Entrevista

O PAI DO RAIO-X DO JUDICIÁRIO

Entendo que o juiz ganha pouco e a única forma de manter na carreira os mais capazes é oferecer não um bom salário, mas um ótimo salário

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MÁRCIO CHAER

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Fundador do site jurídico ConJur – Consultor Jurídico

O que levou o senhor a fundar o ConJur – Consultor Jurídico e os seus anuários? Quantos e quais são os anuários atualmente? Hoje o ConJur é uma referência como repertório de jurisprudência, sendo dos três mais importantes sites jurídicos do país. No início, as dificuldades foram muitas? Houve resistência por parte de magistrados quanto à divulgação de seus dados?

Depois de atuar em publicações como Folha, Veja, Gazeta Mercantil e Jornal do Brasil, planejamos um jornal digital com diferenciais próprios. Em primeiro lugar, ser um campo da defesa.

A imprensa tradicional se pauta pela acusação. É dominada pela agenda da polícia, do Ministério Público e juízes cultores do direito penal máximo. Invertemos a lógica de que só acusação dá manchete. Outra característica que buscamos: refletir a complexidade e as nuances da vida – o que nos diferencia da visão simplória de que o mundo se divide entre santos e demônios.

Outra particularidade é não ceder à tentação dos sentimentos morais. Privilegiar o racional sobre o emocional. A opção jornalística pela demagogia e pelo populismo tem um sentido de ser: a população quer bacalhau, como dizia Chacrinha. Entre o importante e o interessante, a segunda alternativa ganha sempre. Nossa busca é apresentar o importante de forma interessante.

Essa linha editorial, naturalmente, afasta o grande público. Enfatizássemos processos sobre futebol, sexo ou religião, a audiência se multiplicaria. Mas eu perderia a atenção do ministro do STF, do empresário, em suma, do público que visamos.

Nesse sentido, encaro como reconhecimento o fato de a ConJur ser o veículo mais citado nos acórdãos, votos e sentenças do Brasil – ou seja, na jurisprudência. Num tom mais rasteiro, arrisco a dizer que a Consultor Jurídico “faz a cabeça dos juízes’. E não se trata só de encabeçar o ranking: as menções somadas a todos os veículos de comunicação brasileiros é um número menor que as citações à ConJur.

Os anuários nasceram 20 anos atrás e deram filhotes. Além da versão Brasil, temos a São Paulo, Justiça Federal, Direito Empresarial, Ministério Público, Justiça do Trabalho, Poder Executivo e a única publicação em inglês sobre a justiça brasileira: o Justice Yearbook Brazil – além de outras edições eventuais, como o da Saúde Suplementar.

O único caso de resistência digno de nota foi em São Paulo. O presidente do TJ, Roberto Antonio Vallim Bellocchi, publicou seis vezes no Diário Oficial o que ele entendia ser uma “proibição” ao Anuário paulista. O ministro Joaquim Barbosa também nos criticou certa vez. Mas foi porque publicamos que sua contribuição com o STF foi nula.

Em 2026 completa-se 20 anos do Anuário da Justiça Brasil e os 15 anos do Anuário São Paulo. Na sua visão, quais foram as principais evoluções do sistema de justiça de lá para cá?

O Judiciário brasileiro, no mundo todo, é o que mais participa da vida do país. Cada juiz brasileiro julga em média quase 3 mil processos por ano. Com a Constituição de 1988, a carga de trabalho multiplicou-se; os prazos se reduziram; a qualidade das decisões melhorou. Não é por acaso que a magistratura é reeleita todo ano com mais de 40 milhões de “votos” – o índice médio de processos novos por ano. Não confiasse no sistema, o brasileiro não entregaria seus destinos à máquina judiciária.

Por isso entendo que o juiz ganha pouco e a única forma de manter na carreira os mais capazes é oferecer não um bom salário, mas um ótimo salário. Quem quiser fazer demagogia, fique à vontade. Mas você não entra em um restaurante Michelin 3 estrelas e tenta pagar o prato com um vale-refeição. Quem quer mais, tem que pagar mais.

Quais as contribuições que o ConJur, com seus anuários, tem assegurado para advogados e jurisdicionados ao longo desses 20 anos? E o que eles podem esperar daqui em diante? A jurimetria tem evoluído e se tornado cada dia mais importante para a consultoria jurídica?

A vocação do site e anuários é ser útil, no sentido de utilitarismo. O conteúdo que produzimos se destina a contribuir com o advogado em suas petições; com o MP em seus pareceres; com o juiz em suas decisões; com o empresário em seus negócios e com as escolas em seu mister.

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A tecnologia tem ajudado muito com essas ferramentas de busca sofisticadas. Vai ajudar mais. Por enquanto, está um pouco superestimada. Muito fetiche, muita fantasia. A verdade é que não sabemos com certeza sequer o número total de processos em curso no sistema. Os 75,2 milhões de casos está mais para uma estimativa. Tenho esperança que em breve se saiba a composição do acervo nacional por tipo de demanda e por números absolutos. Mas chegaremos lá um dia.

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