O uso intensivo do celular para assistir a vídeos curtos deixou de ser apenas um hábito de passatempo e passou a ser um tema de saúde mental e de funcionamento do cérebro, com relatos de mente cansada, perda de concentração e sensação de que é quase impossível se desligar da tela, deixando muitos com a impressão de estarem mentalmente mais esgotados do que quando começaram a rolar o feed.
O que é brain rot e por que esse termo ganhou tanta relevância?
No vídeo do @Papo com Anahy D’Amico, o brain rot é explicado de forma direta, mostrando como vídeos curtos afetam atenção, memória e energia mental.
A palavra-chave brain rot, traduzida como “podridão cerebral”, descreve um estado de lentidão mental, confusão e dificuldade de sustentar o foco após o consumo exagerado de conteúdos rápidos. Não é um diagnóstico médico, mas um rótulo popular que sintetiza sintomas ligados ao uso constante de redes sociais e vídeos curtos, reconhecido em 2024 pela Universidade de Oxford como expressão do ano.
Na prática, o fenômeno aparece em situações comuns do cotidiano, como a dificuldade de terminar tarefas simples sem interrompê-las para “dar uma olhadinha” no celular. Ler algumas páginas de um livro, acompanhar uma aula ou ver um filme inteiro sem checar notificações vira um desafio, e muitas pessoas sentem a mente “embaçada”, com esquecimento e perda de noção do tempo online.
Como os vídeos curtos impactam o cérebro e favorecem o brain rot
Os aplicativos de vídeos curtos são desenhados para manter a atenção o máximo possível, com sons marcantes, imagens chamativas e recompensas imediatas, como curtidas e comentários. Esse formato rápido estimula repetidamente o sistema de recompensa do cérebro, aproximando-se de outros comportamentos de difícil controle e moldando o jeito como buscamos prazer e distração.
Com o tempo, o cérebro se acostuma a estímulos intensos e imediatos, e tarefas que exigem continuidade, como estudar ou trabalhar em projetos longos, tornam-se menos atraentes. Especialistas em saúde mental observam cada vez mais quadros em que a atenção fica fragmentada e a rotina é marcada por:
- Dificuldade de concentração em tarefas que duram mais de alguns minutos.
- Esquecimento frequente de pequenas obrigações do dia a dia.
- Impressão de piora cognitiva, como se o raciocínio estivesse mais lento.
- Irritabilidade quando o acesso ao celular é limitado.
Leia mais: Anvisa regulamenta soluções salinas como dispositivos médicos
Quais são os principais sinais de que o uso do celular passou do limite?
Nem todo uso de redes sociais indica brain rot, mas alguns comportamentos chamam atenção e servem como alerta. Um deles é a diferença entre a intenção inicial e o tempo real de uso: a pessoa entra para assistir a um ou dois vídeos e, quando percebe, já se passaram dezenas de minutos ou até horas.
Também preocupam a sensação de sair do aplicativo mais cansado mentalmente do que antes e o hábito automático de pegar o celular em qualquer pausa. Nas relações pessoais, surgem encontros em que todos estão presentes fisicamente, mas conectados sobretudo à tela, o que reduz a qualidade das interações e do vínculo.
Como reduzir os efeitos da podridão cerebral na rotina diária

Embora o cenário pareça rígido, o cérebro apresenta grande capacidade de adaptação, graças à neuroplasticidade. Mudanças consistentes de hábito ajudam a recuperar foco e clareza mental, reposicionando o celular como ferramenta, e não como centro das experiências diárias.
Entre as estratégias de higiene digital mais citadas estão a definição de limites de tempo para aplicativos de vídeos curtos, a desativação de notificações não essenciais e o estabelecimento de horários sem tela. Retomar atividades lentas, como leitura gradual, filmes sem pausas e práticas manuais, além de permitir o tédio em momentos de espera, favorece reflexão, criatividade e reorganização mental.
Leia mais: Estudo revela os desafios do diagnóstico tardio de TEA em idosos
Por que o brain rot exige um novo jeito de lidar com tempo e atenção
A discussão sobre brain rot mostra que a questão vai além do entretenimento e alcança como as pessoas gerenciam tempo, atenção e disposição para experiências profundas. Com os vídeos curtos presentes em praticamente todas as plataformas, a tendência é que o tema siga em destaque em pesquisas, escolas, empresas e serviços de saúde.
Rever hábitos digitais não elimina os benefícios da tecnologia, mas abre espaço para um uso mais intencional, em que telas e vida offline coexistem com menos conflito. Ao priorizar períodos de foco, convivência presencial e descanso real, cria-se um cenário mais favorável para o funcionamento do cérebro e para relações mais consistentes, reduzindo o peso da “podridão cerebral” no dia a dia.




