As montanhas que cercam Poços de Caldas não são serras comuns. Elas formam a borda de uma caldeira vulcânica de 30 km de diâmetro, extinta há cerca de 80 milhões de anos. É dessa geologia rara que brotam as águas sulfurosas a 45 °C, o solo fértil e o clima ameno que transformaram a Cidade das Rosas em uma das estâncias mais elegantes do Brasil.
Como um vulcão moldou a cidade e suas águas termais
Entre o final do Cretáceo e o início do Cenozoico, uma intrusão de rochas alcalinas elevou a região a mais de 500 metros acima do nível do mar. O centro dessa estrutura colapsou e formou o planalto onde a cidade se acomodou. Segundo o professor Francisco Sérgio Bernardes Ladeira, do Instituto de Geociências da Unicamp, o que se vê hoje não é o edifício externo do antigo vulcão, mas suas porções internas, a caldeira propriamente dita.
Essa formação aquece o lençol freático e enriquece a água com enxofre, cálcio e magnésio. O resultado são fontes termais que atraem visitantes desde o século XVIII, quando ex-garimpeiros notaram que o gado doente procurava os poços para se curar. Em 1872, o capitão Joaquim Bernardes da Costa Junqueira doou 96 hectares de sua fazenda para fundar oficialmente o povoado.

De Dom Pedro II a Carmen Miranda nos salões termais
Em outubro de 1886, o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Dona Teresa Cristina inauguraram o ramal da Estrada de Ferro Mogiana que chegava a Poços. A ferrovia acelerou o crescimento da cidade, que, três anos depois, foi elevada a município. O nome veio por analogia: assim como Caldas da Rainha, em Portugal, já era um termal célebre da realeza, os poços mineiros ganharam o mesmo batismo.
Na década de 1940, a era dos cassinos trouxe luxo aos salões do Palace Casino e do Palace Hotel. Getúlio Vargas mantinha uma suíte com a mesma decoração do Palácio do Catete. Artistas como Carmen Miranda, Silvio Caldas e Orlando Silva passaram pelos palcos. Personalidades como Rui Barbosa, Santos Dumont e o poeta Olavo Bilac também frequentaram a cidade. Com a proibição do jogo em 1946 e o avanço dos antibióticos, Poços reinventou sua vocação, sem nunca abandonar as termas.

Qualidade de vida na Cidade das Rosas
Poços de Caldas reúne 163.742 habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE, e registra IDHM de 0,779, um dos mais altos do interior mineiro. O saneamento impressiona: 97,97% dos domicílios têm esgotamento sanitário, o terceiro melhor índice de Minas Gerais, conforme dados do DMAE.
O cotidiano é marcado pelo clima ameno de altitude e pelo verde que envolve o centro. O Parque Municipal Antônio Molinari oferece ciclovia, pista de caminhada e academia ao ar livre. A Avenida João Pinheiro, arborizada e com ampla calçada, funciona como ponto de encontro de moradores que caminham ou correm pela manhã. Universidades como PUC Minas, Unifal e IF Sul de Minas atraem estudantes de outros estados e mantêm a cidade jovem.
Quem busca saber por que Poços de Caldas foi construída dentro de um vulcão, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal De fora em Juiz de Fora, que conta com mais de 100 mil inscritos, onde a turismóloga Tati Marmon explora as águas termais e o centro histórico de Minas Gerais:
O que visitar além das termas no planalto vulcânico?
As Thermas Antônio Carlos são o cartão-postal, mas a cidade guarda atrações para dias inteiros. Desde trilhas na serra até praças históricas, há opções para todos os ritmos:
- Teleférico da Serra de São Domingos: inaugurado em 1974, percorre 1.500 metros do centro até o topo da serra, a 1.686 metros de altitude. A vista panorâmica revela o desenho circular da caldeira vulcânica. Informações no site da Prefeitura.
- Cristo Redentor: no alto da serra, o monumento inaugurado em 1958 tem vista de 360 graus. Acesso por teleférico, carro ou trilha a partir da Fonte dos Amores.
- Pedra Balão: conjunto de rochas vulcânicas sobrepostas com cerca de 10 metros de altura, esculpido por erosão eólica e pluvial.
- Fonte dos Amores: criada em 1929, abriga uma escultura em mármore do italiano Giulio Starace e marca o início da trilha até o Cristo.
- Instituto Moreira Salles: primeiro centro cultural do IMS no Brasil, inaugurado em 1992 em um chalé de 1894. Exposições gratuitas de terça a domingo.
- Cascata das Antas: queda d’água de mais de 50 metros em meio à mata, com ruínas da primeira usina hidrelétrica da cidade.
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Quando o clima favorece cada tipo de passeio em Poços?
A altitude de 1.186 metros garante temperaturas amenas o ano todo. O inverno seco é a alta temporada, ideal para banhos termais e festivais. O verão traz chuvas frequentes, mas as manhãs costumam abrir com sol:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à Cidade das Rosas saindo de BH
Poços de Caldas fica a cerca de 450 km de Belo Horizonte. O trajeto mais comum segue pela Rodovia Fernão Dias (BR-381) até Pouso Alegre e depois pela BR-267, em viagem de aproximadamente 6 horas. Ônibus da Expresso Gardênia partem diariamente da Rodoviária de BH. De São Paulo, a distância cai para 260 km pela SP-340, cerca de 3h30. A cidade também conta com aeroporto (código POJ) que recebe voos regionais.
Conheça a cidade que nasceu de um vulcão
Poços de Caldas transforma geologia em experiência. A caldeira vulcânica que moldou o relevo é a mesma que aquece as águas, fertiliza o solo e protege o planalto com um microclima de montanha. Poucos lugares no Brasil oferecem essa combinação de história imperial, termalismo centenário e qualidade de vida real.
Você precisa subir a serra, mergulhar nas águas sulfurosas e sentir por que a Cidade das Rosas continua encantando quem chega ao sul de Minas.




