Da sala de aula da Universidade de Coimbra, em Portugal, para os palcos de Boa Esperança. Esse foi o caminho da música “Na mão do palhaço”, a grande vencedora do 56º Festival Nacional da Canção, encerrado na noite deste sábado (6/9), na cidade do Sul de Minas. Sua autora e intérprete é a atriz, cantora e compositora Jana Figarella, 42 anos, de Santarém, no Pará.

“Comecei a achar que sou muito boa nisso. Nós somos nossos maiores críticos e o (resultado do) festival valida o artista”, disse ela. Depois de vencer a etapa em Nepomuceno, no último fim de semana de agosto, Jana continuou na área. Foi para Três Pontas, onde chegou a fazer shows. Para o festival, montou uma banda com músicos dessas duas cidades mineiras.

 

Nesta edição, o evento teve 1.196 canções inscritas, de compositores de 19 estados. Foram seis etapas classificatórias, duas semifinais e a final, com show do Ira!. Jana, que havia participado do festival quatro anos atrás, não achava que teria muitas chances. “Ter ganhado foi inacreditável, pois tinha muita gente boa”. Na semifinal, na sexta (4/9), teve alguns problemas técnicos.

“Na mão do palhaço” nasceu durante um curso de Letras que ela fez, em 2019, na Universidade de Coimbra. A professora era Adriana Calcanhotto, que há alguns anos dá aulas naquela instituição. A cantora e compositora gaúcha pediu que seus alunos criassem uma música de protesto.

“Era bem a época em que estavam trocando de presidente (2019 foi o primeiro ano da gestão Bolsonaro). Estava na cara que as pessoas não estavam ouvindo o que estava acontecendo. Pensei numa música sobre aquele momento”, conta Jana. Os últimos versos dizem “O circo está armado e você pode decidir: O palhaço é o primeiro que aplaudir”. Adriana, na época, entendeu o recado: “Ela me disse: ‘Sinto muito, não tem como aplaudir’”.

Nascida em Manaus, de pai mineiro (de Araguari) e mãe roraimense (de Boa Vista), Jana foi criada em Santarém. Viveu também 15 anos em Recife, onde se formou em Artes Cênicas na Universidade Federal de Pernambuco. Ainda morou em São Paulo e no Rio de Janeiro, já que “a vida do artista é onde ele está trabalhando”. Recebeu o título de cidadã honorária de Santarém por causa da canção “Nada se compara”, que se tornou o hino informal daquela cidade.

A música chegou para Jana depois do teatro, que ela pratica desde a infância. Um divisor de águas na carreira foi “Cássia Eller – O musical”. Ao longo da década (2014-2024) que o espetáculo ficou em cartaz, Jana se revezou no papel principal, e outras mulheres importantes da vida da cantora, como a amiga Dora e a irmã Rúbia.

“Foi o musical que me projetou”, conta. Tal projeção cobrou seu preço. Na época, Jana já tinha lançado dois álbuns. “Mas não conseguia mais fazer um show meu. Só me ligavam pedindo Cássia Eller. Achei que tinha perdido a identidade, então fui para Portugal para dar um tempo até me desgarrar da personagem. Deixei meu cabelo crescer e fui voltando a ser eu. Foi daí que comecei a fazer coisas que não tinham a ver com a Cássia”, relembra.

No retorno ao Brasil, voltou ao musical, mas já com outra postura. Participou ainda de montagens de “Morte e vida severina” e “Dona Flor e seus dois maridos” (este em outra temporada portuguesa). Ainda que Cássia seja um norte, a cantora favorita de Jana é Mônica Salmaso. “Depois que ela assistiu a uma peça que participei, mandei mensagem mostrando uma música e pedindo opinião. Quando mostrei, ela disse que se quisesse, gravava comigo.”

Mônica gravou, há três anos, a canção “Do lado que você está”, de autoria de Jana. “Ela é tão incrível que achei, que se gravasse também, iria estragar. Mas agora estou mais confiante. Vai acontecer”, finaliza ela.

. Veja os vencedores do 56º Festival Nacional da Canção

1º lugar: “Na mão do palhaço”, composta e interpretada por Jana Figarella (Santarém/PA) – R$ 23 mil + Troféu Lamartine Babo

2º lugar: “Brasiliano”, de Gabriel Guedez e Thobias Jacó, interpretada por Aduar (São João del-Rei/MG) – R$ 17 mil + troféu

3º lugar: “Pequeno príncipe”, de Marcus Dias, interpretada pela Família Vilas Boas (Fortaleza/CE) – R$ 13 mil + troféu

4º lugar: “Respeito”, de Frederico Santa Rosa e Juliana Ghiner, interpretada por Juliana Ghiner (Rio de Janeiro/RJ) – R$ 8 mil + troféu



5º lugar: “Dandara chorou”, de Déia e Glória Silva, interpretada por Déia Silva (Contagem/MG) – R$ 6 mil + troféu



On-Line: “Transcendência”, de Renan Ribeiro, interpretada por Letícia Mori (Cruzília/MG) – R$ 5 mil + troféu

Intérprete: Jéssica Stephens, pela canção “Ensolarada”, de Zeca Barreto (Boa Vista/RR) – R$ 9 mil + troféu

Confira a letra de “Na mão do palhaço” (Jana Figarella)

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

“A lona está armada
Aqui no picadeiro
O domador na jaula do leão
O mágico serrando uma mulher ao meio
E o truque de sumir com seu dinheiro
Da arquibancada só assiste quem pagar entrada
É muita conta avulsa, mas no bolso nada
Lá vai o homem bala
Olha a mulher barbada!
Do alto o equilibrista dança na corda bamba
Naquele vai, não vai
Balança mas não cai
Que linda a bailarina!
Será quem o seu bem?
Que linda bailarina!
Será que ela tem?
Que linda bailarina, parece assustada
Na mira do atirador de facas
O circo está armado aqui neste lugar
A vida é uma grande trapezista
O circo está armado aqui neste lugar
E o palhaço é o primeiro que me olhar
E o palhaço é o primeiro que rir
E o palhaço continua a gargalhar
Desrespeitável público, sejam todos muito bem-vindos
Ao grande circo da ordem e do progresso!
No circo tem marmelada?
Tem sim senhor!
No circo tem laranjada?
Tem sim senhor!!!
O circo está armado aqui neste lugar
A vida é uma grande trapezista
O circo está armado e você pode decidir:
O palhaço é o primeiro que aplaudir”

compartilhe