Acessível apenas por mar ou por avião de pequeno porte, Morro de São Paulo recebe quem chega pelo mesmo portal de pedra que protegia a Bahia de invasões holandesas no século XVII. Do outro lado, cinco praias numeradas esperam, cada uma com personalidade própria.
Uma ilha onde ninguém liga o motor
A vila ocupa o extremo norte da Ilha de Tinharé, no arquipélago de Cairu, a cerca de 60 km ao sul de Salvador. Carros particulares não circulam. Malas chegam em carrinhos de mão, material de construção sobe no lombo de mulas, e o deslocamento entre as praias acontece a pé, pela areia mesmo. Esse detalhe não é acidente: é o que mantém o ritmo de vilarejo vivo mesmo na alta temporada.
Cerca de 6 mil pessoas vivem no Morro, segundo estimativas locais. Boa parte trabalha com turismo, pesca ou mariscagem. O cotidiano mistura o som das lanchas no cais com música ao vivo na Segunda Praia ao cair da tarde. Moradores antigos contam que a luz elétrica só chegou em 1985 e que, antes dos primeiros mochileiros nos anos 1970, a sobrevivência dependia quase exclusivamente do mar.

O que cada praia oferece da Primeira à Quinta
As praias principais são numeradas na sequência em que aparecem a partir da vila. Da Primeira à Quarta, a caminhada leva cerca de 15 minutos. A Quinta exige mais fôlego, mas recompensa com o silêncio:
- Primeira Praia: 300 metros de extensão, a mais próxima do centro. Frequentada por moradores e surfistas locais. É o ponto de chegada da tirolesa que parte do Farol.
- Segunda Praia: 400 metros, a mais movimentada. Concentra bares, pousadas e festas de luau nas segundas e quintas à noite. Na maré baixa, piscinas naturais aparecem junto à Ilha da Saudade, cartão-postal da vila.
- Terceira Praia: 800 metros, equilíbrio entre agito e calmaria. Águas transparentes, corais e a Ilha do Caitá, uma ilhota com um único coqueiro, ideal para caiaque e snorkel.
- Quarta Praia: a maior de todas, com cerca de 5 km. Praticamente deserta, cheia de piscinas naturais virgens e coqueirais que acompanham toda a extensão. Perfeita para longas caminhadas.
- Quinta Praia (Praia do Encanto): quase 2 km sem barracas, acessível por charrete ou trilha. Mata Atlântica, manguezais e a sensação de ter o mar só para si.

Fortaleza e farol guardando quase cinco séculos de história
A vila foi fundada por Francisco Romero entre 1535 e 1536, ainda sob a jurisdição da Capitania de São Jorge dos Ilhéus. A posição estratégica da ilha protegia a entrada da Baía de Todos os Santos, o que atraiu piratas, corsários e esquadras holandesas ao longo de todo o período colonial.
A Fortaleza de Tapirandú, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) desde 1938, teve suas obras iniciadas em 1630. O forte tinha 58 peças de canhão e 678 metros de muralhas erguidas com pedra e óleo de baleia. Hoje, o pórtico de entrada do forte é a porta pela qual todo visitante que chega de barco passa para acessar a vila. O Farol do Morro, inaugurado em 1856, recebeu a visita de Dom Pedro II em 1859 e segue de pé como mirante do pôr do sol mais disputado da ilha. A Fonte Grande, de 1746, foi o maior sistema de abastecimento de água da Bahia colonial.
Quais passeios valem o dia além das cinco praias
O mar ao redor de Tinharé oferece roteiros que complementam as praias numeradas. Alguns dos melhores passeios partem da Terceira Praia pela manhã:
- Volta à Ilha de Tinharé: passeio de lancha de aproximadamente oito horas, com paradas nas piscinas naturais de Garapuá e Moreré (em Boipeba), almoço na Boca da Barra e visita ao centro histórico de Cairu.
- Praia da Gamboa: vilarejo de pescadores a 3 km do centro, acessível a pé na maré baixa ou de barco em poucos minutos. Águas calmas e banho de argila na orla.
- Mergulho na Ilha do Caitá: barreira de corais em frente à Terceira Praia, com peixinhos coloridos visíveis a olho nu. Equipamento de snorkel disponível para aluguel no local.
- Tirolesa do Farol: descida de 70 metros de altura até a Primeira Praia, com vista panorâmica do arquipélago durante o trajeto.
Quem sonha com as praias da Bahia, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Melhores Destinos, que conta com mais de 1,1 milhão de inscritos, onde Sandro e Monique mostram um guia completo de Morro de São Paulo:
Quando ir e o que esperar do clima na ilha
O clima tropical garante calor o ano inteiro, com chuvas mais concentradas entre abril e julho. O verão é a alta temporada, com praias cheias e festas frequentes. O inverno traz chuvas rápidas, preços menores e uma tranquilidade ainda maior:
Como chegar ao vilarejo sem estrada
A forma mais comum é o catamarã que parte do Terminal Marítimo de Salvador, próximo ao Mercado Modelo. A travessia dura entre 2 e 2h30, dependendo do mar. Outra opção é seguir de carro ou ônibus até Valença (cerca de 4h30 de Salvador) e embarcar em lancha rápida até a ilha, com trajeto de 20 minutos. Para quem dispõe de mais orçamento, táxis aéreos fazem o voo de Salvador em poucos minutos até a pista local.
Na chegada, é cobrada a Tarifa de Uso do Patrimônio Histórico do Arquipélago (TUPA), válida por toda a estadia. Maiores de 60 anos são isentos e estudantes pagam meia.
O vilarejo que transforma visitante em morador
Morro de São Paulo tem a rara qualidade de parecer férias permanentes. Sem carros, sem pressa, com praias que mudam de personalidade a cada 300 metros e uma fortaleza de quase 400 anos guardando a entrada da vila.
Você precisa desembarcar no cais, passar pelo portal de pedra e caminhar até a praia que combina com o seu dia, seja a Segunda para o agito ou a Quinta para o silêncio absoluto.



