Isidoro, herói negro excluído da história do Brasil, volta ao palco em BH
Peça de Evandro Passos e Do Xangô, em cartaz no Teatro João Ceschiatti, resgata o escravizado que comprou sua liberdade e a dos companheiros em Diamantina
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Criado em 2021 pelo ator e coreógrafo Evandro Passos e pelo músico e pesquisador Do Xangô, o espetáculo “Isidoro: um negro de quilate” está circulando por espaços culturais de BH para marcar seus cinco anos de trajetória. Nesta sexta-feira (2/10), tem sessão às 20h, no Teatro João Ceschiatti do Palácio das Artes.
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A montagem, que conjuga dança, teatro e música, resgata a história de Isidoro Amorim, faiscador negro que utilizou o ouro que encontrou em terras mineiras para conquistar sua liberdade e a de outros escravizados. Acusado de contrabando, ele foi preso, torturado e morto pela repressão no Brasil Colônia.
Reparação
Evandro Passos diz que o espetáculo traz uma carga de “reparação”, pois revê o personagem não como um contraventor, mas como herói, símbolo da resistência negra que a história oficial apagou. Ele considera que, nesse percurso de cinco anos, a peça tem cumprido o propósito de reverberar esta figura histórica.
“Desde a estreia, sou muito procurado por professores e historiadores”, afirma. O espetáculo remonta à infância e adolescência de Evandro em Diamantina (MG), onde nasceu e viveu até os 16 anos. “Passava sempre pelo beco que tinha este nome, Isidoro Amorim, mas ninguém sabia me dizer quem era”, recorda. Ele começou a se inteirar do conterrâneo quando assistiu a “Xica da Silva”, de Cacá Diegues, pois o faiscador é mencionado no longa. “Só um tempo depois, pesquisando, fui descobrir quem era Isidoro, o cara do beco e do filme”, pontua.
Em 2021, Passos recebeu da secretária de Cultura de Diamantina o convite para criar e apresentar um espetáculo na cidade. O encontro com o poeta e ilustrador Marcial Ávila, seu conterrâneo, deu o direcionamento para a montagem.
“Ele tinha escrito um poema sobre Isidoro. Quando li, pensei em criar a partir daquilo. Comecei a esboçar a dramaturgia, chamei o Do Xangô e nasceu o espetáculo. O personagem saiu do meu imaginário de adolescência, mas junto de Isidoro trazemos outros heróis e heroínas negros e negras que não estão nos livros de história”, destaca.
A peça estreou em Diamantina e logo na segunda apresentação Passos teve a dimensão da importância do resgate do faiscador.
“Uma menina branca chegou dizendo que estava terminando a graduação e até aquele momento não tinha um tema para o trabalho de conclusão de curso. Depois de assistir ao espetáculo, resolveu que seu objeto de pesquisa seria Isidoro. Foi muito importante ouvir isso dela e também de outras pessoas que não o conheciam”, relembra.
Ele chama a atenção para o “apagamento muito grande” de personalidades negras. Até mesmo Xica da Silva era negligenciada em Diamantina, destaca. “Não se falava dela nas escolas; a pessoa ilustre da cidade era Juscelino Kubitschek. Só depois do filme do Cacá Diegues ela ganhou relevância. A arte tem a importância de trazer à tona essas figuras”, ressalta.
A dramaturgia de “Isidoro: um negro de quilate”, escrita com Do Xangô, destrincha trechos do poema de Marcial Ávila e costura tudo com as vivências de Passos.
“Vou começar agora uma atividade no Colégio Santo Agostinho, passando por 23 unidades, para falar exatamente desses heróis, dessa herança, da história dos vissungos em Diamantina e região, que quero estudar mais a fundo no meu pós-doutorado. São desdobramentos do espetáculo, que suscitou nas pessoas o desejo de saber mais sobre os personagens e suas tradições”, diz.
Chile
“Por mais que estejamos falando do tronco banto de Minas Gerais, 'Isidoro' tem linguagem universal. Isso ficou evidente nas apresentações no Chile, com texto sem tradução, em português mesmo”, comenta Passos. Ele acredita que a montagem tem fôlego para circular por mais cinco anos.
“Já rodamos bastante por escolas, centros culturais e teatros. Concebemos um espetáculo para ser apresentado em qualquer lugar, ele cabe em uma mala, porque a ideia é espalhar a reflexão sobre como a historiografia negligencia vários nomes brasileiros”, ressalta.
“ISIDORO: UM NEGRO DE QUILATE”
Espetáculo com Evandro Passos e Do Xangô. Nesta sexta (2/10), às 20h, no Teatro João Ceschiatti do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro). Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia), à venda na plataforma Sympla.
Outra atração
>>> ADRIANA BIROLLI
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O Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes) recebe, hoje (2/10) e sábado, às 20h, o espetáculo “Não! A comédia para quem tem dificuldade de dizer não”, estrelado por Adriana Birolli. Com texto e direção de Diogo Camargos, o monólogo acompanha mulher prestes a completar 36 anos que não quer ir à comemoração de seu aniversário. A trama aborda, com humor, a jornada feminina em busca da liberdade. Ingressos: R$ 140 (inteira) e R$ 70 (meia), à venda na plataforma Sympla e na bilheteria da casa.