Sangue no copo

De Nova York para o mundo, coquetel vermelho do desjejum ou da cura da ressaca une sal, vodca e muitos temperos da cozinha quente

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Entre tantos coquetéis clássicos no mundo, o Bloody Mary certamente é um dos mais únicos. Não é apenas salgado, une o umami do tomate e a acidez do limão com a picância do molho de pimenta e o sabor condimentado do molho inglês. Sua cor vermelho sangue não é fruto de nenhuma alquimia como costumamos observar em criações mais modernas da coquetelaria. É simplesmente fruto do uso abundante do tomate, ingrediente potente e, ao mesmo tempo, dúbio, que flutua entre o doce e o salgado.

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Apesar de ser um drinque de muita personalidade, ele permite as mais diversas adaptações – que vão desde os temperos até o destilado usado na receita. Atualmente, muitos bartenders e mixologistas de Belo Horizonte vêm, justamente, adicionando seus toques à mistura.



Referência belo-horizontina



Considerada por muitos “a rainha do Bloody Mary” em BH, Cibele Guimarães, conhecida como Jezebel, tem uma história de 13 anos com a bebida. “Trabalhava em um bar que tinha um bom Bloody Mary, mas mexi na receita, aumentei as proporções e as pessoas começaram a gostar mais do meu”, conta, sobre a origem da sua fama.



Jezebel acredita que o sucesso em torno da sua versão do drinque tem a ver com a descoberta de um equilíbrio. “Acho que o mais difícil desse coquetel é equilibrar os temperos, acidez, sal…”, destaca, enfatizando o acréscimo de páprica defumada e lemon pepper à receita.



Atualmente, o Bloody Mary de Jezebel pode ser encontrado nos bares Xangô (por R$ 35), no Bairro Floresta, Região Leste; Bença Bençoi (por R$ 45,90), no Lagoinha, Região Noroeste da cidade; no Banqueta (por R$ 38), na Região da Savassi; e, em breve, no Baixaria, Centro da capital mineira.



Em todas as casas, o coquetel é guarnecido com um tomatinho polvilhado com lemon pepper e um talo de salsão. “Sempre aconselho os clientes a comerem o salsão depois darem um gole no drinque. Ele traz refrescância e abre caminho para um novo gole.”



Shot com ostra



No Banqueta, além do clássico modo de servir, o Bloody Mary da Jezebel ganhou uma nova roupagem (criada pela própria profissional, que se inspirou em algo parecido que viu em São Paulo).
Por lá, o líquido vermelho preenche pequenos copos de shot ao lado de (sim!) uma ostra fresca (R$ 45). “Me apaixonei por essa mistura depois que provei. A ostra traz sabor umami, apesar de ter aquela salinidade marinha. Acho que combina muito e aumenta essa camada de umami do Bloody Mary”, comenta Jezebel.



Clássico e complexo


Há cinco anos, quando abria o seu bar de coquetéis, o Palito, no Centro de BH, Túlio D’angelo trabalhava apenas com cinco drinques clássicos. Entre eles, já estava o Bloody Mary (R$ 35).



Desde então, o mixologista observa que o coquetel tem um público muito específico. “O bebedor de Bloody Mary já entra no bar sabendo o que vai tomar. Ele sai de casa para tomar o Bloody Mary”, afirma, reforçando que muitos clientes que desejam essa bebida sequer olham o cardápio.



No Palito, Túlio opta pela versão clássica do drinque. Usa suco de tomate feito a partir de tomates pelados italianos, sal, vodca, molho de pimenta e molho inglês. Esse, aliás, é um ponto para o qual ele chama atenção. “Recomendo a todos que usem o worcestershire sauce [da marca Lea Perrins, conhecida por fazer o autêntico molho inglês]. Ele é surreal, tem uma complexidade muito interessante, enche a boca.” Na finalização, talo de salsão e cebolas em conserva espetadas em um palitinho.



Maria, a sanguinária


Segundo o livro “Histórias, lendas e curiosidades das bebidas alcoólicas”, de autoria de Roberta Malta Saldanha, o Bloody Mary teve sua primeira versão feita por Fernand “Pete” Petiot, no Harry’ New York Bar, em Paris. O mesmo bartender teria levado, depois da Lei Seca, o “embrião” do drinque criado na década de 1920 a Nova York. Foi lá, mais especificamente no St. Regis Hotel, que a mistura ganhou ingredientes como o molho inglês e o limão. O nome do coquetel, ainda segundo Saldanha, teve inspiração na realeza britânica. “O nome Bloody Mary foi inspirado na rainha da Inglaterra, Maria I (1516-1558), filha de Henrique VIII (1491-1547) e Catarina de Aragão (1485-1536), que, em razão da implacável perseguição aos protestantes puritanos no período da restauração do catolicismo apostólico romano, ficou conhecida como Maria, a sanguinária”, explica na publicação.



Toque asiático



Se, no balcão do Palito, a versão tradicional é protagonista, na carta de drinques do Koboshi, bar asiático do chef Victor Naddeo, que Túlio assina, o toque contemporâneo e asiático é adicionado. Na casa localizada na Região da Savassi, o shochu (destilado japonês à base de água, que utiliza o mesmo fungo da produção do saquê) entra no lugar da vodca e a pasta de pimenta fermentada coreana gochujang substitui o molho de pimenta.



“Lá, o objetivo era um coquetel menos temperado, porque ele não poderia desbalancear os pratos delicados da cozinha do Victor”, explica. Como guarnição para o Gochu Mary (R$ 39), Túlio escolheu um cogumelo salteado em conserva.



Riqueza de temperos



Nada que Sá Maju, bartender do Gata Gorda, restaurante na Região da Savassi, se propõe a fazer é simples. Muita técnica, combinações inusitadas e maximalismo são características do seu trabalho.
Com o Bloody Mary, evidentemente, isso não seria diferente. Inspirado no gaspacho (sopa fria de vegetais muito ligada à Espanha, país que inspira todo o menu da casa), o coquetel leva, além do suco de tomate, vodca, limão e um mix com mais de 40 temperos. Entre eles, pimentas diversas, especiarias, pó de cebola, páprica defumada espanhola, melaço de cana e angostura. “Ele é um Bloody Mary para quem não tem medo de Bloody Mary”, brinca.



Sá Maju também acredita que o equilíbrio é de suma importância quando o assunto é esse drinque – e isso não tem a ver, neste caso, com um número pequeno de ingredientes. “O Gazpacho Mary (R$ 55) da Gata é umami, tem muitos aromas e sabores, é levemente picante, muito temperado e especiado”, define, ressaltando ainda a textura suave da bebida na boca.



Isso, segundo Sá Maju, é resultado do processo de “throwing”, do qual é especialista, que consiste em lançar o líquido de um recipiente para o outro em movimentos contínuos no preparo de um coquetel. “Com isso, em contato com o ar, a bebida também libera mais aromas e fica mais complexa”, diz.



Por lá, é utilizado um suco de tomate industrializado de qualidade. Além da versão inspirada no gaspacho, Sá Maju diz ser possível explorar outras tantas combinações de temperos e destilados que estão fora da carta. Por isso, inclusive, convida os clientes a terem uma experiência voltada à coquetelaria no balcão da casa e experimentar novas possibilidades, que podem ser criadas na hora.



Público fiel



Uma das principais características do Bloody Mary, segundo a mixologista Jocássia Coelho, é o fato de ter consumidores fiéis. A profissional, que atua no Avra, bar no Lourdes, Região Centro-Sul de BH, e no Whisper, que fica no subsolo da casa, observa um perfil bem específico do público que pede o coquetel. “São muitas pessoas ligadas às artes, mas, no geral, vejo uma ascensão desse drinque. Os clientes estão pedindo mais”, conta a mixologista, que trabalha com o coquetel desde 2022.



Um método que Jocássia adotou na produção do drinque (que pode ser encontrado no Avra) é uma base de suco já temperado. Para isso, ela parte da passata de tomate, que é levemente diluída com água e complementada com molho de pimenta e molho inglês. Essa base pré-pronta facilita a operação. “Já faço esse suco pensando no consumo da semana e, quando sai o pedido, misturo a base com vodca e limão”, elucida.



A bebida é servida com um talo de salsão, como manda a tradição, um pedaço de queijo parmesão e uma azeitona preta. “Acho que a azeitona traz essa salinidade que chama para o próximo gole e o parmesão tem o umami”, conta, destacando ainda uma pitada de lemon pepper que fecha toda a combinação, classificada por Jocássia como “potente e refrescante”.



O tal suco de tomate


Ingrediente base do Bloody Mary, o suco de tomate é delicado e pode fermentar com facilidade, reduzindo sua validade. Cibele Guimarães, a Jezebel, conta que, idealmente, sua receita leva um suco feito em casa, composto por tomates assados, que ajudam na durabilidade – esse preparo, aliás, foi fonte de renda importante para ela durante a pandemia. Hoje, entretanto, é impossível suprir a demanda de todas as casas com a bebida artesanal. A solução, então, é usar bons produtos da indústria, que também resultam em excelentes coquetéis, conforme explica Jezebel.



Coquetel que se come


Rica em temperos e sabores, bebida pode ser a única escolha da noite ou até mesmo compor pratos



Além de “curar” ressaca, o clássico Bloody Mary é praticamente um alimento. Fora o álcool, dá para dizer que é uma bebida nutritiva. Sem falar na quantidade de temperos e potência de sabor. Por todas essas razões, dá para dizer que é um coquetel que se come.



No Ototoi, bar de vinis na Região da Savassi, por exemplo, o drinque pode ser muito bem consumido sozinho. Aliás, lá não se fala no singular, afinal de contas, há um trio de bebidas inspirado no clássico Bloody Mary. Assim como toda a coquetelaria, essa seleção é assinada pelo mixologista Filipe Brasil.



“Ele sempre foi um coquetel difícil de vender, porque no Brasil não estamos muito ligados aos drinques salgados. No Ototoi, queríamos sair da casinha, então tivemos a ideia de apresentar trios de coquetéis diferentes inspirados em um clássico”, explica o criador, relembrando as conversas com Bruno Golgher, idealizador do bar.



O primeiro coquetel – e mais próximo do tradicional – é o Bloody Cogumary (R$ 40). Leva suco de tomate (feito na casa com uma mistura de tomates assados e passata), limão e vodca infusionada no funghi. Por incrível que pareça, não contém pimenta, item imprescindível no clássico coquetel. “Nele, busco o máximo de umami possível”, explica Filipe, justificando a ausência da picância.



Com o coquetel, o mixologista serve uma fatia de “candied bacon” (em português, bacon caramelizado), que é assado, passado no açúcar mascavo e depois desidratado por 10 horas. O resultado é um bacon sequinho e com uma casquinha similar à de um praliné.



Quase uma salada



O segundo coquetel inspirado no drinque vermelho é o Alva Maria (R$ 45). Uma versão clarificada e mais leve, feita com vodca convencional, e com tempero mais acentuado pela presença da cebola e do alho. Quando é filtrado, o drinque fica sem resíduos sólidos, que Filipe transforma em uma espécie de tecido. Para isso, tempera a mistura, estica e leva para a desidratadora. Um quadradinho desse sólido vai por cima da bebida.



Acontece algo parecido na produção do Verdito Picante (R$ 40), o terceiro coquetel do trio. Ele tem em comum com o Bloody Mary clássico a picância e a base vegetal. É feito com pimenta jalapeño, pepino, talo de coentro, dashi e shoyu. O destilado usado é a tequila.



Depois de ser filtrado, Filipe também usa os sólidos da bebida para fazer um “tecido comestível”, que é servido com guarnição do coquetel. “O Verdito é para quem gosta de sabores diferentes. Oferece uma experiência mais vegetal e picante, é quase uma salada mexicana”, brinca.



Consumo é incentivado



Filipe conta que os garçons do Ototoi costumam oferecer o Bloody Mary para os clientes, justamente porque ainda é um item difícil de encontrar em bares de BH. “É interessante porque muitas pessoas gostam, mas parece que estão tão acostumadas a não encontrar que esquecem de perguntar se tem o Bloody Mary em determinado estabelecimento.”



Além das três versões inspiradas no drinque, o mixologista faz questão de reforçar que, sempre que quiserem, os clientes podem pedir o clássico Bloody Mary (R$ 40), com talo de salsão.



Vermelho como o atum



Reconhecida pela criatividade e cozinha de fusão, ou pelo que ela gosta de chamar de “brincadeira”, a chef Agnes Farkasvolgyi se inspirou no Bloody Mary para criar um dos pratos do menu que assina durante a CasaCor Minas 2026, no Bairro Lourdes, Região Centro-Sul de BH.



Lá no restaurante temporário, que leva seu nome, ela mistura bases do leite de tigre (componente principal do ceviche) e do coquetel clássico. “A cozinha peruana é muito emblemática para mim. Comecei a fazer buscas de receitas e vi que eles faziam leite de tigre com ingredientes como milho, açafrão e tomate”, conta a chef, ressaltando que já existem receitas similares na literatura peruana.



Quando provou o leite de tigre com tomate, ela logo sentiu um sabor similar ao do Bloody Mary – com picância, limão e sal. Por isso, o tiradito de atum (R$ 69) do Restaurante Agnes é servido com o que ela chama de “bloody leche de tigre”.



Diferentemente do leite de tigre tradicional, ela não usa peixe na produção. Itens como cebola, coentro, pimenta-de-cheiro e aipo aparecem na mistura. “Uni esse caldo com o atum. Queria um fundo vermelho para um prato com um peixe vermelho”, conta Agnes, sobre uma escolha estética.



Os clientes ainda podem adicionar meia dose de vodca ao prato, que se torna ainda mais parecido com o Bloody Mary. “A pessoa tem a sensação de que está comendo o drinque”, brinca a chef. 



Serviço


Banqueta 1405
Rua Alagoas, 1405, Savassi
(31) 99747-1469
Quarta e quinta, das 18h à 0h
Sexta, das 18h à 1h
Sábado, das 15h à 1h
Domingo, das 16h às 23h


Bença Bençoi
Rua Diamantina, 492, Lagoinha
Segunda e terça, das 11h às 14h
Quarta e quinta, das 11h às 14h e das 18h à 0h
Sexta, das 11h às 14h e das 17h à 0h
Sábado, das 12h à 0h
Domingo, das 12h às 19h


Xangô
Rua Sapucaí, 281, Floresta
(31) 98752-2777
Segunda, das 18h à 0h
Quarta e quinta, das 18h às 23h
Sexta e sábado, das 17h à 1h30
Domingo, das 12h às 23h


Bar Palito
Avenida Amazonas, 1049, Centro
De quarta a sexta, das 18h à 0h
Sábado, das 16h à 0h


Koboshi
Rua Tomé de Souza, 1195, Funcionários
De terça a sábado, das 18h às 22h30


Gata Gorda
Rua Levindo Lopes, 96, Funcionários
De terça a quinta, das 12h às 16h e das 18h à 0h
Sexta e sábado, das 12h à 0h
Domingo, das 12h às 17h


Avra
Rua Santa Catarina, 1287, Lourdes
(31) 3656-0025
Segunda e terça, das 17h à 0h
Quarta e quinta, das 17h à 1h
Sexta e sábado, das 12h à 1h
Domingo, das 12h às 19h


Ototoi
Avenida do Contorno, 5602, Savassi
(31) 98424-4285
De terça a quinta, das 19h às 23h
Sexta e sábado, das 19h à 1h


Restaurante Agnes
Rua da Bahia, 2020, Lourdes
De terça a sexta, das 17h30 às 22h
Sábado, das 12h às 16h30 e das 18h às 22h
Domingo, das 12h às 17h


Receita



Bloody Mary com salsão e limão



(Bar Palito)



Ingredientes



45ml de vodca; 90ml de suco de tomate; 15ml de suco de limão fresco; 2 gotas de molho inglês; molho de pimenta, sal de salsão (com as sementes da planta) e pimenta-do-reino a gosto; 1 talo de salsão e 1 rodela de limão para decorar

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Modo de fazer



Misture delicadamente todos os ingredientes com gelo, sem bater vigorosamente. Sirva em copo alto com gelo e finalize com um talo de salsão e uma rodela de limão.



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