São Paulo – “Como a música é a expressão mais viva da cultura no Brasil, é justamente a ela que os caretas querem impor sua ordem. E a ordem dos caretas é, e sempre foi, a da fidelidade às tais raízes ou purezas, ou sabemos lá o quê. Já pra nós, bom é ser contemporâneo ao mundo.”


Este é um trecho do texto do encarte do álbum “Fullgás” (1984). Criado pelo poeta Antonio Cicero (1945-2024) e por sua irmã, a cantora e compositora Marina Lima, é uma carta de intenções das 11 canções.



Ouvi-lo na íntegra, na noite de domingo (23/8), no Parque Ibirapuera, na abertura do show de Marina – e na voz do próprio Cicero –, disse muito não só sobre o show, mas sobre tudo o que ocorreu no C6 no
Rock.


Quando e de que forma a música pop envelhece bem? Esta foi uma questão central do evento, que durante dois dias (quentes) e noites (gélidas) celebrou os 40 anos de álbuns essenciais do rock: “Selvagem?”, dos Paralamas do Sucesso; “Cabeça dinossauro”, dos Titãs, “Rádio pirata ao vivo”, do RPM, “Vivendo e não aprendendo”, do Ira!, “Dois”, da Legião Urbana e “O concreto já rachou”, de Plebe Rude, todos lançados em 1986.



“Fullgás” é dois anos mais velho e “As aventuras da Blitz”, quatro. Todos eles foram recriados no palco. O resultado revelou diferentes graus de sucesso, com boa parte deles justificando sua relevância nos dias de hoje.





A começar por Marina. A cantora, que em sua trajetória soube abraçar as próprias imperfeições, fez o show mais produzido do festival. A banda recriou os arranjos originais e as projeções no paredão do Auditório Ibirapuera coloriram um show que passeou entre o pop e o conceitual.



Marina errou por duas vezes o início de “Mesmo que seja eu”. Mas quando chegou lá, fez todo o público cantar. Levou Lobão para o palco para tocar bateria em “Me chama”. Liminha, o baixista mais celebrado desta geração, foi outro convidado.



“Quero ver se ele vai tocar teclado nessa”, disse Marina, convocando Lobão novamente para o palco para tocar “Nosso estilo”, faixa escondida do álbum que foi uma parceria dos irmãos com ele. O velho lobo demorou, mas chegou ao palco e continuou até o bis. Ela encerrou o show com “Uma noite e meia”, quando levou para o palco Laura Diaz, da banda paulista Teto Preto.





Naquela altura, já noite, o domingo tinha tido outros grandes momentos. A começar pela própria Legião, ou melhor, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá. Os membros remanescentes da banda, que andaram se estranhando nos últimos tempos, voltaram a se reunir para o álbum “Dois”.


Show correto, sem desafios – não é difícil dominar o público quando se tem “Eduardo e Mônica”, “Tempo perdido”, “Quase sem querer”.



A surpresa veio no final. O vocalista André Frateschi foi ao microfone. “Eu queria dizer para vocês que estão aqui os três representantes da maior banda da história do rock nacional: Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e, hoje aqui com a gente, Giuliano Manfredini. Viva Renato Russo”.


Uma surpresa, pois Giuliano, Bonfá e Dado estão na Justiça há mais de uma década brigando pelos direitos da obra.




Antes disto, ainda teve a delícia de ver a Blitz tocando “As aventuras da Blitz”, o álbum solar que é considerado marco zero de toda a explosão do Rock Brasil. O carisma de Evandro Mesquita continua inabalável e o reencontro com Fernanda Abreu, convidada, só encheu mais de afeto uma tarde feliz, divertida e despretensiosa.



O domingo começou em alta rotação, com o Ira! levando o público a cantar os sucessos de seu primeiro álbum. “Vivendo e não aprendendo” foi executado na íntegra, à exceção de “Pobre paulista”, música que a banda retirou de seu repertório há tempos deido à letra polêmica. Com o jogo ganho, e letras que ressoam até hoje, a plateia tampouco se furtou a “cantar” os riffs de Edgard Scandurra.


O sábado teve altos e baixos. Desfiando o repertório de “Selvagem?”, os Paralamas mostraram que o tempo só fez bem ao seu disco mais importante, o primeiro a misturar rock com ritmos brasileiros. Hits como “Alagados” e “A novidade” soam ainda frescos, empolgantes, um contraponto à apresentação da Plebe Rude.



A veterana banda punk de Brasília soou anacrônica. “Desta geração, a gente é dos poucos que mantiveram a linha. A gente é punk”, disse Philippe Seabra, em discurso passadista. A Plebe e Paulo Ricardo tocaram de tarde, sob sol inclemente, algo deslocados diante do repertório. 




Banda de maior sucesso comercial de toda a década de 1980, o RPM teve uma trajetória carregada de tretas – Paulo Ricardo não pode sequer usar o nome do grupo. A um mês de completar 64 anos, ele continua com os maneirismos de sempre – se agacha, chuta, usa o olhar 43 incontáveis vezes. É histriônico, mas também competente e divertido.



O público que encheu o parque foi mais uma prova da sessão nostalgia. A maioria das 20 mil pessoas era de maiores de 40. O C6 no Rock pegou os Titãs no meio da turnê comemorativa “Cabeça dinossauro”.



Desta maneira, o show não trouxe nada muito diferente do que está sendo apresentado Brasil afora. Os tributos que encerraram as duas noites afastaram o clima de déjà vu. O guitarrista Beto Lee comandou a banda do show “Meu sonho é ser imortal”, dedicado a Rita Lee, e formada por músicos que tocaram com ela, incluindo o baixista Lee Marcucci, cofundador do Tutti Frutti.




A escolha das intérpretes foi uma bola dentro. Foi um elenco diverso, de contemporâneas como Baby do Brasil (jazzy em “Ando meio desligado”) e Sandra de Sá (com discursos em “Orra meu”) a cantoras muito influenciadas por Rita, como Letrux e Miranda Kassin.



Foi Catto quem deu mais intensidade às canções, fazendo uma versão linda e teatral de “Coisas da vida” e um competente dueto com Alice Caymmi em “Ovelha negra”. Marina Sena surgiu mais contida no palco. Linda e lânguida sob vestido rendado transparente, usou de todas as caras e bocas para cantar “Amor e sexo”. Caiu como uma luva.

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A repórter viajou a convite da organização do evento


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