BH recebe obras da Bienal inspiradas em Conceição Evaristo
Tema da edição se baseou no poema "Da calma e do silêncio", da escritora mineira; obras de 21 artistas estão em exposição no Palácio das Artes
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A maior exposição da itinerância da 36ª Bienal de São Paulo está em cartaz no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, até o próximo dia 6 de dezembro. Uma das 15 cidades a receber os recortes da mostra deste ano, a capital mineira foi contemplada com um conjunto de aproximadamente 80 obras, em linguagens como pintura, escultura, fotografia, instalação, audiovisual e performance. A itinerância teve início em Belém, no Pará, e em seguida vai para Vitória, no Espírito Santo.
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A seleção dos trabalhos de 21 artistas feita pela curadoria, composta por Alya Sebti e Leonardo Matsuhei, foi orientada pelo tema desta 36ª edição, “Nem todo viandante anda estradas - Da humanidade como prática”, inspirado no poema “Da calma e do silêncio”, da escritora mineira Conceição Evaristo.
A partir dele, emergem questões como pertencimento, memória, cuidado e transformação. A exposição ocupa todas as galerias do Palácio das Artes e conta com recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência.
Compõem a seleção obras dos artistas Adjani Okpu-Egbe, Alain Padeau, Antonio Társis, Emeka Ogboh, Forensic Architecture/Forensis, Gervane de Paula, Julianknxx, Leiko Ikemura, Leo Asemota, Lidia Lisbôa, Manauara Clandestina, Maria Auxiliadora, Michele Ciacciofera, Ming Smith, Myriam Omar Awadi, Nádia Taquary, Raukura Turei, Raven Chacon, Iggor Cavalera e Laima Leyton, em colaboração com membros da comunidade Etenhiritipa Xavante, Rebeca Carapiá, Ruth Ige e projeto Sertão Negro.
LONGA PARCERIA
Leonardo Matsuhei diz que o fato de Belo Horizonte ter uma cena cultural muito bem consolidada é uma das razões da escolha da cidade para receber o maior recorte da 36ª Bienal de São Paulo. Ele destaca que outro fator é a longa parceria, que completa duas décadas e meia este ano, entre a Fundação Bienal e o Palácio das Artes, que recebe a itinerância pela oitava vez consecutiva. “São dois espaços importantes de cultura projetados por Niemeyer, então tem uma relação quase que de parentesco”, afirma.
O trabalho da curadoria, segundo Matsuhei, é orientado pela temática geral, mas se desdobra em subtemáticas que se relacionam com cada lugar por onde a itinerância passa. "Para Minas, seguimos um capítulo que tem a ver com a questão do território e do pertencimento a esse território. Para a mostra em Belo Horizonte, reunimos muitos artistas que falam dos recursos que a terra traz, seja de forma mais poética ou mais política. São obras que trazem, também, uma conexão de causas indígenas", observa.
Uma prata da casa serve de exemplo: Iggor Cavalera, ex-baterista e um dos fundadores da banda Sepultura, que, em parceria com Raven Chacon, Laima Leyton e membros da comunidade Etenhiritipa Xavante, da aldeia Wederã, no Mato Grosso, desenvolveu uma composição multicanal que desfaz os ritmos dos motores da cidade para fazer emergir a pulsação da terra e das vozes a ela conectadas. Maria Auxiliadora (1935-1974) é outra mineira presente entre os 21 artistas selecionados para a itinerância em Belo Horizonte.
FESTIVIDADE E ESPIRITUALIDADE
Matsuhei explica que o fato de ela ter passado grande parte de sua vida em São Paulo possibilitou uma conexão que interessou à curadoria. “Não existe o cuidado com o território sem um esforço de manutenção de uma cultura local. Achamos, por isso, muito simbólico trazer as obras de Maria Auxiliadora, por toda a festividade e espiritualidade das religiões de matriz afro-brasileira que elas contêm. Talvez ela seja a artista dessa itinerância que mais consiga representar essas diferentes formas de praticar a humanidade”, destaca.
O curador afirma que tomar um poema de Conceição Evaristo como inspiração para a temática desta 36ª Bienal de São Paulo foi uma ideia do curador geral deste ano, o camaronês Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, que, conforme observa, tem uma conexão bastante próxima com o campo literário no Brasil.
Matsuhei destaca que Ndikung é um estudioso tanto da poesia quanto da música e das artes visuais brasileiras, e que considerou Conceição Evaristo como quem melhor abordava essa questão da humanidade como prática.
“O poema 'Da calma e do silêncio' traz essa ideia de que você não precisa exatamente se deslocar fisicamente, porque o viandante traz consigo o movimento interno; ele é para dentro e para fora, no sentido de estar em contato com outras culturas, levando a sua própria. Conceição Evaristo foi uma escolha natural”, afirma.
Além de cidades brasileiras, a itinerância da 36ª Bienal de São Paulo chegará também a Santiago, no Chile; Berlim, na Alemanha, onde Ndikung vive desde 1997; e à Cidade do México.
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ITINERÂNCIA DA 36ª BIENAL DE SÃO PAULO NO PALÁCIO DAS ARTES
Exposição em cartaz até 6 de dezembro, com horários de visitação de terça a sábado, das 9h30 às 21h, e aos domingos, das 17h às 21h, na Av. Afonso Pena, 1.537, Centro. Entrada gratuita.