"Quero fazer o brasileiro tomar o café que ele merece"
Fundador da Coffee ++, Leonardo Montesanto conta que se inspirou no sonho do avô para criar a marca mineira e levar aos supermercados variedades especiais do produto a preços acessíveis
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Neste mês de outubro, a Coffee ++, marca mineira de cafés especiais, completa seis anos de mercado. Leonardo Montesanto, fundador da empresa, conta que seu portfólio já soma 11 variedades do produto, disponíveis nas gôndolas de 18 estados brasileiros. Baseado em um sonho revelado pelo avô – Aprígio Tavares, que controlou a marca Três Corações durante um período –, o empresário revelou que a marca nasceu com o objetivo de fazer o brasileiro tomar o café que merece.
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Ao longo de entrevista ao EM Minas, programa da TV Alterosa em parceria com o jornal Estado de Minas e Portal Uai, ele narrou toda a sua trajetória empresarial e explicou como tem feito para democratizar o acesso aos cafés especiais. Como produtor, Leonardo destacou os efeitos benéficos de aumentar a produtividade das lavouras que existem no país. Para o empresário, uma das questões mais desafiadoras dentro da porteira, hoje, é organizar a sucessão no campo.
O brasileiro está tomando um café melhor ou só pagando mais caro pelo mesmo produto?
Existe hoje um grande esforço em ensinar sobre café para o brasileiro. Quando a gente fala desse valor ou preço, tem uma frase que gosto que diz que a principal diferença entre preço e valor é que valor não tem preço. Quando falamos de uma matéria-prima de altíssimo nível, que são os cafés especiais, se você olhar quanto os gringos pagam por esse café lá fora, aqui no Brasil é até de graça.
Está em curso uma mudança cultural na forma de consumir o café? As pessoas estão se interessando mais por variedade, por formas de fazer?
Eu tenho uma gratidão muito grande por duas coisas: nutricionistas e as canetinhas emagrecedoras. O nutricionista porque incentiva as pessoas a se alimentarem melhor. E, quando falamos do café tradicional, existe um sério problema de queimação no estômago e azia porque o que está ali dentro é um monte de coisa, menos café. Quando a gente vai para a canetinha, as pessoas estão querendo emagrecer e, consequentemente, estão escolhendo consumir produtos de qualidade, como o café especial.
O café está passando pelo mesmo processo do vinho, ou da cerveja artesanal, em que as pessoas procuram saber mais sobre o produto?
Eu tenho um nome para isso: a vinificação do café. Antes, a gente falava só 'me dá um pretinho'. Hoje, não, queremos saber de onde vem aquele café, de qual região, quais são os atributos sensoriais, suas harmonizações. Mas, não é porque todo mundo está falando, é uma escolha consciente. Isso é muito diferente.
Por que o café tem pesado no bolso do consumidor?
É uma conjunção de fatores, como questões climáticas e de oferta e demanda, mas existe também uma parte especulativa. O café só é produzido em países de terceiro mundo, da linha do Equador para baixo, e os grandes consumidores estão acima da linha do Equador, que são os países ricos. Apesar disso, o café é a segunda commodity mais negociada do mundo em bolsa de valores, só perdendo para o petróleo. Hoje, um café tradicional é vendido em média entre R$ 60 e R$ 70 o quilo. Com essa quantidade, dá para fazer aproximadamente 100 doses. Então, a dose de um café tradicional custa em média 60 centavos. Já o quilo do café especial custa entre R$ 130 e R$ 150, rendendo também 100 doses. Logo, uma dose de um café especial custa R$ 1,30. Com 70 centavos a mais, qual produto no mundo oferece uma diferença de qualidade tão absurda? O café especial é o luxo mais barato que qualquer brasileiro pode ter.
Já que a diferença é tão pequena, falta conhecimento para as pessoas assimilarem que o café especial é acessível?
Quando eu decidi montar a Coffee ++, o propósito era democratizar o café especial para o brasileiro. Se você voltar cinco anos, era muito difícil achar um supermercado que tivesse uma prateleira de cafés especiais. Hoje, tem uma gôndola de café especial, e alguns com preços muito acessíveis. Obviamente que ainda existe uma falta de conhecimento do consumidor. O brasileiro, de uma forma geral, foi ensinado que o produto gourmet é o melhor. Mas, quando falamos em café, o gourmet está até duas categorias de qualidade abaixo do café especial ou do superespecial.
Fora as questões climáticas, qual é o principal desafio do produtor de café?
É a sucessão no campo. Um menino de 5 anos que cresce com o pai dentro da roça, dirigindo trator, olhando café, colhendo café, se apaixona por aquilo. Quando ele faz 18 anos vai estudar agronomia. Quando ele volta, com 23 anos, o que acontece com a maioria dos jovens? Eles acham que vão aplicar tudo o que aprenderam na faculdade ali e vai dar certo. Eles se empolgam, e o que o pai faz? Erroneamente, corta as asinhas do filho e fala: 'Olha, o meu avô fazia assim, meu pai fazia assim, eu faço assim, quem é você para falar comigo que eu tenho que fazer diferente?' E o que o filho faz? Vai embora. O certo seria esse pai falar assim: 'Meu filho, papai tem 100 hectares aqui, eu vou te dar um. Faz o que você quiser, erre lá, mas, se você acertar, a gente vai multiplicando juntos'. Hoje, a grande dificuldade do produtor de café é manter essa geração do campo. Por quê? A gente fala muito em aumento de produção de café no Brasil. Eu não sou contra, mas, primeiro, sou a favor de aumentar produtividade. Exemplo: nas minhas fazendas que são irrigadas, conseguimos – em 10 safras, esse detalhe é importante – ter 45 sacas de produtividade média por hectare, contra 32 sacas da média brasileira. Se a gente aumentar 10% na produtividade média do Brasil, estamos falando de quase 5 milhões de sacas de café. Para aumentar o consumo global em 5 milhões de sacas de café, é isso aqui que a gente tem que fazer. Em contrapartida, o custo para plantar um hectare de café hoje é de R$ 60 mil a R$ 80 mil. É um investimento muito alto e você só pega o retorno dele três anos depois.
Como o café entrou na sua vida e como você transformou isso em uma empresa?
Essa história começa com o meu avô, que é de Ponte Nova, pertinho de Ouro Preto, um pequeno comerciante que comprava café de pequenos produtores e fornecia para algumas indústrias. Uma dessas indústrias se chama Café Três Corações, que naquela época era tão pequena que era uma indústria de bairro, não era nem municipal. Porém, em outubro de 1983, o proprietário ia pedir falência. Para o meu avô não quebrar junto, negociou com ele, já que o proprietário devia muito dinheiro ao meu avô. Ele assumiu o Café Três Corações no dia 12 de março de 1984, dez dias antes de eu nascer. Eu passei a minha infância inteira lá dentro. A partir dos meus 6 anos, toda sexta-feira o meu avô mandava o motorista me buscar na escola para almoçar lá com ele. E toda sexta-feira que eu chegava lá tinha uma missão. Eu tinha um isopor de chup-chup ou de picolé e ele falava assim: 'Tem 20 chup-chups aqui dentro. Custa R$ 1 e você vai vender por R$ 2, volta aqui e paga o meu R$ 1'. Então, aos 6 anos de idade, ele já estava me ensinando a fazer comércio. E o que eu mais ouvi daquela turma lá dentro era: 'Leo, o seu pai é foda, o seu avô então, você nem imagina'. Eu cresci ouvindo aquelas histórias do meu pai e do meu avô e pensei assim: 'Como que eu vou brilhar no meio do café sendo filho e neto de quem eu sou?' Tomei raiva de café, pavor. Quando eu tinha 16 anos, falei para o meu pai que no dia que ele morresse eu ia vender tudo, mas jamais na vida eu trabalharia com café. Como meu avô já tinha me ensinado muito cedo a gostar de ganhar dinheiro, aos 16 anos já abri o meu primeiro negócio em Belo Horizonte, um lava a jato. Fiquei lá por uns dois anos. Estudava de manhã, trabalhava de tarde e sábado. E teve um dia, um sábado abençoado, que meu avô foi lá no meu lava a jato e ficou me observando. Aquele sábado foi abençoado porque o meu aspirador de pó tinha estragado, eu estava ajoelhado no chão com aquelas escovinhas de sapato tirando poeira do carro dos outros, suando. Ele me chamou e falou assim: 'Meu filho, eu não te criei para mexer com isso não, rapaz. O seu pai está abrindo uma indústria de suco lá no Espírito Santo, você não quer transportar suco?' Eu olhei para ele e falei: 'Meu avô, eu tenho certeza que esse trem é melhor que esse negócio aqui, que dia eu começo?' Eu estava fazendo o segundo semestre de administração, mas devendo todas as matérias do primeiro, de tanto que eu amava estudar. Então, larguei a faculdade e mudei para Linhares, no Espírito Santo. Fiquei morando lá por dois anos. Depois, mudei para Santos, com 23 mais ou menos, com uma mão na frente e outra atrás. Quando eu saí de lá, cinco anos depois, eu tinha 100 caminhões, um terminal no porto e era o maior transportador de café do Brasil. Depois, vendi a transportadora e voltei para Belo Horizonte para assumir as fazendas do grupo. Naquela época, éramos um produtor muito grande, com mais de 3 mil hectares de café e 800 funcionários em dois estados diferentes. Logo que assumi, entendi que uma fazenda de café era exatamente igual a uma vinícola. A gente fala de terroir, em variedade de café, processo de pós-colheita, pessoas… Eu visitei mais de 40 produtores de café para aprender o que estavam fazendo de melhor, para poder adaptar à minha realidade e trazer para o meu negócio. As fazendas de café são 40% iguais, mas os outros 60% cada produtor faz de um jeito. É uma loucura, você não consegue fazer um benchmark com todo mundo. Dois anos depois, eu já havia aplicado tudo que eu tinha aprendido e os processos estavam redondinhos, então fui aprender sobre pós-colheita, que é o que se faz com o fruto depois de colhido. Em três anos, fui mais de dez vezes na América Central, conheço todos os países de lá, onde fui atrás dos cinco melhores produtores de cada país. Em 2018, ganhei o prêmio Cup of Excellence, com o café mais pontuado do mundo naquele ano. Em 2019, ficamos com o segundo lugar. Esse café campeão foi vendido para o Japão, num leilão eletrônico, por US$ 19 mil a saca, o café mais caro já vendido na história do Brasil. Mas, voltando um pouco na história, quando estava lá no Café Três Corações, eu tinha uma rotina de encostar com o meu avô para torrar café. Certa vez, ele virou para mim, ele só falou essa frase para mim uma única vez, eu tinha 6 anos: 'Meu filho, o sonho da minha vida é ver o brasileiro tomar o café que sempre foi exportado'. Essa frase voltou à minha cabeça 30 anos depois. Eu tinha ganhado todos os prêmios que eu podia ganhar como produtor de café. Eu decidi sair das fazendas porque eu queria abrir uma empresa que fosse fazer o brasileiro tomar o café que ele merece.
Dentre os que você produz, qual o melhor café que você tomou?
O Geisha safra 2018, café com 93,89 pontos entre 20 juízes internacionais no Cup of Excellence.
O que é esse Geisha?
É uma variedade de café. Como no vinho nós temos Cabernet, Syrah, Merlot e Pinot Noir, que são uvas roxas, elas são diferentes variedades. A minha uva roxa é o café arábica, e Geisha, Arara, Pacamara, Laurina, Bourbon são variedades diferentes de café. Por isso que a gente tem hoje na Coffee ++ 11 cafés completamente diferentes entre si. O Geisha é uma dessas variedades, descoberta na década de 1950 no pequeno vilarejo de Geisha, na Etiópia. Ele é o café mais delicado que eu já vi, com notas florais de jasmim e acidez cítrica de limão-taiti.
Dê uma dica para a pessoa que pretende começar a consumir um café especial. Precisa comprar uma máquina cara?
Você pode comprar um Coffee ++ mesmo, moído, e fazer do jeito que você faz. Você não muda nada, você só está melhorando a matéria-prima. A única coisa que eu peço é não colocar na garrafa que você estava usando para o café tradicional porque aquela garrafa está numa catinga danada. Faça direto na caneca só para você experimentar.
Qual é o erro mais comum que as pessoas cometem na hora de passar o cafezinho? Você tem alguma dica especial para o café ficar melhor?
A única coisa que eu abomino, mas é uma questão higiênica minha, é o filtro de pano. O resto não muda nada. As pessoas me perguntam qual é a medida certa de café e eu falo: 'Não sei, eu não conheço sua boca'. Então, tem que testar até achar o jeito que você gosta.
O café deve ser tomado sem açúcar?
Para mim, quem toma café tradicional sem açúcar é só o Rambo. Já o café especial não precisa de açúcar porque é muito gostoso, não é amargo.
A Coffee ++ está fazendo seis anos. Se você pudesse voltar atrás, no início da empresa, faria algo diferente?
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Tem uma coisa que eu teria feito hoje muito mais rápido. Meu pai chegou para mim no começo desse ano e falou assim: 'Meu filho, a Coffee ++ já andou um cadinho, vamos contratar uma pesquisa de mercado'. Eu falei: 'Pesquisa de mercado para quê, pai? É só você perguntar para mim'. Só em 2025, de norte a sul do Brasil, eu entrevistei 3 mil pessoas na gôndola do supermercado. Então, eu teria começado a entrevistar pessoas com 50 dias de empresa, não com um ano e meio.