Mostra "Centenários" traz retratos de oito pessoas acima dos 100 anos
Exposição que será aberta neste sábado (3/10), no Centro Cultural Sesiminas, deve contar com a presença de quatro dos personagens fotografados
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José de Jesus, o Dudu, tinha 100 anos quando a foto que ilustra este texto foi realizada – hoje, tem 102. Chegou ao telhado de sua casa, em Belo Horizonte, pela janela. Com menos da metade da idade dele, o fotógrafo Leo Drumond, atuais 47 anos, teve alguma dificuldade para fazer o mesmo trajeto e registrar a imagem.
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Com abertura neste sábado (3/10), no Centro Cultural Sesiminas, a exposição “Centenários” conta a história de oito moradores de Minas Gerais. Projeto realizado por Drumond e pela escritora paulista Carolina Grohmann, apresenta 32 imagens (a curadoria é de Gui Christ) acompanhadas de textos. Todos os personagens tinham, no mínimo, 100 anos quando Drumond os fotografou.
As imagens foram realizadas de 2023 até este ano. Dois dos fotografados morreram em 2025: Maria Gonçalo Xavier, a Lia, que viveu até os 103, e Paulus Fernand, luxemburguês sobrevivente a campo de concentração que se radicou em Minas quando aqui chegou para trabalhar na antiga Belgo Mineira – ele atingiu os 105.
Quatro dos personagens estarão na abertura da mostra, que será realizada, justamente por causa da presença deles, no período da manhã. O já citado Dudu, as irmãs Gercy e Maria de Lourdes Kelles Vieira, 102 e 100 anos, respectivamente, e Maria do Rosário Santos Aguiar, 101.
“A ideia começou muito simples: vamos procurar essas pessoas e ouvir as histórias delas. A gente queria lançar um olhar sobre o envelhecer, mas de forma sensível, longe de estatísticas. O país está ficando com uma pirâmide de idade próxima dos países desenvolvidos: pouco jovem e muito velho. E a cultura ocidental não lida bem com a velhice”, afirma Drumond.
PROJETO NACIONAL
De cara, ele percebeu que o início do projeto não seria tão difícil quanto imaginava. Rapidamente, por meio de boca-a-boca, encontrou personagens. Chegou também a realizar fotos com idosos de São Paulo. Mas, para a exposição, concentrou-se apenas nos que viviam em Minas Gerais.
A ideia da dupla é ir bem longe. “Queremos fazer um projeto nacional, com personagens do Brasil inteiro. Como é caro viajar, dependemos de patrocínio.” A mostra “Centenários” é apenas o primeiro fruto. “Queremos também fazer uma exposição maior, com escala nacional e um livro em um segundo momento.”
Drumond esteve com alguns dos entrevistados mais de uma vez. “Queria ter um tempo com eles para mostrar um pouco da rotina, não montar um estúdio e fazer um retratão padronizado.” Mas logo compreendeu que o tempo, para quem já chegou aos 100, é diferente.
“Foi um desafio, pois o tempo que fiquei com eles teve que ser curto. Essas pessoas têm horários. Quando fui fotografar o Newton (dos Santos Vianna, 104 anos, hoje acamado) pela primeira vez, a moça que cuida dele falou para eu ir depois das 17h, depois do cochilinho dele.” O grau de cognição não foi um quesito de escolha. “A gente entendeu que tinha que abranger todos.”
O fotógrafo se deparou com pessoas interessantes. As irmãs Gercy e Maria de Lourdes permaneceram solteiras e moram juntas – e até hoje sozinhas – a vida inteira. Gercy, a mais velha, pratica pilates. Contou que, um dia, quando seu prédio ficou sem energia, não se deteve – desceu 14 andares para ir à aula. “Mas, quando chegou lá embaixo, estava cansada e teve que esperar a luz voltar (para retornar para o apartamento).”
Por sua vez, Maria do Rosário é adorada pelas filhas e pela comunidade onde mora. Sua festa de 100 anos parou o bairro.
O único dos fotografados que não mora na Grande BH é também o único cujo nome não foi sugerido por conhecidos. Luís Carlos dos Santos, o Luizinho, é a pessoa mais velha do Brasil. Segundo sua certidão de nascimento, o documento a que Drumond teve acesso, ele completou 118 anos em 15 de fevereiro passado.
Diferentemente dos demais fotografados, Luizinho não tem família. Vive há 55 anos no Lar São Vicente, em Elói Mendes, Sul de Minas. Desde que chegou, nunca saiu de lá. O fotógrafo se impressionou com Luizinho desde o primeiro contato. “Ele é, disparado, o que está melhor fisicamente. (Durante as fotos) Ele se ajoelhou umas 50 vezes. Não toma remédio, come e toma banho sozinho e ajuda os outros. Tem um (interno) em quem ele dá banho.”
Luizinho é também fumante inveterado – uma das fotos mostra o personagem em meio à fumaça. Segundo Drumond, ele está no espectro autista. “Tem muito de toc, repetição. E a história dele é quase mítica. Chegou na instituição numa época em que acolhiam também crianças, não só idosos. Não tem um funcionário da época que ele chegou, só se sabe que foi levado por um padre. Como o passado dele é um mistério, e nem ele sabe contar, a história do Luizinho fica um pouco no plano de lenda. Mas é uma alma doce, ficou tranquilo na minha presença”, conta.
“CENTENÁRIOS”
Abertura da exposição neste sábado (3/10), das 10h às 12h, no Centro Cultural Sesiminas (Rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia). Visitação diária, das 8h às 19h. Entrada franca. Até 3 de janeiro.
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