Em ‘Olhos nos olhos’, atriz conta sua vida por meio das letras de Chico
Monólogo de Ana Lúcia Torre repassa os 80 anos de vida e 60 de carreira da atriz; espetáculo chega a BH para três sessões, a partir desta sexta (25/9)
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No ano passado, Ana Lúcia Torre completou oito décadas de vida e seis de uma carreira desenvolvida entre o teatro e a televisão. Ela conta que, numa conversa com o diretor e dramaturgo Sergio Módena, seu amigo, ele sugeriu que essas datas deveriam ser comemoradas no palco, de peito aberto. "Sou uma pessoa discreta, não tenho mídia social e ninguém nunca soube nada da minha vida pessoal, então pensei que, sim, era hora de começar a falar", conta a atriz.
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Essa conversa entre os dois foi o embrião do espetáculo “Olhos nos olhos”, que chega a BH neste fim de semana. No monólogo, Ana Lúcia revisita memórias íntimas, afetivas e políticas, costuradas por letras de Chico Buarque – não cantadas, mas ditas como texto dramatúrgico. Escrita e dirigida por Módena, a peça entrelaça a vida da atriz com a história recente do Brasil.
Ela compartilha com o público, como se estivesse na sala de visitas de sua casa, passagens de sua infância, o início no teatro, o exílio na Europa, sua prisão e perseguição durante a ditadura militar. "Quando topei fazer, começamos a bater papo, eu contando casos e Sergio gravando, até que formou-se um texto. Sublinhamos cada parte da minha vida com letras de Chico Buarque que se encaixavam", diz. Ela explica que um grupo de amigos próximos ouviu a leitura do texto e contribuiu com suas próprias lembranças.
A escolha da obra do cantor e compositor para ilustrar a história que Ana Lúcia conta não foi fortuita. Artistas de uma mesma geração, eles começaram suas respectivas trajetórias juntos. A atriz recorda que quando entrou na faculdade de Ciências Sociais, na PUC-SP, na primeira metade dos anos 1960, um grupo de teatro que reunia alunos de diversos cursos estava sendo formado. A proposta era montar uma peça para a inauguração do Tuca (Teatro da Universidade Católica), que estava em fase final de construção.
“O TAL DO FRANCISCO”
"Éramos um grupo na faixa dos 20 a 22 anos e resolvemos montar 'Morte e vida Severina', do João Cabral de Melo Neto. Sabíamos que tinha um rapaz fazendo arquitetura que compunha e chamamos o tal do Francisco para musicar o poema. Convivi bastante tempo com Chico durante a montagem e as apresentações do espetáculo", conta a atriz. Eles voltaram a trabalhar juntos mais de 20 anos depois, em 1989, quando Ana Lúcia estrelou "Suburbano coração", de Naum Alves de Souza, com trilha composta por Chico.
Ela explica que um episódio mais recente foi determinante para a formatação do monólogo. "Chamei um grupo de amigos na minha casa e interpretei sete letras de músicas do Chico. Eles adoraram. Contei essa história para o Sergio quando começamos a falar de fazer um espetáculo, ainda sem ter ideia do que seria, e ele considerou uma ótima ideia misturar pedaços da minha vida com letras de músicas do Chico. O difícil foi fazer a seleção das que se encaixariam melhor, porque tudo o que ele canta serve a uma vida", diz.
As letras de Chico que entremeiam o texto conduzem a atriz na interpretação de temas variados, como amor ("Olhos nos olhos", "Atrás da porta", "Tatuagem"), política ("Cálice", "Apesar de você") e sociedade ("Cotidiano", "Geni e o Zepelim", "Meu guri"), entre outros.
Embora seja um monólogo, a atriz é acompanhada em cena pelo pianista Diógenes Júnior. O filho dela, Pedro Lobo, assina a direção musical. São as letras de Chico em primeiro plano, mas há uma trilha original composta para o espetáculo. "Em alguns momentos, tem o piano tocando; em outros, tem uma música incidental gravada e ainda tem partes com as duas coisas acontecendo juntas. Agora, do Chico, são só dois pedaços de duas músicas em que a letra que interpreto tem acompanhamento musical", explica a atriz.
O nome do espetáculo se refere a uma das canções de Chico, mas também alude ao jogo que Ana Lúcia estabelece com a plateia, de uma conversa olho no olho, segundo Módena. "É o retrato de uma grande atriz, mas também, em certa medida, do nosso país, com tudo o que qualquer um de nós viveu ou acompanhou ao longo das últimas décadas", diz ele.
“OLHOS NOS OLHOS”
Monólogo com Ana Lúcia Torre. Texto e direção: Sergio Módena. Nesta sexta (25/9) e sábado, às 20h, e no domingo (27/9), às 19h, no Teatro do Centro Cultural Unimed-BH Minas (Rua da Bahia, 2.244, Lourdes). Ingressos com preços variando de R$ 25 a
R$ 150, à venda pelo Sympla.
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“Sou uma pessoa discreta, não tenho mídia social e ninguém nunca soube nada da minha vida pessoal, então pensei que, sim, era hora de começar a falar”
Ana Lúcia Torre,
atriz