Livros

Flitabira debate a presença do negro na literatura brasileira

Festival itabirano, que começa nesta quinta-feira (29/10), vai homenagear a editora Maria Mazzarello e as autoras Conceição Evaristo e Leda Maria Martins

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No início dos anos 1980, a Mazza Edições surgiu para preencher uma lacuna no mercado editorial brasileiro, com a publicação de autores negros e a circulação de obras voltadas à cultura afro-brasileira. Sua criação coincidiu com o fortalecimento e a reorganização do movimento negro no país.

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“Os movimentos identitários abraçaram minha proposta e divulgaram o trabalho que estávamos fazendo na época”, lembra Maria Mazzarello, fundadora da empresa.



Ainda pouco conhecidos do grande público, Edimilson de Almeida Pereira e Cidinha da Silva encontraram na Mazza Edições espaço para lançar os primeiros livros. A editora também foi responsável pela publicação de “Ponciá Vicêncio”, romance de estreia de Conceição Evaristo, e de “Afrografias da memória”, obra de Leda Maria Martins.



Oportunidade


Não por acaso, o encontro de Conceição Evaristo e Leda Maria Martins com Maria Mazzarello durante o 6º Festival Literário Internacional de Itabira (Flitabira), que vai desta quinta-feira a domingo (1º/11), será uma oportunidade para a reflexão sobre os avanços e os desafios da presença negra na literatura brasileira.



As três são as homenageadas desta edição do evento, que tem como tema “A máquina do mundo em nós”. Elas participam da mesa “Leitura, antirracismo e os novos tempos”, sábado, às 20h. A temática do evento remete ao poema “A máquina do mundo”, publicado em “Claro enigma”, livro de Carlos Drummond de Andrade que completa 75 anos em 2026.



No poema, o caminhante exausto percorre uma estrada pedregosa quando lhe é oferecida a revelação dos mistérios do universo. Ele, porém, recusa a oferta e prossegue em sua jornada.



“Ultimamente, vemos um número considerável de autores negros que se destacam nas premiações literárias e nas grandes editoras. Isso não é tendência comercial, mas resultado de muito trabalho feito lá atrás. Não fui só eu que fiz esse trabalho. São várias pessoas. É o caminho que percorremos. Esse destaque, portanto, não deixa de ser também um reconhecimento”, afirma Mazzarello.



O caminho não foi fácil. Durante o mestrado em editoração, realizado em Paris entre o fim dos anos 1970 e o início dos 1980, ela percebeu que editoras brasileiras praticamente não publicavam negros. A situação contrastava com o que Mazzarello observava na Alemanha, Itália e Inglaterra, além da própria França.



No Brasil, a publicação de autores negros era marcada pela restrição de oportunidades e invisibilidade, reflexos do racismo estrutural. Na literatura infantil, a ausência de representatividade era particularmente evidente. Personagens negros pouco apareciam e, quando presentes, eram retratados por ilustrações estereotipadas.



“Foi quando me dei conta do tanto que o Brasil era – e ainda é – preconceituoso”, afirma Mazzarello. Criada com poucos recursos, a Mazza Edições precisou buscar meios de financiar seu projeto. Nos primeiros 10 anos, a publicação de livros de poetas independentes ajudou a sustentar a operação e viabilizar o objetivo de ampliar o espaço da cultura afro-brasileira no mercado editorial.



A Lei 10.639/2003, ao tornar obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira nas escolas, trouxe novas possibilidades. Com a demanda por materiais que atendessem às exigências legais, a Mazza passou a ser procurada para participar de editais de compras governamentais. O catálogo consolidado a colocava em posição estratégica. A ampliação da demanda, contudo, não eliminou as dificuldades de divulgação e acesso aos livros.



A abordagem da história e da cultura afro-brasileira ainda hoje enfrenta obstáculos nas salas de aula.



“A gente percebe essa dificuldade, sobretudo nas escolas particulares, onde os livros com temática negra frequentemente só são buscados em datas comemorativas específicas, como o 13 de Maio e o 20 de Novembro”, diz Mazzarello, em referência à data que marca a abolição formal da escravidão e ao Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, respectivamente.



Apesar dos entraves, a editora vê avanços na presença de autores negros nas prateleiras. “Hoje, não tem jeito. Já ocupamos e precisamos ocupar ainda mais espaços no mercado brasileiro”, ressalta.



Mesas do Flitabira também abordarão temas como ancestralidade, corpos narrados, formas de existir, infância e juventude. Os debates dialogam com o universo de Carlos Drummond de Andrade, cuja obra inspira o festival. A escolha deste período tem relação com a trajetória do poeta, nascido em 31 de outubro de 1902.



CONVIDADOS


Com curadoria de Sérgio Abranches, Calila das Mercês e Afonso Borges, o Flitabira reunirá Ricardo Aleixo, Marcelino Freire, Énia Lipanga, Paula Pimenta, Leila Ferreira, Alexandre Coimbra Amaral e Pedro Bial, entre outros autores. A programação local é assinada por Sandra Duarte e Carolina Peixoto, enquanto a curadoria infantojuvenil ficou a cargo de Rafael Nolli. Todas as atividades têm entrada franca. Mesas e palestras serão transmitidas ao vivo pelo YouTube (@flitabira), com recursos de acessibilidade.

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6º FLITABIRA
Festival Literário Internacional de Itabira. De quinta-feira a domingo (29/10 a 1º/11), na Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (Av. Carlos Drummond de Andrade, 666, Centro de Itabira). Entrada franca. Programação completa em flitabira.com.br.


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