Captura de Maduro pelos EUA não deve impactar acordo Mercosul-UE, dizem especialistas

Especialistas apontam impacto reduzido, apesar de ruído geopolítico na região, e que resistências internas da União Europeia seguem como principal obstáculo ao acordo

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A atuação dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro, tem inegável impacto geopolítico na América do Sul, mas não deve destravar ou impactar profundamente o acordo entre Mercosul e União Europeia. Essa é a avaliação predominante entre especialistas em comércio exterior e direito internacional ouvidos pela coluna.

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A leitura majoritária dos especialistas é que o episódio adiciona ruído político ao ambiente regional, mas não altera o núcleo do impasse que trava o acordo, concentrado nas resistências internas da União Europeia, especialmente em temas ligados à agricultura e às exigências ambientais.

“O cálculo é muito mais estrutural e de longo prazo: envolve acesso a um mercado sofisticado, previsibilidade de regras, atração de investimentos e a necessidade de diversificar parcerias. Nada disso depende diretamente do que está acontecendo na Venezuela”, afirmou Roberta Portella, professora da Fundação Getulio Vargas e vice-presidente da Comissão de Comércio Exterior da OAB-SP.

Segundo Roberta, a crise pesa no ambiente político e diplomático, mas tem efeito indireto e “não leva a uma reavaliação profunda das prioridades comerciais do Mercosul”.

Na mesma linha, Cláudio Finkelstein, especialista em direito e comércio internacional, avalia que o episódio não muda o quadro. “O entrave realmente é a União Europeia”, avaliou.

Já de acordo com Arno Gleisner, diretor de Comércio Exterior da Câmara de Comércio, Indústria e Serviços do Brasil, o acordo entre Mercosul e União Europeia “é econômico, não político, embora sempre tenha reflexos políticos”.

Para Gleisner, cenários mais graves de instabilidade regional tendem a piorar o ambiente para o acordo. Quanto maior a instabilidade no entorno do Mercosul, menor a disposição europeia para avançar em compromissos comerciais de longo prazo, explica o especialista.

Uma leitura diferente é feita por José Augusto de Castro, presidente-executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Para ele, a atuação dos Estados Unidos “indiretamente agiliza” o acordo.

“Se nada for feito, os EUA passam a ser donos da América do Sul, passam a ter influência 100% no bloco. Com o acordo, você reduz essa influência”, disse.

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Segundo Castro, o movimento “dá mais urgência ao acordo Mercosul–União Europeia” e pode acelerar decisões “para não perder o bonde”, especialmente no caso do mercado venezuelano. Ele pondera, no entanto, que “o Brasil não teria grande ganho”, mantendo o perfil exportador de commodities, enquanto “para a União Europeia, entrar no mercado americano seria ótimo”.

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