço dão para que elas tentem sozinhas. É a combinação entre carinho, disciplina e liberdade que ajuda a formar a maneira como a criança enxerga a si mesma e o mundo.
Esse conjunto de atitudes influencia diretamente a autoestima, a forma de lidar com frustrações e a sensação de “eu dou conta” ou “só consigo se alguém me ajudar”. Aos poucos, isso vai construindo o chamado locus de controle: se a criança sente que suas atitudes fazem diferença (interno) ou se tudo parece depender apenas da sorte, dos outros ou de circunstâncias fora de seu alcance (externo).

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Como a criação dos anos 1960 estimulava independência e escondia emoções
Na década de 1960, era comum crianças passarem boa parte do dia fora de casa, andando pelo bairro, inventando brincadeiras e resolvendo conflitos entre si, sem adulto mediando tudo. Sem telas e com poucos “entretenimentos prontos”, elas aprendiam a lidar com o tédio, a negociar com amigos e a tomar pequenas decisões diárias, o que funcionava como um treino constante de autonomia e tolerância à frustração.
Ao mesmo tempo, quase não se falava abertamente de sentimentos, tristeza ou ansiedade, e buscar ajuda profissional era visto com preconceito. Muitos acabaram se tornando adultos que aguentam muita coisa sozinhos, mas têm dificuldade de reconhecer quando precisam de apoio, pedem ajuda tarde demais ou acreditam que sentir dor emocional é sinal de fraqueza.
A criação moderna protege as crianças ou acaba deixando-as mais frágeis
Hoje, em muitas famílias, há mais diálogo sobre emoções, maior cuidado com a segurança física e uma presença mais próxima na rotina escolar. Em contrapartida, a supervisão constante, as agendas cheias e o uso frequente de telas para evitar tédio podem reduzir o número de situações em que a criança precisa se virar um pouco sozinha, esperar, se frustrar e tentar de novo.

Quando os adultos resolvem quase todos os conflitos, atendem cada incômodo na mesma hora e evitam qualquer desconforto, a mensagem que pode ficar é: “você não dá conta sem mim”. Pesquisas apontam que isso favorece um locus de controle mais externoS, ao mesmo tempo em que crescem os relatos de ansiedade e sintomas depressivos entre adolescentes, que sabem falar sobre emoções, mas têm pouca chance de praticar, na vida real, como atravessar frustrações sem um “salva-vidas” imediato.
Como equilibrar autonomia infantil e proteção emocional no dia a dia
Diante dos excessos do passado e dos exageros de controle atuais, muitos especialistas defendem um caminho do meio: presença afetiva, sim, mas sem sufocar; proteção, sim, mas sem impedir que a criança enfrente pequenos desafios. A ideia é que ela se sinta segura o bastante para arriscar, errar, aprender e, ao mesmo tempo, saiba que pode pedir colo e apoio quando algo ficar grande demais.
Algumas atitudes simples no cotidiano podem apoiar esse equilíbrio entre liberdade e cuidado, ajudando a construir crianças mais confiantes e emocionalmente acolhidas:

No fim das contas, mais do que copiar o jeito de criar dos anos 1960 ou seguir à risca os padrões atuais, o que faz diferença é construir um ambiente em que a criança se sinta capaz de agir sobre a própria vida, mas também autorizada a pedir suporte quando precisar. É dessa combinação de autonomia e acolhimento que costuma nascer uma saúde mental mais sólida na vida adulta.




