Ópera que conta a história de Chica da Silva estreia em BH
Montagem da Fundação Clóvis Salgado protagonizada pela soprano paulista Marly Montoni tem primeira sessão neste sábado (23/9), no Palácio das Artes
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A literatura, o cinema e a televisão, a partir de “O romanceiro da Inconfidência” (1953), de Cecília Meirelles, contribuíram para a difusão de Chica da Silva. O mito havia sido criado muito antes, em meados do século 19, e a cultura popular só veio dar a ele nova dimensão. Com estreia neste sábado (19/9), no Palácio das Artes, a ópera “Chica da Silva” busca se ater mais aos fatos históricos do que às releituras posteriores.
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O projeto é mais uma aposta da Fundação Clóvis Salgado em criar um repertório inédito de óperas em torno de grandes figuras da história de Minas Gerais – processo iniciado em 2022, com “Aleijadinho”. Com música de Guilherme Bernstein e libreto de Marcos Bernstein e Flávia Bessone, “Chica da Silva” une Orquestra Sinfônica e Coral de Lírico de Minas Gerais, Companhia de Dança Palácio das Artes e solistas convidados.
A direção-geral é de Cláudia Malta, diretora artística da FCS, a cênica é da carioca Julianna Santos e a musical do mineiro André Brant, regente residente da OSMG. A soprano paulista Marly Montoni interpreta o papel-título e o tenor paranaense Ewandro Stenzowski seu companheiro João Fernandes, pai de seus 13 filhos.
A história que será contada traz muito da pesquisa da historiadora Júnia Furtado no livro “Chica da Silva e o contratador dos diamantes – O outro lado do mito” (2003). A ideia foi apresentar uma personagem mais real, longe da figura sedutora e provocante, mas também calculista, parte da mitologia da ex-escravizada que dominou o arraial do Tejuco no século 18.
“VÉU COLONIAL”
“A Chica foi um mito. A documentação existe, mas é rara. Como ela viveu de fato? Como sua história seria contada se não tivesse o véu colonial? Há também várias questões de resistência, de elementos (da cultura afro-descendente) que ficaram submersos. Acho que a montagem, além de resgatar Chica da Silva, também trata de diversos povos africanos, que têm uma diversidade gigantesca”, afirma Julianna Santos.
A narrativa que estará no palco do Palácio das Artes não é linear, explica a diretora. “Há momentos da vida da Chica, mas há um fator psicológico nas cenas. No meio de uma festa, por exemplo, cruzam imagens dos pensamentos dela. A montagem traz um caráter bem humano”, acrescenta Julianna.
Uma referência que ela levou para o espetáculo foi a obra de Conceição Evaristo. “Contar a história de Chica, que foi escravizada até os 20 anos, passa muito pela vivência das mulheres pretas.” Para Julianna, Marly Montoni está levando para a personagem “uma emoção que vem tanto de sua experiência artística quanto da pessoal”.
A cultura afro-brasileira vem à tona na ópera através de diferentes manifestações. Na primeira das quatro coreografias que Regina Advento, mineira radicada na Alemanha, criou para a Cia de Dança, os bailarinos se apresentam ao som de vissungos, os cantos de tradição afro entoados pelos escravizados nas minas. Esta sequência, que abre a ópera, mostra o processo de trabalho no garimpo.
Já a cenografia de André Cortez, também mineiro, explora os adinkras, símbolos pertencentes ao povo Ashanti, da África Ocidental. “Nessa escrita ancestral, cada símbolo tem um significado. Um deles é o sankofa, um dos principais adinkras”, diz Julianna.
O sankofa recorda os erros do passado para que eles não sejam cometidos no futuro. “Ele traz a ideia de que o tempo não é reto. Passado, presente e futuro convivem nesta ópera. São tecidos no mesmo tempo, mostrando que devemos olhar para trás não como nostalgia, mas para ressignificar o presente.”
Tal conceito é desenvolvido na montagem até a sequência final, que traz Chica reunida com um grupo de mulheres negras. “A intenção é mostrar que Chica não ficou no século 18. Ela atravessou os séculos para chegar até aqui para servir de inspiração para muitas outras mulheres”, conclui Julianna.
“CHICA DA SILVA”
Ópera em quatro quadros (dois atos) com a Orquestra Sinfônica e o Coral Lírico de Minas Gerais, a Cia de Dança Palácio das Artes e solistas convidados. Estreia neste sábado (19/9), às 19h, no Grande Teatro Cemig Palácio das Artes (Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro). Récitas também na segunda (21/9) e quarta (23/9), às 20h. Duração: 2h (com um intervalo). Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia); disponíveis apenas para as duas últimas apresentações. À venda na bilheteria e no Sympla.
CONCEIÇÃO EVARISTO
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Terminada a temporada de “Chica da Silva”, Julianna Santos segue para São Paulo para dar início aos ensaios de “Conceição Evaristo: Uma ópera escrevivência”. Com estreia em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, a montagem propõe um diálogo entre música e literatura. Além de fazer a direção cênica, Julianna também é a responsável pelo libreto, escrito a partir dos textos de Conceição. A soprano capixaba Lorena Pires vai interpretar a escritora mineira.