Partitura de imagens
Livro "Mapa de ‘Limite’, filme de Mário Peixoto", da Editora Cosac, é uma edição em capa dura, assinada por Saulo Pereira de Mello, fundador do arquivo do cineasta
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Reputado o maior filme do cinema brasileiro, “Limite” (1931), de Mário Peixoto (1908-1992), tem uma trajetória fora das câmeras igualmente excepcional. Foi concebido no papel de carta de um hotel de Paris numa noite de 1928, sob a influência da capa de uma revista de vanguarda. Peixoto só o dirigiu porque Ademar Gonzaga e Humberto Mauro se recusaram. Acharam o roteiro particular demais para não ser dirigido por ele próprio.
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A história segue com o não lançamento comercial do longa. “Limite” estreou, em sessão única, em 17 de maio de 1931, no Rio de Janeiro. Foi exibido de quando em vez, para plateias privadas – a mais célebre das apresentações foi organizada por Vinicius de Moraes, em 1942, para Orson Welles – até 1959, quando o filme silencioso já apresentava sinais de decomposição química. Começava aí a história da recuperação da obra-prima quase perdida.
“Mapa de ‘Limite’, filme de Mário Peixoto” (Cosac, 200 páginas) é um livro tão singular quanto o próprio longa-metragem – o único, por sinal, que Peixoto finalizou. O volume de capa dura é assinado por Saulo Pereira de Mello (1933-2020), pesquisador, restaurador e fundador do Arquivo Mário Peixoto.
Foi ele quem, em 1971, salvou o filme, realizando sua primeira restauração. Foi também Mello quem supervisionou o restauro definitivo de “Limite”, em 2007. A iniciativa, realizada conjuntamente por duas cinematecas, a Brasileira e a de Bolonha, na Itália, foi capitaneada por Walter Salles – a verba veio da World Cinema Foundation, criada por Martin Scorsese.
RESTAURAÇÃO
“A paixão do Saulo (por ‘Limite’) era tão grande que ele tinha o filme dentro de casa. Na época, não tinha nem VHS. Ele primeiro se apropriou do filme, depois o restaurou e só depois fez o livro”, comenta Carlos Augusto Calil, presidente do Conselho da Cinemateca Brasileira. A primeira edição, lançada em 1978, nasceu da restauração analógica.
“Foi um acontecimento (o lançamento do volume). Muito difícil, pois na época não havia recursos. O livro foi como uma relojoaria”, acrescenta Calil. O que torna o volume único é que “Mapa de ‘Limite’” apresenta o filme plano a plano, com todos os fotogramas necessários para a compreensão da obra. Eles são acompanhados de legendas que descrevem cada cena.
“Este mapa não tem a função – nem poderia ter – de substituir a visão do filme. Como a partitura não substitui a execução da música. Seu objetivo é ser um sucedâneo da impossível posse do filme por todo o interessado”, escreveu Mello.
O volume que a Cosac está lançando deriva do restauro digital. Não é uma mera reedição, mas uma versão atualizada e ampliada. O volume foi organizado por Calil e por Patricia de Filippi. A restauradora, além de analisar, fotograma por fotograma, e corrigir pequenas imperfeições, foi responsável pela grande novidade. Ela fez a reconstituição, em desenho, da sequência de 30 segundos perdida de “Limite” – algo que faz parte da mitologia do filme.
Durante quatro décadas, Mello e Peixoto foram muito próximos. “Com o Saulo, o Mário desenhou as imagens (perdidas)”, conta Calil. Os 30 segundos mostravam o homem se debruçando sobre a mulher número 2 e dando uma volta no corpo. “O Saulo passou as anotações para a Patrícia e, com elas, foi feita a reconstituição que está no livro. O que apareceu de mais interessante foi o relógio (de bolso, com o mostrador virado para baixo), que não estava na primeira edição. Só apareceu agora. Ele tem a ver com a ideia do Mário sobre o tempo, de que ele não existe”, continua Calil.
ara o diretor de “Limite”, “a passagem do tempo era a aproximação da morte”, acrescenta o organizador. Calil ficou responsável pelos textos do livro. O volume recupera alguns da edição de quase 50 anos atrás e acrescenta outros, aumentando a fortuna crítica de “Limite”.
MONTAGEM
“O Saulo não conseguia acabar o que fazia. Ele deixou vários textos começados sobre o restauro, mas nenhum concluído. Eu li tudo e fiz uma montagem, uma espécie de interpolação para conseguir o maior texto possível”, continua Calil.
Mello morreu aos 87 anos, de COVID, nas primeiras semanas da pandemia. O livro reproduz uma carta que ele havia escrito ainda em 2003, endereçada ao editor Aluizio Leite Neto, caso houvesse uma segunda edição. Os organizadores a incluíram no livro. Também foi incluído um texto de Walter Salles datado de maio de 2020, logo após a morte do restaurador.
Salles relembra o impacto que a primeira exibição de “Limite” provocou em Mello. Aos 21 anos, o restaurador viu o filme numa sessão na Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio. O ano era 1953 e a exibição se tornou histórica, pois foi a primeira, em décadas, de um filme que havia saído de circulação.
O diretor de “Ainda estou aqui” escreveu: “Plínio Sussekind Rocha, o professor de física que havia organizado a sessão, percebeu o estupor de Saulo frente a ‘Limite’, e lhe perguntou à queima-roupa: ‘O filme está se perdendo. Você não vai fazer nada? Vai deixar que um filme como esse desapareça?’. A resposta a essas perguntas preencheria toda a vida de Saulo Pereira de Mello”.
Filme
Em “Limite”, duas mulheres (Olga Breno e Tatiana Rey) e um homem (Raul Schnoor) relembram, num barco à deriva, seu passado. Uma delas escapou da prisão, a outra estava desesperada e o homem tinha perdido a amante. Cansados, eles não têm mais força para remar – perderam o desejo de viver e se conformam com a morte. O filme está disponível na plataforma Itaú Cultural Play (itauculturalplay.com.br, gratuito).
Partitura de imagens
Livro “Mapa de ‘Limite’, filme de Mário Peixoto”,
da Editora Cosac, é uma edição em capa dura,
assinada por Saulo Pereira de Mello,
fundador do arquivo do cineasta
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“MAPA DE LIMITE – FILME DE MÁRIO PEIXOTO”
De Saulo Pereira de Mello. Cosac, 200 páginas. Coedição com a Cinemateca Brasileira, Sociedade Amigos da Cinemateca, MinC e Arquivo Mário Peixoto. R$ 180.