Quinze por cento da população sente-se frequentemente só, mas entre as pessoas solteiras esse número salta para uma em cada três. É o que aponta uma pesquisa recente da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, a NTNU, que investigou a relação entre solidão e conexão com a natureza. A descoberta surpreendente é que estar sozinho ao ar livre, sem companhia humana, pode reduzir significativamente o sentimento de solidão. Mas há uma condição importante: é preciso fazer isso do jeito certo.
O que a pesquisa da NTNU descobriu sobre solidão e natureza?
O estudo foi conduzido pelo doutorando em sociologia Sindre Johan Cottis Hoff, em colaboração com a professora Helga Synnevåg Løvoll, da Høgskulen em Volda, e publicado em 2026 na revista científica Health and Place. Os pesquisadores enviaram um questionário a 2.500 pessoas que vivem na região do lago Mjøsa, na Noruega, dentro do projeto interdisciplinar Oppdrag Mjøsa. Os participantes responderam perguntas sobre solidão e sobre a sua relação com a natureza, incluindo atividades como caminhadas, natação, pesca, remo e simplesmente sentar à beira da água.
Os resultados foram claros: pessoas que desenvolveram uma conexão genuína com a natureza, o que os pesquisadores chamam de “naturtilknytning” ou conexão com a natureza, apresentaram índices menores de solidão do que as demais. E, entre as atividades testadas, as que mais impacto tiveram foram justamente as mais simples: apreciar a vida à beira da água ou caminhar sobre o gelo no inverno. A explicação está no nível de presença e atenção que esse tipo de atividade exige.
Por que caminhar sozinho na natureza reduz a solidão emocional?
Hoff aponta que vivemos em uma sociedade orientada ao desempenho, repleta de regras sociais não escritas que as pessoas precisam dominar para se encaixar. Esse conjunto de expectativas cria uma espécie de “valor de mercado social” que pode tornar as pessoas mais frágeis emocionalmente e mais vulneráveis à solidão. A natureza, ao contrário, não tem essas regras. Não existe maneira certa ou errada de observar um lago, ouvir o vento ou sentir a textura de uma pedra. É exatamente essa ausência de julgamento que torna o contato com a natureza tão poderoso para quem se sente só.
O pesquisador identifica dois mecanismos principais que explicam o efeito. O primeiro é que a natureza cria um espaço onde a pessoa pode ser exatamente quem é, sem precisar se moldar a expectativas externas. Esse senso de ser aceito pelo ambiente, de sentir-se “visto” por algo maior do que a dinâmica social, gera uma sensação real de pertencimento. O segundo mecanismo é que experiências na natureza tendem a modificar crenças internas negativas muito comuns entre pessoas que sofrem de solidão, como a convicção de que ninguém gosta de você ou de que as outras pessoas não querem sua companhia.

Qual é a diferença entre solidão emocional e solidão social?
A pesquisa faz uma distinção importante que ajuda a entender por que o efeito da natureza funciona mesmo quando a pessoa está fisicamente sozinha. A solidão emocional está ligada à ausência de alguém que realmente compreende você, como um amigo próximo ou parceiro íntimo. Já a solidão social é a falta de um grupo ou comunidade de pertencimento. São sentimentos distintos, e a pesquisa mostra que o contato com a natureza pode reduzir ambos, sem que seja necessário estar acompanhado de outras pessoas para isso acontecer.
Esse é o aspecto mais contraintuitivo do estudo: geralmente associamos o combate à solidão à presença de outras pessoas. O que Hoff e Løvoll demonstraram é que o sentimento de pertencimento não precisa vir exclusivamente de relações humanas. A conexão com um lugar, com uma paisagem ou com a natureza de forma mais ampla também é capaz de preencher parte dessa necessidade emocional fundamental. Para pessoas solteiras que enfrentam solidão com frequência, essa descoberta abre um caminho concreto e acessível.
Como praticar a conexão com a natureza do jeito certo para combater a solidão?
Existe um detalhe fundamental que os pesquisadores enfatizam: o exercício físico em si, como correr ou pedalar em trilhas, não produz o mesmo efeito. Para que a natureza funcione como remédio contra a solidão, é preciso estar verdadeiramente presente no momento, com atenção voltada para as experiências sensoriais do ambiente. Isso significa observar ativamente as coisas bonitas ao redor, deixar os pensamentos fluírem livremente e notar os pequenos detalhes do ambiente natural. Quem usa fones de ouvido, fala ao telefone ou caminha em grupo animado tende a estar mais focado nas pessoas e nos aparelhos do que na natureza em si.
Estar sozinho, segundo os pesquisadores, potencializa esse efeito justamente porque remove as distrações sociais. Quando você caminha com amigos, a experiência pode ser agradável, mas a atenção está dividida entre a conversa e o ambiente. A solidão proposital na natureza, portanto, é diferente da solidão que se sente em casa. Confira as atividades que os pesquisadores identificaram como mais eficazes para desenvolver a conexão com a natureza e reduzir o sentimento de solidão:
- Sentar tranquilamente à beira de um rio, lago ou praia, observando a água e os arredores sem pressa
- Caminhar sozinho em trilhas ou parques prestando atenção ativa nos detalhes do ambiente, cores, sons, texturas e cheiros
- Atividades como remo ou pesca, que exigem presença plena e contato direto com a natureza
- Nadar em ambientes naturais como lagos e rios, experiências que, segundo os pesquisadores, facilitam o estado de atenção plena pelo estímulo físico intenso
- Simplesmente caminhar sobre gelo ou terrenos naturais no inverno, prestando atenção nas sensações do corpo e no ambiente ao redor

Por que essa descoberta é especialmente relevante para pessoas solteiras?
Pessoas solteiras estão entre as mais afetadas pela solidão justamente porque o cotidiano sem um parceiro frequentemente não oferece o contato humano constante que serve como âncora emocional natural para quem vive acompanhado. Em uma sociedade orientada ao desempenho social, como descreve Hoff, as pessoas solteiras podem se sentir mais expostas ao “valor de mercado” das interações sociais e mais vulneráveis ao ciclo de isolamento. A descoberta de que a natureza pode funcionar como um espaço de pertencimento genuíno sem exigir esse desempenho é, para esse grupo, especialmente libertadora.
A pesquisa da NTNU não propõe que a natureza substitua as relações humanas ou que a solidão possa ser simplesmente “curada” com uma caminhada. O que ela demonstra é que cultivar uma conexão real com o ambiente natural é uma ferramenta concreta, acessível e sem custo para reduzir o peso do isolamento. Para pessoas solteiras que enfrentam esse sentimento, um passeio sozinho em silêncio, com olhos e ouvidos abertos para o que existe ao redor, pode ser muito mais poderoso do que parece.




