'Karamazovianas' leva para o palco a banalização do mal no mundo de hoje
Peça estreia em 6 de novembro, no CCBB-BH, discutindo a falta de ética da humanidade com base no clássico romance de Dostoiévski
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O horror é que não nos horrorizamos mais com nada. Com estreia em 6 de novembro, no Centro Cultural Banco do Brasil, o espetáculo “Karamazovianas” tem início justamente com esta frase. O título já deixa claro que “Os irmãos Karamázov” (1880), obra-prima e último romance de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), é o ponto de partida da montagem.
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“A grande pergunta deste trabalho é o que acontece quando as pessoas perdem as referências éticas e passam a agir segundo os próprios interesses”, destaca a diretora Miwa Yanagizawa. “Karamazovianas” reúne o mesmo núcleo que assinou “Nastácia” (2019), nascida de “O idiota” (1869), outro romance de Dostoiévski.
De volta
O projeto idealizado pela atriz Flávia Pyramo tem dramaturgia de Pedro Brício, direção de arte de Ronaldo Fraga e direção de multimídia de Cao Guimarães. Miwa Yanagizawa também assinou a montagem anterior, e com ela venceu o Prêmio Shell de Melhor Direção. Flávia, que viveu a personagem-título em “Nastácia”, está de volta à cena, desta vez ao lado da atriz e diretora mineira Rita Clemente.
Considerado por Freud “o maior romance já escrito”, “Os irmãos Karamázov” acompanha a investigação da morte de Fiódor Karamázov. Os suspeitos são seus filhos, figuras absolutamente distintas: o primogênito Dmítri, cheio de orgulho, o atormentado Ivan e o místico Aliócha. Há ainda um quarto filho, o bastardo Smierdiakóv.
O espetáculo parte de Ivan. As palhaças-cientistas Betinha (Flávia Pyramo) e Win (Rita Clemente) decidem dissecar o corpo do filho intelectual para descobrir como ele perdeu a cabeça. “Elas narram a história, comentam e fazem essa ponte com o espectador”, continua Miwa. As atrizes vão se desdobrar em outros personagens – o próprio Ivan, o Diabo, o irmão bastardo.
“As duas representam as vozes gritantes na cabeça de Ivan, o conflito entre razão e fé a partir do parricídio, que foi consequência concreta das ideias dele”, explica Flávia. O ponto nevrálgico de Ivan é a ideia de que se Deus não existe, tudo é permitido.
“Uma coisa que me interessa em Dostoiévski são as contradições que fazem parte da condição humana. Somos contraditórios, polifônicos, sempre ouvindo os outros que nos habitam. Na peça, quando o Diabo aparece, ele vem mais como espelho deformado da humanidade. Isso nos lembra que o mais assustador não é reconhecer o mal, mas ver que ele pode ser apresentado no nosso cotidiano através de uma cordialidade”, acrescenta Miwa.
Para a diretora, Dostoiévski sempre trafega na fronteira entre humor, drama e horror. “Como os dilemas dele são muito densos, a gente achou que o nonsense (da palhaçaria) traria um contraponto. O humor não é para aliviar, mas para evidenciar, colocar uma lupa sobre as situações.”
A criação de “Karamazovianas” é realizada em conjunto desde o início. “Estamos finalizando um processo criativo em que tudo se encaixa, pois são artistas que têm ideias que se comunicam muito uma com a outra”, comenta Flávia, que ao lado de Rita e Miwa colaborou para a dramaturgia de Pedro Brício.
O grupo trabalhou com a tradução de “Os irmãos Karamázov” de Paulo Bezerra, lançada em 2008 pela Editora 34 em dois volumes. Uma das referências no país em tradução do russo, o crítico literário e professor é consultor teórico do espetáculo. A banda Diplomattas criou a trilha sonora da peça, que conta com iluminação de Jésus Lataliza e Marina Arthuzzi.
“Karamazovianas” segue em temporada até 7 de dezembro. Depois de BH, será apresentada nas demais unidades do CCBB (Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília).
Capeta
Rita Clemente participa apenas da temporada mineira. “Como a cena parte do encontro de Ivan com o Diabo, e considerando que o demônio tem duas faces, a gente pensou em levar uma atriz convidada de cada cidade para fazer o capeta”, conta Flávia.
Carolina Virguez interpreta o papel na temporada carioca, Sylvia Prado na paulistana e Camila Márdila em Brasília. “Nos encantou muito ter um Diabo diferente para cada temporada”, finaliza Flávia Pyramo.
OS BURITI
O espetáculo infantojuvenil “Eu e meu monstro”, da Cia. Os Buriti, estreia na sexta-feira (30/10), às 15h, no Teatro 2 do CCBB-BH. A montagem aborda temas como exclusão, pertencimento e construção de identidade por meio de uma narrativa sem palavras, conduzida pelo corpo, pelas imagens e pelos sons. Temporada até 22/11, às sextas-feiras, às 15h, sábados e domingos, às16h. Ingressos: R$ 30 e R$ 15.
“KARAMAZOVIANAS”
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Estreia em 6 de novembro, às 20h, no Teatro 1 do Centro Cultural Banco do Brasil (Praça da Liberdade, 450, Funcionários). Temporada de sexta a segunda-feira, às 20h, até 7 de dezembro. Ingressos a R$ 30 e R$ 15 (meia). As vendas começam nesta quarta (28/10) no site ccbb.com.br/bh ou na bilheteria. Sessões especiais em 9/11 (bate-papo com elenco), 14 e 28/11 (com intérprete de libras) e 28/11 (com audiodescrição).