Quando uma pessoa sai da sua vida, o que resta dela em você? Quais rastros, sensações e cores ainda permeiam nas suas vivências? Qual o sentimento naquele momento em que toca uma música de amor ou você passa na frente daquele endereço? O compositor e produtor Rafa Bicalho enxerga esses resquícios de uma cor: azul.



Em seu novo disco "Um certo azul na sala", o artista mineiro encara as marcas deixadas por pessoas do passado em sua vida. Pessoas as quais já não existem, já morreram ou apenas seguiram outros rumos.


O projeto chega às plataformas digitais na quinta-feira (27/8), às 19h, com 10 faixas de pop rock indie, incluindo os singles já lançados – "América do Sul (vazia)", "Chocolate amargo" e "Perigo estranho". Inicialmente, o primeiro não foi divulgado como parte do projeto.


"Era um single que preparava o terreno pro clima do disco e coisas aconteceram e me fizeram perceber que era uma música do disco. Coincidentemente, o álbum fecha com a faixa 'Baby' onde é dito 'Vivemos na melhor cidade da América do Sul'", explica Rafa.



O título do projeto vem de uma falta de nomenclatura que Bicalho encontra quando quer falar sobre as marcas que o passado deixou em sua vida. "O conceito surgiu em uma das letras do disco, reparando nas nuances das coisas que acontecem quando alguém vai embora, e a forma que isso te balança. O mundo parece que ganha uma nova cor", explicou.


A oitava faixa do disco, "Problemas de um adeus", é a que carrega este conceito. "Há um certo azul na sala, há um rastro no chão para te incriminar", começa cantando Rafa. A canção, assim como o disco, segue descrevendo e refletindo como situações cotidianas têm outros significados pelas pessoas que passam por sua vida. Em certo momento da mesma música ele conclui: "nada vai fazer você se acostumar".


Referências de Rafa


Tematicamente, esse é um disco de acasos, mas eles também constituem a produção do projeto. "Em todos os casos (de referência) a parceria ou a admiração aconteceu antes da colaboração. Não teve nada muito premeditado, feito para cumprir tal função no projeto", disse Rafa.


Ao longo do álbum, ele mostra que sua carreira não se constrói apenas dos novos artistas com quem produz, como João Ferreira (compositor da faixa "Perigo estranho") ou Clara Bicho (feat na faixa "Prédios e vãos"), mas também dos artistas antigos a quem faz referência.



Em seus shows, Rafa já vinha trabalhando a ideia de versões de clássicos, cantando "O trem azul" (Lô Borges e Ronaldo Bastos) e aqui chega com uma regravação oficial de "Baby", escrita por Caetano Veloso e eternizada na voz de Gal Costa. A faixa ganha uma versão melancólica, bem diferente da versão da baiana, que canta com alegria sobre as situações cotidianas descritas.


Ele faz com que uma música de 1969, que fala de uma saída para tomar um sorvete ou de ouvir uma canção do Roberto (Carlos) se aproxime dos rastros azuis que circundam sua vida. Esses eram os rastros azuis de Caetano, que coincidentemente, escreve em um dos versos originais: "Não sei, comigo vai tudo azul."



O compositor de Divinópolis, no Centro-Oeste de Minas, também aproveita que divide a cidade natal com a poeta Adélia Prado e faz citação ao seu poema favorito dela, "Casamento" na faixa "Fevereiro (citação: Casamento)". Na busca de alguém para recitar o poema, Rafa encontrou Magali Spada, filha de Maurício de Sousa. "Queria uma pessoa com voz de experiência. Então o Daniel (neto de Magali e fotógrafo de Rafa) disse: 'Posso ver com a Magali'. Nisso surgiram cinco versões dela recitando o poema, incluindo a que foi pro disco", relatou o compositor.


O passado deixa marcas dolorosas


Em duas faixas do projeto, o compositor se dedica a falar de alguém que não está mais aqui, mesmo que indiretamente. "América do Sul (vazia)" e "Caninos, pré-molares e frontais" lidam com o luto de Rafa por sua avó, que faleceu no começo do ano.


"Essa experiência é muito imbuída em 'Caninos, pré-Molares e frontais', em que falo sobre a minha infância pela primeira vez. É uma música super curtinha que remonta uma fotografia tirada com minha tia, num momento que sempre tínhamos com minha vó. E agora era uma sensação de ter perdido ela", conta o cantor sobre a sexta canção do disco.


Nostalgia para além das faixas


As faixas do disco serão acompanhadas de clipes, disponibilizados juntos com o projeto no YouTube, que segundo Rafa Bicalho, são como "se você abrisse a gaveta de VHS de um estranho e você não tem contexto nenhum sobre o que está vendo". Com isso, o artista busca para além das letras, explorar a temática dos vestígios de outros momentos da vida no projeto audiovisual. 


Nos visuais já disponíveis, "Chocolate amargo" e "Perigo estranho" vemos uma criança brincando com itens e roupas de outro membro de sua casa e um jovem que decidiu raspar sua cabeça.



A falta de contexto também aparece na capa do projeto, onde duas pessoas correm em um descampado e uma delas está coberta de azul. Rafa conta que a imagem não foi planejada, mas foi perfeita, pensando na ideia de rastros que o disco carrega.


"Ela foi tirada numa câmera analógica, em um filme vencido, que já dá uma característica de nostálgico. E foi uma foto aleatória que tem mil interpretações, ainda mais pela presença de um 'certo azul'. Eu bati o olho e não cogitei outra capa”, comenta o artista.


Capa do disco "Um certo azul na sala" de Rafa Bicalho

Rafa Bicalho/Reprodução


"Um certo azul na sala"


• Disco de Rafa Bicalho
• 10 faixas
• Ditto
• Disponível nas plataformas digitais hoje (27/8), às 19h

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*Estagiário sob supervisão da subeditora Regina Werneck


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