No sopé da Serra dos Mascates, onde tropeiros mineiros paravam a caminho da Corte, Valença cresceu com o ouro verde do café e nunca perdeu o hábito de receber bem. A cidade do Vale do Café fluminense guarda fazendas imperiais, um quilombo centenário que é berço do jongo e um vilarejo onde seresteiros cantam de porta em porta toda sexta à noite.
Do aldeamento dos Coroados ao apogeu do café imperial
A história de Valença começa em 1789, quando a rainha Dona Maria I ordenou a catequese dos índios Coroados que habitavam o vale entre os rios Paraíba do Sul e Preto. A primeira missa foi celebrada em 1803, no topo do morro que até hoje carrega um cruzeiro. Em 1823, a povoação foi elevada a vila por decreto de Dom Pedro I, e a cultura do café transformou tudo ao redor.
Entre 1856 e 1859, a província do Rio de Janeiro produziu mais de 63 milhões de arrobas de café. São Paulo e Minas Gerais juntas somavam apenas um quarto desse volume. Os barões valencianos investiram a fortuna em casarões, igrejas e obras públicas. Em 1884, o botânico francês Auguste Glaziou, o mesmo que projetou o Campo de Santana e a Quinta da Boa Vista, desenhou os jardins da Praça Visconde do Rio Preto, tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC).

Conservatória canta de porta em porta há mais de um século
A 28 km da sede, o distrito de Conservatória mantém uma tradição que começou no século 19, quando um professor de violino alemão, Andreas Schmidt, passou a tocar em noites de lua cheia e atraiu seguidores. A prática nunca parou. Toda sexta e sábado, a partir das 23h, seresteiros saem da Casa da Cultura e caminham pelas ruas de paralelepípedo cantando diante das fachadas.
Em 1960, os irmãos José Borges e Joubert de Freitas criaram o projeto “Em cada casa uma canção”. Placas metálicas com título e autor de uma música escolhida pelo morador foram fixadas nas residências do centro histórico. São 403 placas no total, e a última foi colocada em 2003. O Museu da Seresta e Serenata abriga um dos maiores acervos desse gênero musical no mundo, conforme a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Valença.
Qual o papel do Quilombo São José na cultura valenciana?
Cerca de 200 afrodescendentes de uma mesma linhagem familiar vivem no Quilombo São José, comunidade centenária que preserva o jongo, dança de roda reconhecida pelo Governo Federal como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. O jongo é considerado uma das origens do samba. Foi nessa comunidade que nasceu Clementina de Jesus, uma das vozes mais importantes da música brasileira. O quilombo mantém tradições como a umbanda, o calango, o terço de São Gonçalo e a medicina natural.

O que conhecer além das fazendas históricas?
A segunda maior área territorial do estado do Rio de Janeiro oferece atrações espalhadas entre a sede e os seis distritos. Os destaques para quem visita a região são estes:
- Fazenda Santo Antônio do Paiol: exemplar preservado do ciclo do café, com mobiliário e objetos de época. Aberta à visitação guiada.
- Morro do Cruzeiro: mirante a 800 metros de altitude com cruzeiro de 1803 e vista panorâmica de toda a cidade e da Serra dos Mascates.
- Túnel que Chora: escavado por mãos escravas no século 19 para passagem da ferrovia. Tem 95 metros de extensão e recebe esse nome pela água que brota das pedras.
- Ponte dos Arcos: construção centenária em pedra ligada com óleo de baleia, inaugurada em 1884 na presença de Dom Pedro II.
- Catedral de Nossa Senhora da Glória: matriz valenciana com acervo sacro dos séculos 18 e 19. Abriga o Museu de Arte Sacra.
- Rota do Queijo: passeio inaugurado em 2023 que percorre fazendas produtoras de queijos artesanais. A Fazenda Capril do Lago produz queijo de cabra premiado na França entre os 12 melhores do mundo na categoria.
A programação cultural e turística pode ser consultada no portal da Prefeitura de Valença.
Quem deseja explorar as relíquias do Vale do Café, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal De fora em Juiz de Fora, que conta com mais de 100 mil inscritos, onde Tati Marmon mostra as belezas e histórias de Valença, no Rio de Janeiro:
Quando o clima favorece cada tipo de passeio?
O clima tropical de altitude, a 560 metros, traz verões quentes e invernos secos com noites frias. A melhor janela para visitar vai de abril a setembro:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar ao coração do Vale do Café?
Valença fica a 148 km do centro do Rio de Janeiro, cerca de 2h30 de carro pela Via Dutra até Piraí e depois pela RJ-145. Quem vem de São Paulo percorre aproximadamente 350 km pela Dutra. Ônibus partem da Rodoviária Novo Rio em horários regulares. O aeroporto mais próximo é o Santos Dumont, a 150 km.
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Conheça a cidade que canta de porta em porta
Poucas cidades fluminenses reúnem tanta história real nas paredes, música viva nas ruas e sabores artesanais no prato. Valença cresceu com o café, resistiu ao fim do ciclo e reinventou sua identidade sem perder a memória.
Você precisa subir a Serra dos Mascates, ouvir uma serenata em Conservatória e provar um queijo premiado na mesma viagem para entender por que esse pedaço do Vale do Café ainda emociona quem chega.




