Dança

Grupo Corpo dança "Lecuona", queridinha do público e sonho de bailarinos

Temporada da companhia de dança em BH, que começa nesta sexta (2/10), inclui uma das mais ousadas coreografias do repertório, montada pela última vez há 10 anos 

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Em 2004, Tris Martins completava um ano como aluna de balé clássico do Instituto Ary Carvalho, em Benfica, Zona Norte do Rio de Janeiro. O projeto social levava as crianças e jovens a espetáculos. Ela tinha 7 quando, no Teatro Municipal, assistiu pela primeira vez a um balé de dança contemporânea. Era “Lecuona”, do Grupo Corpo.

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O impacto na menina nascida na comunidade da Mangueira foi imediato. “Fiquei muito encantada com os pas de deux, porque eram muito diferentes. Eles dançavam um pouco de clássico, mas misturado com contemporâneo. E de salto. Achei absurdo de lindo”, relembra. Um número em especial chamou a atenção de Tris: o dueto da bailarina de laranja, na época interpretada por Jacqueline Gimenes.



Vinte e dois anos mais tarde, é a própria Tris, hoje com 28, quem dança o pas de deux de laranja (seu parceiro é Jonathan de Paula) em “Lecuona”. “A letra fala de amor, e tem essa questão de olhar nos olhos, beijar. Só que, ao mesmo tempo, é engraçado, divertido. E me sinto assim quando estou dançando.”



A partir desta sexta (2/10), o Corpo inicia sua temporada anual no Palácio das Artes. Fazendo dobradinha com este balé está a montagem mais recente, “Piracema”, lançada em 2025, quando do cinquentenário do grupo. As apresentações, diárias (à exceção de segunda e terça), seguem até domingo (11/10).



A partir da música do compositor e pianista cubano Ernesto Lecuona (1896-1963), a companhia concebeu um de seus espetáculos mais célebres e ousados. Com as músicas encontradas em um CD usado comprado na loja Amoeba, em São Francisco, Califórnia, Rodrigo Pederneiras concebeu 11 pas de deux, números interpretados por duplas diferentes.



PRIMEIRA VEZ


A referência à cor laranja se dá porque, no figurino criado por Freusa Zechmeister (1941-2024), cada bailarina usa um vestido de uma cor – os homens estão sempre de preto. Remontado há 10 anos, “Lecuona” volta agora com elenco praticamente novo. Dezesseis dos 22 bailarinos estão fazendo o espetáculo pela primeira vez. Já houve as temporadas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Mas dançar em Belo Horizonte é diferente.



Assim como Tris, Davi Gabriel, de 25, é da turma mais recente do Corpo, o grupo de bailarinos que entrou quatro anos atrás. Nascido em Belém (Pará), mas vivendo fora por causa da dança desde a adolescência, ele considera “sempre um desafio” dançar em Belo Horizonte.



“Tem certa exigência da casa por ser uma coisa mais familiar. Às vezes, os familiares são mais exigentes do que qualquer outra pessoa. Mas, como já fizemos no Rio e em São Paulo, ao chegar aqui a gente já se apropriou um pouco mais de cada duo.”



Davi tinha o sonho de dançar “Lecuona”. “Quando eu estava fazendo audição (para entrar no grupo) as pessoas comentavam muito sobre o espetáculo. Como são duetos o tempo inteiro, as pessoas não esquecem, criam uma imagem muito específica”, comenta ele, que faz o pas de deux lilás com Ágatha Faro.



A temporada de ensaios não foi fácil. “Utilizo algumas coisas do balé clássico, minha técnica antiga, para colocar (a parceira) no eixo, guiá-la da melhor maneira possível. Mas tem uns braços que eu nunca tinha visto na vida, uma pegada diferente.”



Mineiro de Muriaé, na Zona da Mata, Wally Malaquias, 28 anos de vida e quatro de Corpo, foi escolhido para dançar o tango com Bianca Victal, que usa vestido vermelho. A dupla levou um tempo até se entender, Wally conta. “Acho que um e o outro foram tirando a rédea, aceitando como o corpo se colocava.”



É um dos momentos de muita paixão em cena, já que o tango de Lecuona fala da perda de um amor e a vontade da parceira de se vingar do ex-amante. “Ela está por cima o tempo todo. Neste contexto, é um pas de deux muito ágil, com dinâmica”, observa Wally, que vai receber mãe e irmã na temporada em BH. “Quando você tem na plateia pessoas importantes na sua vida, você entra em cena com outra emoção.”



Caçula entre os 22 bailarinos em cena, a sergipana Giulia Madureira, de 25, dança com o bailarino Lucas Saraiva. A dupla faz o pas de deux rosa. “A melodia é muito romântica, mas a letra é forte. Fala algo como ‘Eu tô com ele, tenho um amor, mas ninguém apaga essa chama que tenho dentro de mim’.”



Em cena, Giulia tem que mostrar dois lados. “O pas de deux é lento, meloso, tem mais pernas, só que, ao mesmo tempo, tem muitas pegadas. Preciso mostrar uma leveza, mas tenho que fazer muita força.”



No processo de ensaios Giulia já usou quatro sandálias de salto – há dois pares reservados para os espetáculos. “Nunca tinha dançado de salto. Quando a gente está de sapatilha, tem um impulso. De salto, é diferente realizar o mesmo movimento por causa da estabilidade. No início, foi muito difícil.”



Assim como ocorreu com seus colegas, “Lecuona” era um desejo desde sua entrada no Corpo. “A Paulinha (Ana Paula Cançado, ex-bailarina do Corpo e hoje ensaiadora do grupo) falava que tinha que esperar um pouco porque a gente tinha que amadurecer. Por mais que tenhamos dançado em ‘ene’ lugares e feito diversos balés, para dançar ‘Lecuona’ precisamos ter amadurecimento”, afirma Giulia.

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GRUPO CORPO
Espetáculo com as coreografias “Piracema” e “Lecuona”. Temporada desta sexta (2/10) a domingo (11/10) no Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro). Quarta a sexta, às 20h, e sábados e domingos, às 19h. Ingressos: de R$ 50 a R$ 280. À venda na bilheteria e no Sympla.


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