FOTOGRAFIA

Francês radicado no Brasil foi pioneiro na fotografia

Novas análises científicas comprovam a contribuição de Hercule Florence (1804-1879) para o desenvolvimento da arte fotográfica

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Mas, para a humanidade ficar “bem na foto” do universo e captar melhor o espírito dos tempos, é preciso iluminar o passado e revelar, sem retoques, o trabalho dos pioneiros da fotografia, mestres ao registrar o que viam. Entre eles, destaca-se o francês Hercule Florence (1804-1879), com uma vivência no Brasil fundamental nessa história.



Artista e inventor, Florence foi responsável há mais de 200 anos, no interior de São Paulo, por experimentos com a ação da luz para produzir imagens. Com todo merecimento, seu nome foi celebrado, recentemente, em Oslo, na Noruega, durante a 21ª Conferência Trienal do Icom-CC (International Council of Museums - Committee for Conservation – em português, Comitê para a Conservação do Conselho Internacional de Museus).



Na oportunidade, houve apresentação de novas análises científicas que ajudam a revelar como Hercule Florence desenvolveu processos que o colocam entre os precursores da fotografia mundial.
Desta vez com o tema Conexões Culturais na Conservação, o encontro, considerado um dos mais importantes de âmbito internacional dedicados à conservação do patrimônio cultural, reuniu especialistas no setor, cientistas do patrimônio, historiadores da arte, curadores e profissionais de museus de diversos países.



Apresentado na capital norueguesa, o estudo “Remote visions: Hercule Florence's photographic innovations in Brazil” (“Visões remotas: as inovações fotográficas de Hercule Florence no Brasil”) resulta da colaboração internacional entre Getty Conservation Institute (GCI), em Los Angeles (EUA); Laboratório Hercules, da Universidade de Évora, em Portugal, e os institutos Hercule Florence (IHF) e Moreira Salles (IMS), ambos em São Paulo (SP).



A pesquisa traz os resultados de análises científicas feitas em três artefatos fotográficos produzidos por Florence em 1833: dois rótulos de farmácia, pertencentes ao IHF e ao IMS, e um diploma maçônico, do acervo do IHF.



IMPRESSÃO DE IMAGENS


Na busca por maneiras de reproduzir imagens, Hercule Florence fez diversos experimentos de impressão de imagens pela ação da luz, cuidadosamente registrados em seus diários. Neles, descreveu procedimentos que usavam elementos como prata, ouro, água e até urina.



Ainda visíveis quase 200 anos depois, os objetos foram examinados por uma equipe de especialistas em conservação liderada por Art Kaplan, do Getty Conservation Institute, e António Candeias, do Laboratório Hercules. Entre as técnicas empregadas, estão microscopia estereoscópica, espectroscopia de infravermelho por transformada de Fourier (ATR-FTIR), fluorescência de raios X (XRF) e microscopia eletrônica de varredura (SEM-EDS).



Conforme afirma Art Kaplan, “a maioria das pessoas na área de conservação que trabalham com esse tipo de material concorda: estes são de fato alguns dos objetos fotográficos mais antigos – e não apenas nas Américas, mas talvez em todo o mundo”.



Os primeiros resultados foram apresentados em maio de 2023, durante o Seminário Internacional 190 Anos dos Experimentos Fotográficos de Hercule Florence, organizado pelo IHF e pelo IMS, em São Paulo. Desde então, Art Kaplan deu continuidade às investigações no Getty Conservation Institute, em Los Angeles, aprofundando o estudo dos processos de fixação e estabilização usados pelo artista e inventor francês.



RÓTULOS DE FARMÁCIA


Cada vez que se mergulha nessa história, fica mais fascinante – e revelador – o trabalho de Florence. Análises confirmam que as duas provas dos rótulos de farmácia foram produzidas usando ouro como metal formador da imagem. A intensidade do sinal de ouro está diretamente relacionada à densidade da imagem, evidenciando o uso pioneiro de sais de ouro por Florence, numa inovação até hoje sem registro entre os demais precursores da fotografia.



Já no diploma maçônico, os pesquisadores identificaram prata, confirmada pela primeira vez como o metal responsável pela formação da imagem. A equipe também fez reconstituições em laboratório dos procedimentos descritos nos diários de Florence, escritos em 1832 e 1836. Os testes confirmaram a eficácia dos estabilizadores (água, urina e amônia) mencionados pelo inventor em condições de envelhecimento acelerado.



Entre os processos testados, o que usava ouro demonstrou maior estabilidade à luz, independentemente do método de fixação. As análises dos objetos originais, no entanto, não identificaram evidências diretas dos fixadores, possivelmente em razão de sua alta solubilidade em água e da sobreposição espectral com o papel.



De acordo com informações do Instituto Hercule Florence, Kaplan afirmou não conseguir realmente entender como os materiais foram estabilizados. E disse o seguinte: “Provavelmente porque são todos solúveis em água. Então, quando Florence coloca essas imagens novamente na água para remover aquele material, a maior parte – se não tudo – vai sair”.



O homem dos sete instrumentos


Além de inventor, Hercule Florence foi desenhista, agricultor, pintor,
tipógrafo, naturalista e pai de 20 filhos, frutos de seus dois casamentos



A apresentação do estudo “Remote visions: Hercule Florence's photographic innovations in Brazil” na 21ª Conferência Trienal do Icom-CC, em Oslo, ajuda a preencher uma importante lacuna na história da fotografia e reforça o lugar de Hercule Florence entre seus pioneiros, ressaltam os especialistas.
É que os experimentos do francês foram conduzidos de maneira independente no Brasil, longe dos centros europeus onde outros inventores desenvolviam, no mesmo período, processos que dariam origem à fotografia. As novas evidências científicas permitem compreender com maior precisão a originalidade das soluções encontradas por Florence e a relevância de suas descobertas.



Importante informar que as pesquisas não terminam em Oslo. Novas análises dos processos fotográficos experimentados por Florence serão desenvolvidas por Art Kaplan nos laboratórios do Getty Conservation Institute. Os próximos resultados poderão lançar ainda mais luz sobre as descobertas do artista-inventor e a respeito de um capítulo da história da fotografia que começou no Brasil há quase dois séculos.



ARTISTA E INVENTOR


Inventor de um dos primeiros processos fotográficos do mundo, Antoine Hercule Romuald Florence nasceu em Nice, na França, em 28 de fevereiro de 1804 e morreu em Campinas (SP), aos 75 anos. Considerado um dos mais interessantes e notáveis estrangeiros que se estabeleceram no Brasil, no século 19, era certamente, o que se chama hoje de profissional multimídia: inventor, desenhista, pintor, tipógrafo e naturalista.



Graças às pesquisas e ao livro “Hercule Florence - A descoberta isolada da fotografia no Brasil” (1976), de Boris Kossoy, Florence ganhou reconhecimento como um dos pioneiros do processo fotográfico ao lado dos conterrâneos Nicéphore-Niépce (1765-1833) e Louis Daguerre (1787-1851) e do inglês Henry Fox Talbot (1800-1877). Ele criou o termo “fotografia” (“photographie”) sete anos antes do inglês John Herschel, que acabou levando o crédito.



Filho do médico militar Arnaud Florence e da monegasca Augustine Vignalis, Florence, desde cedo, demonstrou interesse por desenho, ciências e pelas famosas expedições de viajantes europeus ao Novo Mundo. Aos 20 anos, embarcou em Toulon na fragata Marie Thérèse partindo para uma viagem de circum-navegação. Desembarcou no primeiro ponto de paragem da fragata, o porto do Rio de Janeiro, em 1824, dois anos após a independência do Brasil.



Depois de ter trabalhado em loja de tecidos e livraria dirigida pelo francês Pierre Plancher, o jovem foi recrutado como desenhista da Expedição Langsdorff (de 1824 a 1829), organizada pelo médico e diplomata alemão Georg Heinrich von Langsdorff, o barão von Langsdorff, cônsul geral da Rússia no Brasil.



Em setembro de 1825, os viajantes rumam para Santos (SP), de navio, e seguem a partir de Porto Feliz, por via fluvial, até alcançar a Amazônia. De 1826 a 1829, percorrem os atuais estados de São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Amazonas e Pará.



Durante a expedição, Florence realiza uma série de desenhos e aquarelas, nos quais retrata a fauna, a flora, a paisagem e a população dos locais visitados, que, com os trabalhos do artista alemão Rugendas (1802-1858) e do desenhista francês Adrien Taunay (1803-1828), constituem a única documentação iconográfica completa dessa viagem.



Relatos documentais da jornada e o contato com a natureza brasileira ao longo da jornada, em toda a sua exuberância visual e sonora, instigaram Hercule Florence a desenvolver um dos seus maiores inventos: a zoofonia, método para transcrever as “vozes dos animais” por meio dos signos tradicionais da música – e, para publicá-la, as técnicas gráficas que levaram à descoberta da fotografia em 1833.



De acordo com o Instituto Hercule Florence, as ilustrações feitas pelo artista e inventor, junto a documentos e amostras relatadas pela expedição, foram esquecidas por mais de um século na Academia Imperial da Rússia, em São Petersburgo, e redescobertas em 1930.



CASAMENTOS


Ao término da Expedição Langsdorrf, Hercule se casou com Maria Angélica, filha de Francisco Álvares Machado e Vasconcellos, importante médico e político do Segundo Reinado, e futuro governador do Rio Grande do Sul. Fixou residência em Campinas (então denominada Vila de São Carlos).

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Na cidade do interior paulista, Hercule Florence se tornou agricultor de sucesso, editor e dono da primeira gráfica local. Maria Angélica morreu em 1850 e, quatro anos depois, o francês se casou com Carolina Krug, imigrante alemã nascida em 1828 em Kassel. Juntos, fundaram em 1863 uma escola para meninas, o Colégio Florence, que foi transferido para Jundiaí após a morte de Hercule. Ele teve 20 filhos, sendo 13 com Maria Angélica e 7 com Carolina, dos quais apenas 13 chegaram à idade adulta. 




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