Em 1959, o artista romeno-suíço Daniel Spoerri (1930-2024) fez algo que se tornou base para o que viria a se chamar eat art. Entusiasta da cozinha, preparou um jantar e pediu aos convidados que deixassem talheres e pratos sujos com restos de comida ao final da refeição. Colou cada objeto na mesa do mesmo jeito como havia sido deixado, dando início à série “Trap paintings”, cujas obras transformam o caos da mesa pós-refeição em uma espécie de natureza morta.
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Spoerri não foi o único que levou elementos da gastronomia para o universo das artes visuais. No entanto, é o primeiro nome que vem à mente da artista paulistana Valentina Tedeschi ao comentar as principais referências de sua exposição “A ponta da língua”, que entra em cartaz na Piccola Galeria da Casa Fiat de Cultura, nesta terça-feira (28/7).
Às 19h, haverá bate-papo com a artista. No sábado (1º/8), das 15h às 16h30, Valentina vai ministrar a oficina infantil “Formigas doceiras: construindo um formigueiro de paçoca”, com entrada franca.
Arroz, mel e ferro
“A ponta da língua” conta com cinco obras construídas a partir de alimentos e utensílios de cozinha para investigar a relação entre cultura e ecossistema. Grãos de arroz, cogumelos, barras de ferro e mel são matéria-prima para a artista de 27 anos.
No caso da escultura “Artrópode”, aranha é recriada por Valentina a partir de pequenos sachês de mel. Animais desta categoria biológica mantêm relação central e indispensável com as cadeias ecológicas e o fluxo de energia. Levam matéria e energia produzidas pelas plantas aos animais maiores, que se alimentam deles.
“Escorpião amarelo” é feita também a partir de sachês de mel e de pequenas barras de ferro. Associados ao mel, os artrópodes ganham novo significado, pois o alimento produzido pelas abelhas é um dos conservantes mais antigos da humanidade – pode durar até três mil anos.
A obra de Valentina busca promover o encontro entre a vida que está acontecendo e a matéria que a impede de desaparecer. É uma ode à preservação e à memória.
'Escorpião amarelo': matéria e energia simbolizados por pequenas barras de ferro e mel
“Olhamos para a comida já pronta no nosso prato e não paramos para pensar de onde ela vem”, diz a artista. “Quando aproximo o alimento da natureza, de alguma forma lanço o olhar para a cadeia alimentar e para outras relações que fazem a gente refletir sobre a cultura e a importância de prolongar nossas experiências”, acrescenta.
Carunchos, cogumelos e feijão
“A ponta da língua” exibe também “Bicho de amendoim”, em que Valentina simula carunchos com a projeção de cores e latão; “Espetinho”, com dois cogumelos atravessados por uma pequena barra de ferro; e “Arroz com feijão”, com silhuetas de grãos sobre placa de ferro oxidada. A última obra é inspirada no Banco Global de Sementes de Svalbard, na Noruega.
Conhecido como “cofre do fim do mundo”, o banco norueguês armazena sementes de todo o planeta para proteger a biodiversidade agrícola de catástrofes naturais, guerras e mudanças climáticas.
“É muito interessante a ideia de tentar encapsular o tempo. Isso me faz pensar que a experiência acaba, porque ela é finita, perecível. Mas, mesmo assim, procuro isso fazer o tempo durar”, destaca Valentina Tedeschi.
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“A PONTA DA LÍNGUA”
Exposição de obras de Valentina Tedeschi. Piccola Galeria da Casa Fiat de Cultura (Praça da Liberdade, 10, Funcionários). Desta terça-feira (28/7), com abertura às 19h, até 13 de setembro. Visitação de terça a sexta-feira, das 10h às 21h; sábado, domingo e feriado, das 10h às 18h. Entrada franca.
