Literatura

‘É mais fácil destruir do que construir’, diz autor de ‘Meus amigos’

Hisham Matar utiliza a história recente da Líbia como pano de fundo para a amizade entre três homens exilados, no romance, recém-lançado no Brasil 

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A imagem rodou o mundo. Em outubro de 2011, o poderoso – e cruel – Muammar Gaddafi (1942-2011) foi arrancado por rebeldes da rede de esgoto onde se escondia em Trípoli, capital da Líbia. Ensanguentado e consciente, foi cercado por uma multidão enraivecida que o agredia.

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A versão oficial dá conta de que Gaddafi morreu com um tiro na cabeça, disparado durante fogo cruzado. No entanto, investigações posteriores, como a da Human Rights Watch, indicaram que ele foi vítima de execução sumária.



Independentemente da causa, a morte do ditador encerrou 42 anos de governo autoritário e marcou o ápice dos levantes conhecidos como Primavera Árabe. Influenciou também o escritor norte-americano de ascendência líbia Hisham Matar a escrever “Meus amigos”, publicado pela primeira vez no Brasil pela editora Âyiné, com tradução de Giovani T. Kurz.



Hisham já pensava em escrever o romance desde 2003, mas a ideia só ganhou força a partir da Primavera Árabe. “Não se tratava apenas de política. Muitas das motivações tinham a ver com sensibilidade e gosto”, diz o escritor.



Finalista do Booker Prize em 2024, “Meus amigos” aborda a amizade, a dor do exílio e a forma como as tempestades políticas moldam a vida das pessoas. Narrado por Khaled Abd al Hady, o romance trata da amizade dele com Mustafa e Hosam, tendo a ditadura de Gaddafi como pano de fundo. Os três são de Bengasi, na Líbia, mas se encontram por acaso na Europa, tendo como acontecimento central o tiroteio na Embaixada da Líbia em Londres, em 1984.



Ainda que os três sigam por caminhos diferentes, a amizade ganha força, principalmente pelo fato de compartilharem a experiência do exílio. A seguir, a entrevista de Hisham Matar ao Estado de Minas.



Como a revolução líbia alterou a trajetória que você havia originalmente imaginado para os personagens Khaled, Mustafa e Hosam?
Vi muitas pessoas que conheço começarem em lugares semelhantes e acabarem em lugares muito diferentes. Por isso, passei a me interessar pelas maneiras como o temperamento pessoal influencia as decisões que as pessoas tomam. Não se tratava apenas de política. Muitas das motivações tinham a ver com sensibilidade e gosto. Uma das maneiras pelas quais penso em “Meus amigos” é como um retrato de temperamentos.



Khaled, Mustafa e Hosam seguem caminhos muito diferentes depois de 2011. Por que foi importante para você construir a amizade entre eles a partir de três experiências de exílio tão distintas?
Os três homens estão alinhados em muitos aspectos. Compartilham posições políticas semelhantes e são da mesma cidade na Líbia. De uma maneira ou de outra, tentaram construir uma vida em Londres. Mas são diferentes uns dos outros em temperamento. E isso os conduz em direções muito distintas.



Por que você escolheu o tiroteio na Embaixada da Líbia como eixo da narrativa?
Conhecia pessoas que estavam naquela manifestação e que foram baleadas. Desde os 13 anos, quando vi o acontecimento no noticiário na televisão, e mais tarde, quando me mudei para Londres para estudar, ele sempre esteve às margens da minha vida. É um episódio que contém tanta violência, mas que também moldou a vida daqueles que estavam lá, levando suas trajetórias para direções inesperadas.



Hosam descreve a captura e a morte de Muammar Gaddafi como um encontro com “o cerne da nossa dor”. Por quê?
Foi um momento complicado para muitos de nós. Até mesmo para aqueles que afirmam que não foi. A maneira como ele morreu, de forma violenta e caótica, privou o país da possibilidade de fazer justiça. Precisamos ter cuidado com o que fazemos com nossos criminosos, caso contrário, podemos facilmente permitir que nosso desejo de vingança perpetue a lógica deles. E a justiça se transforma em vingança.



Ainda hoje, algumas pessoas defendem o regime de Gaddafi, apontando os avanços sociais da Líbia em áreas como saúde, educação e direitos das mulheres. Como você responde a essa interpretação da era Gaddafi?
O regime de Gaddafi, como quase todas as ditaduras, teve algumas virtudes. Mas destacar essas virtudes sem mencionar os crimes devastadores que cometeu — sobretudo o fato de ter sufocado a vida pública a tal ponto que, depois de 42 anos no poder, deixou instituições estatais tão rudimentares que o país tinha pouquíssimo sobre o que construir — serve apenas para obscurecer os fatos. Os líbios encerraram corajosamente uma ditadura brutal, mas depois tiveram de enfrentar a tarefa de construir um Estado. Isso é muito mais difícil.



O que a experiência histórica da Líbia pode nos ensinar sobre a fragilidade das democracias?
Que é muito mais fácil destruir do que construir. Que a colaboração é imperfeita, mas muito melhor do que a dominação. E precisamos ter cuidado com quem escolhemos para nos liderar, porque essas pessoas realmente nos conduzem, e a linguagem que utilizam, o discurso que empregam, afeta nossa cultura.

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“MEUS AMIGOS”
• De Hisham Matar
• Editora Âyiné
• 420 páginas
• R$ 169,90, no site da editora.


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