Cinema

'A quinta portuguesa' busca a delicadeza que o mundo contemporâneo perdeu

Estrelado por Maria de Medeiros, que viverá D. Maria I em filme mineiro, e Manolo Solo, longa está em cartaz no Cine Belas Artes, em BH

Publicidade
Carregando...

Qual é o nosso lugar no mundo? Esta é uma das perguntas que o filme “A quinta portuguesa”, em cartaz no Cine Belas Artes, faz ao espectador. Identidade, diferenças, herança colonial e fronteiras são outros temas que o drama luso-espanhol trata. O longa chega ao Brasil com uma nota triste. Seu protagonista, o ator espanhol Manolo Solo (“O labirinto do fauno”), morreu há um mês, aos 62 anos, de câncer, em Madri.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

“Foi realmente um belo encontro, pois nossa proposta tinha um lado lúdico pelo fato de eu falar um pouco em espanhol e ele ter posto tanto empenho em aprender o português”, afirma a atriz portuguesa Maria de Madeiros, coprotagonista do filme.

Na história escrita e dirigida pela espanhola Avelina Prat, Solo interpretou um pacato professor de geografia. Apaixonado por mapas, Fernando está casado há poucos anos com Milena (Kasia Kapsia), imigrante sérvia que conheceu em Barcelona, onde vive. Um dia, sem falar nada ou deixar um bilhete, ela vai embora.

Sem rumo, Fernando resolve sair a esmo. Na viagem, vai parar numa praia, onde se aproxima de outro homem. O acaso do destino faz com que Fernando tome não só a identidade daquele estranho, como também seu emprego.

É aí que entra Amália, a personagem de Maria de Medeiros. Nascida em Angola, ela administra a quinta herdada de uma tia. Fernando chega para trabalhar como jardineiro. Logo fica claro que ele não entende muito do riscado. Mesmo assim, faz amizade com a proprietária e com outras pessoas que lá vivem.

“É muito bonito, bem escrito e sutil. O filme oferece a possibilidade de interpretar, nada foi imposto. Houve muito intercâmbio, pois é basicamente um filme sobre o encontro e o fato de que podemos ter confiança. A mensagem atual é de tanta desconfiança do outro, ou de ver o outro como agressor, mas esta história, no fundo, diz o contrário: temos que respeitar o outro até na mentira”, comenta a atriz.

Amália está o tempo inteiro na quinta. Só deixa a propriedade de vez em quando, ao dar um respiro para sua vida passada, o roteiro nos explica.

“O background da personagem, que com os amigos têm passado africano, está muito certo. Realmente, há muitos portugueses com essa ligação de infância e juventude com a África”, comenta Maria.

O longa foi rodado entre Barcelona e uma quinta no Minho, Noroeste de Portugal, próximo da fronteira com a Galícia, na Espanha.

“A diretora, Avelina, é arquiteta. Em alguns aspectos do filme se sente a visão da arquitetura. Eu diria nos planos, mas, sobretudo, na construção da própria história. Ela escolheu a quinta por sua dimensão humana. É pequenina, mas tem todas as características arquitetônicas daquela região”, acrescenta Maria de Medeiros.

O longa traz “oxigênio para o público”, afirma. “Ele nos dá a possibilidade de respirar e de pensar, pois fala muito sobre a questão da identidade. A meu ver, identidade é tudo, menos rígida e definitiva. Esse tema muito importante e atual percorre todo o filme.”

Cidadã do mundo

Com 61 anos, Maria de Medeiros tem uma trajetória que nunca se pautou por fronteiras. Nascida em Lisboa, hoje radicada em Paris, é fluente em vários idiomas e faz carreira internacional. Foi revelada como a escritora Anaïs Nin no filme “Henry & June” (1990) e ganhou o mundo definitivamente como Fabienne, a namorada francesa do pugilista Butch Coolidge (Bruce Willis) em “Pulp Fiction” (1994), de Quentin Tarantino.

“Foi muito fácil me identificar com Amália, porque, de fato, na minha carreira sempre estou em contato com outras culturas e línguas”, continua ela. Em 2025, Maria de Medeiros voltou a Belo Horizonte para rodar o segundo longa na cidade. Em 2009, ela participou de “O contador de histórias”, cinebiografia do pedagogo e contador de histórias Roberto Carlos Ramos.

Agora, sob a direção de Elza Cataldo, ela vive a personagem-título de “Maria, a rainha louca”, longa em finalização sobre D. Maria I, a primeira mulher a governar Portugal. A trama aborda o período em que a família real se exilou no Brasil.

D. Maria I, a real madrinha do Mosteiro de Macaúbas

A atriz destaca as cenas no Convento de Macaúbas, em Santa Luzia. “É um filme com poucos meios, mas grande ambição histórica e profundidade das personagens. Foi um belo desafio artístico fazer cenas muito longas, sem parar, quase como se fosse teatro.”

Por conta da produção Brasil-Portugal, Maria de Medeiros conheceu mais sobre a rainha portuguesa.

“É sempre fácil apelidar a mulher de louca quando ela não faz exatamente o que os homens esperam. Antes de tudo, ela era uma mulher extremamente deprimida, tinha vivido coisas traumáticas em Portugal, como o grande terremoto e as invasões napoleônicas. Era contra o filho (D. João VI), porque achava que eles deveriam ter resistido a Napoleão. O filme começa com a chegada desta mulher desanimada, deprimida. No Brasil, os trópicos vão a seduzindo pouco a pouco”, revela.

Fernando Pessoa

Maria de Medeiros é a estrela de um dos últimos trabalhos do diretor e dramaturgo americano Bob Wilson (1941-2025). A atriz interpreta Fernando Pessoa em “Pessoa, desde que eu sou eu”. Wilson explora o universo do poeta lisboeta nesta peça falada em português, italiano, francês e inglês.

A diversidade de línguas espelha o próprio elenco, com sete atores de diferentes nacionalidades. Cada ator interpreta um heterônimo de Pessoa. A atriz atua ao lado de dois brasileiros radicados na França, Janaína Suaudeau e Rodrigo Ferreira. “A gente está rodando com o espetáculo e adoraria ir com ele ao Brasil”, diz.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

“A QUINTA PORTUGUESA”

(Portugal/Espanha, 2025, 114min.) – De Avelina Prat, com Manolo Soto e Maria de Medeiros. O filme está em cartaz às 16h10, no Cine Belas Artes 2.

Tópicos relacionados:

cinema elza-cataldo portugal

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay