O silêncio das máquinas na icônica planta de São Caetano do Sul (SP) ecoa mais do que o barulho da produção de décadas. A Chocolates Pan, uma instituição que beirou o centenário, encerrou oficialmente sua trajetória, deixando para trás um rastro de memórias afetivas e uma lição amarga sobre a sobrevivência da indústria nacional.
O Nascimento de um Gigante de São Caetano
Fundada em 1935 por Aldo Aliberti e Oswaldo Falchero, a Pan não era apenas uma fábrica; era um marco geográfico e econômico. Durante décadas, o aroma de chocolate que emanava da fábrica era parte da identidade da cidade. Diferente das multinacionais que chegavam ao Brasil, a Pan mantinha um DNA estritamente familiar e focado no “design da experiência”.
A Anatomia da Nostalgia: Mais que Chocolate, um Brinquedo
O que diferenciava a Pan de competidores como Nestlé ou Lacta era o seu portfólio lúdico. A fábrica entendeu, antes de muitas outras, que o público infantil não buscava apenas açúcar, mas interação.
- As Moedas de Chocolate: Envoltas em papel alumínio dourado, eram o “tesouro” de toda festa de aniversário entre os anos 70 e 90.
- Os Polêmicos “Cigarrinhos”: Lançados em uma época em que o tabagismo era glamourizado, tornaram-se o item mais famoso da marca. Mais tarde, sob pressão social, foram rebatizados como “Lápis de Chocolate”, mas o formato cilíndrico já estava gravado no imaginário popular.
- Pan d’água: O chocolate “raiz”, acessível e onipresente em baleiros de vidro nas padarias de esquina de todo o Brasil.
Por que a Fábrica Parou? A Anatomia da Queda
Sendo direto: a nostalgia é uma ótima ferramenta de marketing, mas não paga boletos de fornecedores. O encerramento das atividades da Pan foi o resultado de uma “tempestade perfeita” que durou mais de uma década:
- O Peso do Passado: A estrutura física e o maquinário da fábrica envelheceram. Enquanto concorrentes investiam em automação de ponta, a Pan lutava para manter processos que se tornaram caros e lentos.
- O Endividamento Crônico: Com dívidas fiscais e trabalhistas que ultrapassaram a marca dos R$ 260 milhões, a empresa entrou em recuperação judicial em 2021. O plano de reestruturação, infelizmente, não sobreviveu à queda de consumo gerada pela pandemia.
- A Mudança no Paladar: O consumidor moderno passou a exigir chocolates com maior teor de cacau e menos gordura hidrogenada. A Pan, presa às suas fórmulas clássicas, perdeu espaço para o movimento “Bean to Bar” e para chocolates premium.
“O fechamento da Pan é o reflexo de uma indústria que não conseguiu atravessar a ponte da modernização digital e de processos, mesmo detendo um dos maiores ativos do mercado: o amor do consumidor.”
O Pós-Morte: O Leilão da Marca
Embora a fábrica de São Caetano tenha fechado e suas máquinas tenham sido leiloadas como sucata ou para outras indústrias, a “alma” da Pan — sua marca e patentes — foi comprada pela Cacau Show. Isso significa que, embora a entidade fabril original tenha morrido, os produtos icônicos podem retornar às prateleiras com uma nova roupagem técnica, mas mantendo o apelo nostálgico.
O Que Fica para a História
A matéria do encerramento da Pan não é apenas sobre economia; é sobre o fim de um tempo onde o chocolate era simples, lúdico e fazia parte do cotidiano de forma menos complexa. Para os ex-funcionários, resta a lembrança de uma vida dedicada aos tachos de cobre; para o consumidor, fica a saudade das moedas douradas que valiam mais do que o chocolate em si.
