Entrevista

NO MP, ELE BATE UM BOLÃO

"Não basta prender apenas a ponta da organização.É preciso alcançar quem financia, protege, lava dinheiro e dá sustentação a essas estruturas"

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ROMÃO ÁVILA MILHAN JÚNIOR

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Procurador-geral de Justiça do Mato Grosso do Sul

O senhor queria ser jogador de futebol, foi do time de sua cidade e chegou a jogar em times juvenis de São Paulo. Como se deu essa “troca de camisa” para a carreira do Ministério Público?

Dos 11 aos 16 anos, vivi intensamente o sonho do futebol. Joguei no time da minha cidade, fui capitão, treinei em São Paulo e no Londrina. Meu pai, com muita sabedoria, dizia que eu deveria estudar, porque talvez a bola não fosse o meu caminho. O tempo mostrou que ele tinha razão.

Mas o futebol me deixou lições que carrego até hoje: humildade, disciplina e espírito de equipe. Eu me destacava em um time pequeno porque aquele time era muito bom. Quando cheguei a São Paulo, percebi que era apenas mais um. Essa experiência me ensinou que ninguém chega a lugar nenhum sozinho.

No Ministério Público, encontrei outro campo para servir. Aqui também não há vitória individual. A instituição só é forte quando membros, servidores e parceiros compreendem que integram um mesmo time, com uma missão maior: defender a sociedade.

O senhor foi eleito por unanimidade por seus pares e reconduzido para mais um mandato. A pujança do agronegócio é exemplo de que o Brasil tem jeito? Como enxerga Mato Grosso do Sul hoje comparado com a época em que veio para o Estado? E qual legado pretende deixar?

Mato Grosso do Sul é uma demonstração concreta de que o Brasil tem jeito quando há trabalho, segurança jurídica, responsabilidade institucional e capacidade de diálogo. O agronegócio é uma das expressões dessa força: produz alimento, gera desenvolvimento, atrai investimentos e projeta o estado para o Brasil e para o mundo.

Como disse o procurador-geral da República, Paulo Gonet, este é um estado que acolhe talentos e prestigia quem está disposto a trabalhar pelos valores democráticos e por um país melhor. Concordo com essa visão.

A recondução, com 224 votos, 96,13% dos votos totais e 100% dos votos válidos, aumenta muito a responsabilidade. Quero deixar como legado um Ministério Público mais resolutivo, moderno e próximo da população, com atuação firme no combate ao crime organizado, na redução dos feminicídios e na defesa de áreas essenciais como saúde, educação, infância, meio ambiente e patrimônio público.

O senhor é coordenador, no âmbito do Ministério Público, do Grupo Nacional de Combate às Organizações Criminosas (GNCOC). É possível combater a proliferação e o fortalecimento das organizações criminosas no Brasil? Como e o que tem sido feito?

É possível, mas não com respostas antigas para um problema que evoluiu. O crime organizado atua em rede, atravessa fronteiras, movimenta recursos, infiltra-se em estruturas econômicas e utiliza tecnologia. A resposta do Estado precisa ser igualmente integrada, permanente e baseada em inteligência.

No MPMS, o enfrentamento ao crime organizado é prioridade. Temos uma parceria muito forte com a Polícia Militar, a Polícia Civil, a Polícia Federal e órgãos de inteligência. No plano nacional, à frente do GNCOC, o trabalho é articular os Gaecos dos Ministérios Públicos, ampliar o compartilhamento de informações e estimular operações coordenadas.

Não basta prender apenas a ponta da organização. É preciso alcançar quem financia, protege, lava dinheiro e dá sustentação a essas estruturas. O caminho passa por investigação patrimonial, descapitalização das facções, integração de dados e atuação conjunta entre instituições.

O senhor participará, como palestrante, de um importante evento no Parlamento Europeu sobre “Combate aos Crimes Transnacionais”. O Brasil tem o que mostrar?

Tem, e muito. O Brasil enfrenta diariamente desafios que muitos países conhecem apenas em debates acadêmicos. Mato Grosso do Sul, por sua posição de fronteira com Paraguai e Bolívia, convive de forma direta com tráfico de drogas, armas, lavagem de dinheiro e atuação de organizações criminosas que não respeitam limites territoriais.

Essa realidade nos deu experiência prática. Aprendemos que crime transnacional não se combate com isolamento. É preciso cooperação real entre países, Ministérios Públicos, polícias, órgãos de inteligência e instituições de controle.

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A contribuição brasileira está justamente nessa vivência: integração institucional, uso de dados, operações coordenadas, investigação financeira e descapitalização das organizações criminosas. É essa mensagem que pretendo levar: o enfrentamento ao crime transnacional exige coragem, inteligência e capacidade de agir de forma conjunta.

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