Dança

"Lecuona" é "emotiva, engraçada e dramática", diz Rodrigo Pederneiras

Criação singular no repertório do Grupo Corpo e uma das favoritas do público, coreografia volta ao cartaz em BH, ao lado de "Piracema", a partir desta sexta (2/10)

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Ainda que “Lecuona”, desde sua estreia, em 2004, tenha tido outras temporadas, há muita gente que vai ver o espetáculo pela primeira vez somente agora. Esse grupo de pessoas terá uma surpresa na sequência final da coreografia criada por Rodrigo Pederneiras.

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O número executado durante a valsa do compositor cubano Ernesto Lecuona (1895-1963), mais a cenografia e iluminação de Paulo Pederneiras, criam um momento de suspensão. O impacto é enorme, um dos maiores da extensa obra do Corpo, conhecido por grand finales. Não dá para dizer mais – também existe spoiler na dança.



O que dá para falar é que a dobradinha com “Piracema” (2025) – outro divisor de águas no grupo, que pela primeira vez criou um espetáculo com dois coreógrafos, no caso, Rodrigo e Cassi Abranches – deverá ficar interessante. A montagem mais recente do Corpo tem tons acobreados – obtidos graças à iluminação em cima do cenário feito de 82 mil latas de sardinha. “Lecuona” termina numa tonalidade próxima do prata.



“É impressionante ver ‘Lecuona’ depois desses anos todos: não envelheceu nada, nada.” Tal comentário, feito por um grande amigo de Rodrigo, crítico de dança, deixou o coreógrafo muito satisfeito. “Por incrível que pareça, é uma peça supercontemporânea. Marcou muito e se tornou incrivelmente pedida, acho que por ser muito emotiva e engraçada. Às vezes, também dramática.”



A história de “Lecuona” teve início quando Rodrigo, fã havia muito da obra do cubano, descobriu um CD usado numa loja nos Estados Unidos. Os 11 pas de deux em cena obedecem quase totalmente à ordem das músicas do álbum. “Sei que mudei uma canção de lugar, mas hoje não lembro mais.”



ENSAIOS


Foi longo o processo de ensaios com a nova geração de bailarinos do Corpo, boa parte na casa dos 20 e poucos anos. “Leva um tempo para eles se engajarem e se apossarem das coisas. Mas, depois que fazem isso, é impressionante como lidam com toda a informação de paixão, de amor perdido, amor jogado fora. O espetáculo tem um quê de anos 1950 e é incrível ver como essa molecada responde a esse tipo de estímulo.”



Paulo afirma que uma das razões pelas quais o espetáculo foi remontado agora é seu elenco masculino. “Você precisa ter um elenco muito organizado, porque, mesmo que as mulheres brilhem em cena, o papel dos homens é muito refinado, não é trivial. O elenco feminino quase sempre foi muito bom, mas o masculino, hoje, é excepcional. Isso contou muito.”



O diretor artístico comenta que, de vez em quando, são feitas pesquisas com o público. “Lecuona” e “Parabelo” (1997, mais popular espetáculo da companhia) estão sempre entre os primeiros colocados. “‘Lecuona’ é completamente fora do que a gente faz normalmente. Tem até algumas críticas, acho procedentes, de que é um pouco machista. A gente sabe que é, mas tem também certo humor”, diz Paulo.



Além das apresentações em teatro, “Lecuona” já foi levado para o ar livre. A primeira vez, em Granada, na Espanha, cidade conhecida pela fantástica arquitetura moura, em especial a Alhambra, complexo de palácios e fortalezas. “No final, todos os panos caíam e aparecia aquela maravilha toda.”

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No mês passado, Paulo repetiu a dose, mas em outra situação. “Lecuona” foi apresentado em setembro, durante o Anoitecer Inhotim, evento noturno realizado no Instituto de Arte Contemporânea em Brumadinho. “Roubei um pouco essa minha ideia. Era uma noite de lua nova, então estava bem escuro. Na hora do final, iluminei aquele jardim lindo. Ficou uma coisa tão legal, pois (um espetáculo do Corpo) tem que ter uma coisa no final. É importante esse impacto”, conclui.


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