Como ex-retirantes estão plantando a fama do tomate na capital da cachaça
Eles aprenderam os segredos da cultura do tomateiro em anos trabalhando nas lavouras de SP. Hoje, seu conhecimento frutificou em caminhões de tomate em Salinas
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Salinas – Conhecida nacionalmente como “capital da cachaça”, Salinas, no Norte de Minas, também ganha fama pela produção de tomate, que avança em Nova Matrona, distrito do município. Porém, tão boa quanto a aguardente que fez a fama do lugar e a qualidade dos frutos que hoje pendem dos tomateiros na lavoura é a trajetória de quem os cultiva. Atualmente, a plantação é liderada por moradores que, no passado, sem perspectivas diante da escassez de chuvas na região, saíam em busca de emprego e renda no interior de São Paulo.
Na segunda reportagem da série “De volta para casa”, o Estado de Minas reconstitui o caminho trilhado por ex-retirantes que durante anos viajaram para longe para dar duro em plantações de tomate, mas que, com o tempo, além de garantir a safra vistosa e distante ano após ano, aprenderam os segredos da exigente cultura. Com o fertilizante do conhecimento, voltaram para a terra natal, adubaram o próprio sonho e hoje colhem perto de suas famílias, cultivando uma nova fama para a cidade.
Atualmente, esses agricultores e seus familiares fazem plantio irrigado com sistema de gotejamento, usando o recurso de barragens de captação da água da chuva. Graças à terra trabalhada com o aprendizado, a região se tornou grande polo produtor, a partir de tomateiros que começaram a se multiplicar por volta de 2010. Atualmente, já são cerca de 60 agricultores abastecendo não apenas o mercado consumidor da vizinhança, mas de diferentes partes do país.
A semente de tudo
“Fui para lá sem saber nem como era o plantio de tomate”, confessa Edvaldo Santos Cruz, ao explicar sua trajetória até se tornar um dos produtores de Nova Matrona. Ao completar 18 anos, ele se transferiu para Mogi Guaçu, perto de Campinas, no interior paulista, onde passou a trabalhar na lavoura tomateira da região, que funciona como um cinturão verde, abastecendo a Grande São Paulo.
“Foi uma experiência muito boa. Mas eu tive que fazer de tudo na plantação. Hoje, tem o viveiro e a muda já vem pronta. Mas, naquele tempo, a gente tinha que plantar a sementinha em copinhos e molhar para nascer”, recorda.
Foi assim por cerca de dois anos. Até que, ao retornar para o terreno da família em Nova Matrona, o agricultor decidiu semear o que aprendeu nas hortas paulistas. O plantio próprio virou uma guinada na vida. Tanto que, passados 25 anos, ele segue comemorando o crescimento da lavoura. Atualmente, cultiva sete hectares, onde vicejam 70 mil plantas por ano. Com produtividade de 400 caixas por mil pés, sua produção total soma 644 toneladas do fruto por ano.
E valeu a pena?
Depois de parar de viajar para plantar em outras terras, hoje é ele que envia caminhões carregados do produto para diferentes lugares do Brasil, incluindo os mercados de Belo Horizonte e cidades da Bahia, do Espírito Santo e do Sul do país. E comemora a melhoria de vida. “Trabalhar para si mesmo é um risco. Mas é coisa boa demais”, resume o agricultor. “Valeu a pena voltar para casa.”
Além do sistema de irrigação por gotejamento, mais racional, o produtor garante que adota outros cuidados com a preservação da natureza. Entre eles, faz o controle de agrotóxicos, com a lavagem correta e a devolução das embalagens para os fabricantes, conforme determina a legislação, com a devida fiscalização do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA).
Trajetória parecida entre os pés de tomate de Nova Matrona é descrita pelo agricultor Edson Leandro de Oliveira, de 34 anos. Ele conta que, seguindo três irmãos mais velhos, em 2006, deixou Nova Matrona rumo ao município de Santo Antônio da Alegria, em São Paulo. Lá, trabalharam como meeiros no plantio de tomate. Quatro anos depois, ele retornou a Salinas, trouxe aprendizado na bagagem e hoje segue firme na produção com a família.
“Aprendemos muito e hoje trabalhamos para nós mesmos. É muito gratificante ver que vencemos, seguimos na luta e, com fé em Deus, para a vida inteira”, afirma o produtor. Edson acredita que histórias como a sua provam que o êxodo rural pode ser reduzido com a continuidade dos jovens na produção agrícola, sem deixar o lugar de origem. “As coisas melhoraram muito. E, aqui na nossa região, serviço tem bastante se a pessoa quiser trabalhar”, avalia.
O “tomateiro” não dá detalhes, mas garante que a atividade garante bons resultados financeiros. “Hoje, aqui está bom demais. Quem trabalha está tendo salários maiores do que na cidade grande. Ninguém precisa mais sair para ganhar dinheiro.”
Aprendizado no Norte de Minas
Outro que se tornou um bem-sucedido plantador de tomate em Salinas é Esli Durães Neto, o Netão, de 39 anos. Seu contato com a cultura começou em 2004, quando tinha 17 e partiu em busca de alguma renda no serviço temporário em lavouras de São Paulo. Foram quatro anos indo e voltando, até 2008, quando se fixou de novo em sua terra, onde o plantio de outros agricultores, entre eles ex-retirantes como ele, já prosperava.
E foi em Salinas, conta, que de fato aprendeu os segredos do exigente cultivo. “Em São Paulo, eu fazia o que o pessoal mandava. Só aqui comecei a aprender sobre o manejo”, revela. Daí a começar o próprio plantio foi um salto: em 2017, passou a cultivar em terreno arrendado, usando água de barragem, com irrigação por gotejamento.
O resultado tinge de verde uma área 3,5 hectares, onde crescem 30 mil plantas que frutificam em duas safras por ano. Considerando a produtividade de 400 caixas (15 quilos cada) por mil pés, ele alcança a produção anual de 1.200 caixas de tomate, ou 276 toneladas.
O agricultor vende a maior parte da produção para o mercado de Belo Horizonte, mas quer chegar a outros centros consumidores do país. Porém, já celebra a melhoria de vida para a mulher, Luana Barbosa Durães, de 33, e os dois filhos do casal: Lívia, de 14, e Lucas, de 7. “Comprei uma casa em Salinas (na área urbana). Graças a Deus, também consegui comprar um caminhãozinho para trabalhar. A gente vai remando devagarzinho...”, orgulha-se o agricultor.
Não tem iFood?
“Aqui não tem iFood, mas tem tranquilidade. Tem um franguinho caipira e carne de boi criado no sítio”, brinca Narbal da Cruz Silva, de 47, ao responder sobre os motivos da mudança radical em sua vida. Ele trabalhava na indústria automobilística, em São Paulo, com alto salário e direito a viagens ao exterior. Deixou tudo e retornou à terra natal, no distrito de Ferreirópolis, no município de Salinas, onde também se tornou plantador de tomate, em parceria com o ex-retirante Edson Leandro.
Narbal relata que saiu de casa aos 16 anos e foi para Indaiatuba, em São Paulo. Após trabalhar um curto período na construção civil, ingressou na fábrica da montadora Toyota, na cidade paulista. Da produção, logo foi transferido para a área administrativa e de logística. Cresceu, virou instrutor e passou a viajar para treinamentos em outras fábricas da companhia japonesa.
“Tive a oportunidade de viajar por vários países, China, Japão, Estados Unidos, Emirado Árabes e Argentina, para ministrar treinamentos”, relembra. Depois de duas décadas na multinacional, há três anos Narbal decidiu retornar para Ferreirópolis com a mulher e os dois filhos
Adquiriu um sítio, começou a plantar abóbora japonesa, mas migrou para o cultivo do tomate em uma área arrendada, em sociedade com Edson Leandro. Iniciou recentemente um plantio de quatro hectares, onde devem ser colhidas 322 toneladas (14 mil caixas) neste ano.
Da fábrica para o sertão
O ex-funcionário da indústria automobilística assegura que a busca de melhor qualidade de vida foi determinante na sua decisão de voltar a morar no sertão mineiro. “Eu percebi que estava sobrecarregado. Estava com uma carga de responsabilidade muito grande dentro da empresa. Vi que estava em risco de entrar em depressão”, revela.
“Dinheiro não é tudo. Eu tinha um excelente salário e viajava sempre. Mas precisamos de qualidade de vida. E a gente tem essa qualidade de vida perto da família. Aqui, é muito mais tranquilo e melhor, pela qualidade do ar, menor quantidade de carros. Até mesmo pela menor quantidade populacional, é melhor de se viver”, avalia.
Ele disse ainda que, investindo na cultura do tomate, pode conquistar a mesma remuneração que recebia em São Paulo. “Posso ter renda semelhante, e ainda gerar empregos para outras pessoas e ajudar o lugar”, conclui o ex-migrante.
Qualidade diferenciada
A qualidade do tomate da região de Nova Matrona é um dos fatores responsáveis pelo espaço conquistado no mercado nacional. “Segundo os distribuidores, a qualidade do nosso tomate é diferenciada. Além de ter um bom conceito, é muito resistente”, afirma o empresário Vantuir Mendes, dono de uma distribuidora de frutas e verduras e Salinas.
Ex-produtor de tomate em Nova Matrona, ele montou a distribuidora em 2024. Hoje, vende o fruto para mercados em diferentes pontos do país. Pelos seus cálculos, a região de Nova Matrona e outras localidades vizinhas, abrangendo os municípios de Salinas e Taiobeiras, têm uma área total de 150 hectares de tomate, com uma produção anual de cerca de 13 mil toneladas – aproximadamente 770 caminhões carregados que rumam para Belo Horizonte, São Paulo, Salvador, Curitiba e Fortaleza, além de cidades no Espírito Santo, Sergipe, Pernambuco e Mato Grosso.
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A tecnologia do retorno
Para Luiz Rodolfo Antunes Quaresma, gerente regional no Norte de Minas do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural-Sistema Faemg/Senar, a volta de migrantes para a atividade rural na região de origem demonstra o incremento do agronegócio e da agricultura familiar, com adoção de novas técnicas e mecanismos de fomento para a convivência com a seca e a superação de suas dificuldades. “O retorno dessas pessoas mostra que houve um ganho tecnológico e viabilidade técnica e econômica para a permanência delas na região, gerando riqueza e valorização de patrimônio, além de melhorar a qualidade de vida do lugar e dos envolvidos na atividade”, avalia. Ele frisa que a maioria das pessoas não deixa sua terra porque quer, saem em busca de melhoria de vida ou meios de sobrevivência, o que deixa de fazer sentido quando conseguem o sustento em seu próprio chão. Segundo ele, o Senar procura apoiar esse movimento de fixação no campo. “Nossos treinamentos são feitos na fazenda, dentro da realidade da pessoa. Ela aprende as atividades para aquele ambiente, para aquele ecossistema, para aquele bioma”, resume.