106 praias sem nenhum carro: Ilha Grande é o primeiro patrimônio misto da UNESCO no Brasil
O barco encosta no trapiche da Vila do Abraão e o silêncio surpreende. Não há motor de carro, semáforo ou asfalto. Ilha Grande recebe quem chega com ruas de areia, mata fechada e um mar que muda de cor a cada enseada. A 150 km do Rio de Janeiro, a maior ilha do estado guarda 193 km² de Mata Atlântica preservada e uma história que vai de piratas a presos políticos.
De presídio a patrimônio mundial em menos de 30 anos
Os índios Tamoios chamavam a ilha de Ipaum Guaçu. O navegador Gonçalo Coelho a avistou em 6 de janeiro de 1502, dia de Reis, o que deu nome a toda a baía. Entre os séculos 16 e 18, piratas franceses, holandeses e ingleses usavam as enseadas para reabastecer água doce e frutas. No período colonial, a ilha se tornou rota do tráfico de pessoas escravizadas vindas da África.
Em 1903, o governo instalou a Colônia Penal Cândido Mendes na Praia de Dois Rios. O presídio funcionou até 1994, quando foi demolido por ordem do governador Leonel Brizola. Paradoxalmente, décadas de isolamento carcerário impediram a ocupação urbana e ajudaram a preservar a floresta. Em julho de 2019, a UNESCO reconheceu Ilha Grande e Paraty como Patrimônio Mundial Misto, o primeiro do Brasil, conforme registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

O que visitar em uma ilha sem estradas?
Sem veículos, a locomoção acontece por trilha ou barco. A ilha possui uma rede numerada de caminhos (T1 a T16) que conectam praias, mirantes e vilas caiçaras. A maioria dos passeios parte da Vila do Abraão. As atrações que justificam pelo menos três dias na ilha são estas:
- Praia de Lopes Mendes: quase 3 km de areia branca e mar aberto. Eleita diversas vezes entre as praias mais bonitas do mundo pelo TripAdvisor. Acesso por barco até a Praia do Pouso e mais 20 minutos de trilha.
- Lagoa Azul: piscina natural entre rochas com água cristalina, parada obrigatória nos passeios de escuna. Ideal para mergulho com snorkel.
- Pico do Papagaio: trilha desafiadora até 982 metros de altitude, com vista panorâmica de toda a baía. Exige guia e dia sem chuva.
- Cachoeira da Feiticeira: queda de água doce em meio à mata, a cerca de 40 minutos de caminhada a partir do Abraão.
- Ruínas do Lazareto e Aqueduto: construções de 1893 que funcionaram como hospital de quarentena, quartel e presídio. Fazem parte do Circuito do Abraão, trilha circular de dificuldade leve.
- Praia de Dois Rios: vizinha das ruínas do antigo presídio, acessada pela trilha T2 (8 km). Abriga o Centro de Estudos Ambientais e Desenvolvimento Sustentável (CEADS) da UERJ.
Informações sobre trilhas e normas de visitação estão no site do Instituto Estadual do Ambiente (INEA), que administra o Parque Estadual da Ilha Grande.
Quem busca o paraíso na Costa Verde do Rio de Janeiro, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Status Viajante, que conta com mais de 86 mil inscritos, onde Gabi mostra um roteiro completo de 3 dias por Ilha Grande:
Mata Atlântica, naufrágios e onça-parda na mesma ilha
O Parque Estadual ocupa 12.052 hectares, o equivalente a 62,5% da área total da ilha. A floresta cobre mais de 90% desse território e abriga mais de 350 espécies de árvores, além de fauna rara. Em 2022, uma onça-parda foi registrada pela primeira vez por armadilhas fotográficas do INEA, o que confirma a saúde do ecossistema insular. A presença do segundo maior felino das Américas em uma ilha oceânica é um dado incomum para a Mata Atlântica.
No mar, a convergência de correntes tropicais e temperadas sustenta corais, tartarugas-de-pente, golfinhos e até baleias jubarte em época de migração. A baía concentra ao menos seis naufrágios oficialmente registrados, herança da era dos piratas, o que faz de Ilha Grande um dos melhores pontos de mergulho do litoral brasileiro.

Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
O clima tropical garante calor o ano inteiro, mas a chuva concentra-se no verão. A melhor janela para trilhas longas é o outono, e o inverno seco oferece visibilidade ideal para mergulho:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo (Angra dos Reis). Condições podem variar.
Como chegar à maior ilha do Rio de Janeiro?
O acesso é exclusivamente por barco. As três rotas partem do continente e desembarcam na Vila do Abraão. De Conceição de Jacareí, o trajeto dura cerca de 20 minutos de táxi-boat e é a opção mais rápida. De Angra dos Reis, catamarãs saem do Cais de Santa Luzia com travessia de aproximadamente 50 minutos. De Mangaratiba, a barca faz o percurso mais longo, cerca de 80 minutos, mas é a saída mais próxima de quem vem do Rio de Janeiro pela BR-101.
Mais detalhes sobre horários e embarques estão no portal Visite Angra dos Reis, da Prefeitura.
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Embarque para a ilha que trocou grades por trilhas
Poucos lugares no litoral brasileiro oferecem essa combinação de natureza intocada, patrimônio histórico e isolamento acessível. Ilha Grande transformou seu passado mais sombrio em um dos destinos de ecoturismo mais preservados do país.
Você precisa pisar na areia do Abraão, caminhar até Lopes Mendes e entender por que uma ilha sem carro, sem asfalto e sem pressa virou Patrimônio da Humanidade.




