Entrevista

'A democracia precisa ser cuidada todos os dias', diz Leci Brandão

Voz feminina do samba diz que a música e a política caminham juntas em sua obra. Indicada ao Grammy Latino, ela se despede do mandato de deputada estadual

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A carioca Leci Brandão iniciou sua carreira na década de 1970, abrindo o próprio caminho no samba, universo predominantemente masculino. Em 1972, tornou-se a primeira mulher a integrar a ala de compositores da Estação Primeira de Mangueira. “Era uma menina entrando no espaço ocupado praticamente só por homens”, lembra. A experiência, segundo ela, foi “uma grande escola” e marcou o início da trajetória de cinco décadas dedicada à cultura afro-brasileira. Leci lançou 26 álbuns e levou para suas composições questões sociais e identitárias.

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Toda esta história é celebrada em “50 anos de carreira (ao vivo)”, projeto que lhe rendeu indicação ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Samba/Pagode. A cerimônia do prêmio está marcada para 12 de novembro, em Las Vegas (EUA).



“Uma emoção muito grande”, diz Leci, aos 82 anos. “Olho para trás e lembro tudo o que vivi, os momentos felizes, as dificuldades e as vezes em que precisei insistir para continuar fazendo a música em que acreditava. Por isso, esse reconhecimento tem um significado muito especial. Ele não representa apenas a minha história, mas também a história do samba, dos compositores, dos músicos e de todas as pessoas que caminharam comigo”, afirma.



Com 14 faixas, o álbum percorre diferentes momentos de sua obra, reunindo composições originais e novas interpretações de clássicos. O projeto conta com participações de Xande de Pilares, Criolo e Pretinho da Serrinha.



Os sucessos “Sonho meu”, “Zé do Caroço” e “Deixa pra lá” se destacam no repertório. “A gente nunca canta a música da mesma maneira”, garante. “A vida vai passando e a gente vai acumulando experiências. Sou uma mulher diferente daquela que gravou estas canções pela primeira vez. Tenho outras histórias, outras vivências e uma relação muito bonita com o público, que também se transforma a cada encontro. Cantar essas faixas foi uma oportunidade de olhar para trás com carinho, mas também de perceber que elas continuam vivas”, diz.



Seu álbum indicado ao Grammy propõe a renovação de uma obra construída em sua extensa carreira. Como essas faixas conversam com os dias de hoje?
A música tem essa capacidade de atravessar o tempo. Quando a gente fala de amor, respeito, desigualdade, racismo e das dificuldades do nosso povo, estamos falando de questões que continuam presentes na sociedade. Por isso, essas canções não ficaram presas aos anos em que foram compostas. Elas continuam fazendo sentido, porque a realidade ainda nos apresenta muitos desafios. O álbum representa um pouco da minha caminhada, das coisas em que sempre acreditei e da minha maneira de enxergar o mundo através do samba.



Sua obra é ligada à cultura afro-brasileira e a questões sociais. Música e posicionamento político são inseparáveis?
Na minha trajetória, sempre caminharam juntas. Nunca precisei entrar para a política para começar a falar das questões sociais. Muito antes de ser deputada, já escrevia sobre o racismo, a desigualdade, a vida nas comunidades e o respeito às pessoas. Observava o que acontecia ao meu redor e transformava aquilo em música. Quando fui para a política, percebi que as mesmas preocupações que estavam nas minhas canções também precisavam estar no meu mandato. Para mim, não existe contradição entre fazer samba e defender direitos. A música é uma forma de expressão, acredito que a gente deve usar essa voz para contribuir com a sociedade.



Ao longo de cinco décadas, o que mudou radicalmente no samba e o que continua exatamente igual? Ficou mais fácil para a mulher negra?
O samba mudou muito na maneira de chegar às pessoas. Hoje, temos as plataformas digitais, as redes sociais e outras possibilidades de divulgar o nosso trabalho. Também vejo novas gerações ocupando espaços e trazendo outras formas de fazer e pensar a música. Mas o samba continua tendo a mesma essência: a força da comunidade, a alegria, a resistência e a capacidade de contar a vida do povo. Para nós, mulheres negras, algumas portas se abriram, e é importante reconhecer o trabalho de quem lutou antes para que isso acontecesse. Mas ainda existe muito preconceito e desigualdade de oportunidades. A mulher negra precisa provar sua capacidade muitas vezes antes de ser reconhecida. Sinto falta de valorização maior das pessoas que construíram o carnaval e o samba nas comunidades. Não podemos deixar que esta história seja apagada. É preciso que as novas gerações tenham oportunidades, mas sem esquecer quem abriu caminho.



A senhora começou a falar sobre liberdade, diversidade e sexualidade publicamente em uma época em que isso poderia ter um alto custo, em termos profissionais. O que lhe dava esta coragem?
Sempre tive preocupação muito grande com as pessoas. Via situações de preconceito, de injustiça e de sofrimento, e aquilo me tocava. Nunca achei justo que alguém fosse tratado de maneira diferente por causa de quem ama ou de quem é. Naquela época, falar sobre esses assuntos era muito mais difícil, e a gente sabia que poderia enfrentar resistência. Mas eu não ficava pensando que estava fazendo história. Estava falando de coisas importantes, tentando mostrar que todo mundo merece respeito. O amor não deve ser motivo de vergonha nem de violência. Se a gente pode ajudar a mudar a maneira como as pessoas enxergam o outro, então vale a pena falar.

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Depois de 16 anos como deputada estadual em São Paulo, a senhora se despede do cargo em 2027. Atualmente, é parlamentar do PC do B. Como avalia seus quatro mandatos?
Foram anos de muito aprendizado e responsabilidade. Quando entrei na política, levei comigo as mesmas preocupações que sempre estiveram presentes nas minhas músicas: a defesa da população negra, das mulheres, das comunidades, dos povos indígenas e da população LGBTQIA. Procurei transformar essas pautas em ações concretas, porque acredito que a política precisa estar a serviço das pessoas, principalmente daquelas que historicamente tiveram menos oportunidades e acesso a direitos. Olho para essa trajetória entendendo a importância de ocupar esses espaços e de dar voz a quem muitas vezes não é ouvido. A política também me ensinou que as transformações exigem persistência, diálogo e participação da sociedade. Encerro este ciclo com a consciência da responsabilidade que assumi e com a certeza de que ainda há muito a fazer. Sobre o momento político do Brasil, acredito que precisamos estar atentos à desigualdade, ao preconceito e às tentativas de enfraquecer direitos conquistados com tanta luta. A democracia precisa ser cuidada todos os dias, com respeito às diferenças e compromisso com a população. Independentemente do espaço que eu ocupe daqui para a frente, continuarei defendendo aquilo em que acredito. A música sempre foi uma forma de expressar minhas convicções, e sigo acreditando que cada um de nós pode contribuir para construir um país mais justo.


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