Um dos estudos mais recentes sobre o impacto da Inteligência Artificial (IA) no mercado de trabalho brasileiro indica uma mudança de padrão quando comparado a ondas anteriores de mudança tecnológica. Antes, os principais afetados pela inovação eram trabalhadores de menor renda, menor escolaridade e inseridos em funções rotineiras ou de menor complexidade intelectual. Agora, o relatório “Impacto da Inteligência Artificial sobre Ocupações no Brasil” – produzido pelo Observatório de Negócios do curso de Administração da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) – revela um padrão consistente de novos afetados. As ocupações mais expostas à IA concentram trabalhadores com maior renda e maior escolaridade, com mais brancos, mais mulheres e adultos jovens.
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O relatório analisa mais a fundo as 20 ocupações com maior potencial de impacto da IA no Brasil, mostrando que a automação avançada incide sobretudo sobre atividades que envolvem processamento de informação, análise e tomada de decisão estruturada, e não apenas sobre funções repetitivas ou operacionais. Matemáticos, escriturários, contadores e estatísticos estão entre os mais expostos, refletindo o alto potencial da IA para automatizar tarefas de cálculo, registro e processamento de dados.
Profissões jurídicas também ganharam destaque no topo do ranking. Juízes, profissionais de serviços legais e agentes tributários figuram entre os primeiros lugares, indicando maior exposição de atividades documentais, normativas e regulatórias. Carreiras acadêmicas e de pesquisa também são fortemente impactadas, com físicos, economistas e professores universitários nas posições mais altas, mostrando que a IA afeta tarefas de síntese, modelagem e produção de conhecimento.
Do outro lado estão as profissões menos expostas à IA. A análise dessas 20 ocupações indica que funções baseadas em habilidades manuais, esforço físico e execução presencial seguem com baixo potencial de automação nas condições tecnológicas atuais. Comparadas com as profissões mais expostas, estas ocupações envolvem tarefas operacionais difíceis de digitalizar ou reproduzir por sistemas autônomos.
Este grupo é dominado por ocupações manuais da construção civil – pedreiros, telhadores, gesseiros e pintores –, evidenciando barreiras estruturais à automação em tarefas físicas e não padronizadas. Outras atividades baseadas em habilidades corporais complexas – como bailarinos, coreógrafos e atletas – são pouco substituíveis, reforçando o fato de que criatividade corporal e desempenho físico continuam essencialmente humanos.
De acordo com o relatório, serviços como lavadores de veículos, lavadeiros de roupas manuais e trabalhadores de jardinagem permanecem pouco expostos à ameaça da IA por dependerem de manipulação direta de objetos e variabilidade contextual. Funções de cuidado na saúde e trabalhos elementares da agricultura e agropecuária também exibem resistência à automação, já que dependem de contato humano e condições operacionais variáveis.
A análise dos grandes grupos ocupacionais mostrou que a IA atual incide com maior intensidade sobre ocupações associadas a tarefas cognitivas mais complexas, que também apresentam remunerações mais elevadas. Um bom exemplo é o subgrupo de ocupação que reúne diretores executivos, dirigentes da administração pública e membros dos poderes Executivo e Legislativo. A média de renda efetiva desses profissionais é de R$ 16.384,11 mensais, mas sua exposição à IA é altíssima.
Renda e escolaridade
Segundo o estudo, esta e outras tendências podem ser confirmadas a partir da análise da exposição à IA por características sociodemográficas. Na divisão por faixas de renda, as classes B1 (com renda mensal entre R$ 9.850 e R$ 19.747) e B2 (entre R$ 5.499 e R$ 9.849) estão mais expostas à automação. Esse cálculo considera a diferença entre o percentual que cada faixa de renda tem na população ocupada e seu percentual no grupo de ocupações com alta exposição à IA. Enquanto isso, nas faixas de menor renda – C2 (entre R$ 1.745 e R$ 3.190) e DE (menos de R$ 1.745) – essa diferença chega a ser negativa, indicando baixa exposição à automação.
Em relação à escolaridade, quanto maior o nível de instrução, mais impactadas pela tecnologia tende a ser a ocupação. Trabalhadores com ensino superior completo representam apenas 16% da população ocupada, mas correspondem a 58% no grupo de alta exposição. Em contraste, níveis mais baixos de escolaridade, como ensino fundamental incompleto, aparecem com muito menos frequência neste grupo, representando 30% da população ocupada e com apenas 3% no grupo de ocupações com alta exposição à IA.
No recorte por cor ou raça, as pessoas brancas representam 42% da população ocupada, mas correspondem a 57% no grupo de alta exposição. Já pessoas pardas e pretas, que juntas compõem a maior parte da força de trabalho brasileira, aparecem com menor frequência nesse conjunto de ocupações. A distribuição por sexo revela uma diferença moderada, mas relevante, na exposição à IA. As mulheres representam 51% da população ocupada e sobem para 55% no grupo de alta exposição.
Quanto às gerações mais expostas à IA, a variação é pequena. Trabalhadores da Geração Y (30 a 45 anos) e da Geração Z (15 a 29 anos) aparecem ligeiramente mais no grupo de alta exposição, enquanto a Geração X (45 a 64 anos) apresenta um potencial de impacto ligeiramente menor. Esse padrão reflete a concentração de adultos jovens em funções que exigem maior qualificação técnica e digital, frequentemente associadas à maior exposição à IA.
O relatório mostra ainda que na exposição à IA por unidades da federação, Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo apresentam os maiores índices, enquanto estados como Alagoas, Bahia e Pará aparecem entre os menos expostos. Isso porque os estados mais expostos à IA são justamente aqueles com maior concentração de profissionais qualificados e ocupações intensivas em informação.
Ciclos
O professor Rafael Laitano Lionello, responsável técnico pela pesquisa, explica que o índice que determina a exposição das profissões à IA é “agnóstico”, e não determina se a tecnologia será usada como complemento ou irá simplesmente substituir determinada função.
Também é importante destacar que as ocupações que hoje estão “imunes” à IA não estão garantidas para sempre. “É uma questão também de ciclo. Ainda estamos muito no campo do software, já que acessamos esses modelos na tela do computador. À medida que a tecnologia vai avançando, com o desenvolvimento da robótica, esses modelos vão sendo incorporados, abrindo um outro caminho, quando vamos entrar na parte braçal”, explicou Rafael Lionello.
O relatório sugere que as políticas públicas a serem criadas para compensar os efeitos da IA no mercado de trabalho devam levar em consideração três pontos: reconhecer que a adaptação exige diagnósticos diferenciados por ocupação, setor, geografia e perfil sociodemográfico; investir em qualificações previamente inexistentes; e considerar que as ocupações de menor exposição atual não estão permanentemente protegidas.
Na visão do responsável pela pesquisa, diante da dificuldade de prever o cenário futuro do impacto da IA no mercado de trabalho, é preciso estar preparado para diferentes situações. Ele considera importante o aprendizado em tecnologia, nos métodos quantitativos que são a base de todo o ecossistema da IA. “Não adianta nada uma pessoa ser craque em prompt se não tem uma compreensão de como aquela resposta é gerada pela máquina”, explicou Rafael Lionello.
Protegidos
Para a bailarina Suely Machado, professora e diretora de dança, não é surpresa a sua ocupação não estar exposta à IA. “A dança é uma arte presencial e que exige uma disciplina, uma harmonia, uma consciência corporal que é própria de cada um. [...] Não existe Inteligência Artificial que vai te dar esse equilíbrio, essa consciência do seu eixo para você conseguir girar várias piruetas sem cair. Isso é uma conquista humana e presencial”, explicou.
Em sua área de atuação, a diretora do grupo de dança Primeiro Ato acredita que a IA pode auxiliar com orientações de como dividir a coreografia no espaço de uma forma mais geométrica, além de sugerir músicas. “Quando você está escutando uma música e que vem no corpo o desejo de acompanhá-la de uma determinada maneira, isso é do sistema orgânico do ser humano. Não tem quem vá fazer isso. Nada vai substituir essa criatividade. Então, eu sinto que estamos protegidos dessa massificação que a Inteligência Artificial traz”, afirmou.
Na visão de Suely, a IA traz muitos benefícios, mas também tem as suas dificuldades: “É muito perceptível para mim um texto de Inteligência Artificial. Até porque ele não tem equívocos, as palavras são todas muito bem-compostas de uma racionalidade que não me pega. Assim vão ser também as músicas, as composições coreográficas, elas passam a obedecer a uma lógica que tira o que é arte. A arte proporciona algo que vai além da teoria, da lógica e do racional. A arte te provoca sensações que muitas vezes você não sabe porquê. Por que seu corpo está arrepiando?”
Auxiliar
A professora de Comunicação Social Verônica Soares da Costa, que também faz parte do programa de pós-graduação da PUC Minas, não esboça preocupação quanto à substituição de sua ocupação pela IA. O foco de suas questões sobre o tema é de como a tecnologia está sendo usada no papel de auxiliar.
“No ensino, o que me preocupa como professora é estarmos terceirizando o nosso pensar, a nossa reflexão crítica, o nosso sistema de debate da coletividade para essas ferramentas, sem nos importar com as consequências, inclusive para o nosso desenvolvimento pessoal e profissional”, afirma.
Como professora de Jornalismo, ela questiona qual é seu papel numa era em que a produção de notícias está sendo automatizada dentro das redações. “Tenho que ensinar o aluno a fazer aquilo que a Inteligência Artificial não faz, que é ir para rua, encontrar pessoas, olhar no olho da pessoa, entender os problemas sociais, econômicos, jurídicos, ambientais que estão circundando e saber quais são as histórias que precisam ser contadas”, respondeu.
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Ela lembra que há alguns anos o grande hype era a ideia do metaverso. Várias empresas investiram nisso – da virtualização das infraestruturas de trabalho aos espaços de sociabilidade –, até em função da pandemia, com a normalização do trabalho remoto, uma promessa que não se concretizou. “Sinto que agora estamos vivendo o hype da Inteligência Artificial, com grandes promessas, e eu não acho legal fazer essa futurologia de dizer que tal profissão vai acabar ou tal profissão vai ter mais oportunidades porque a gente não tem como saber como cada setor vai regular isso”, diz.