Quando chega o carnaval e as escolas vão desfilar, “aquela gente de cor com a imponência de um rei vai pisar na passarela. Mas, depois da ilusão, coitado, negro volta ao humilde barracão”. Foi assim que o sambista Antônio Candeia Filho, o Candeia (1935-1978), denunciou o racismo no Rio de Janeiro dos anos 1970, ao compor “Dia de graça”.

Mas ele não era pessimista. O mesmo samba avisa: “Negro, não humilhe nem se humilhe a ninguém. Deixa de ser rei só na folia, e faça da sua Maria uma rainha todos os dias”. E dispara: “Cante um samba na universidade, e verá que teu filho será príncipe de verdade.”

A dimensão política da obra deste carioca, autor dos clássicos “Deixe-me ir” e “O mar serenou”, entre outros, é analisada pelo pesquisador norte-americano Stephen Bocskay no livro “Candeia – O samba, o quilombo e o ativismo negro” (Malê Editora). Não se trata de biografia, mas de uma leitura sobre como o sambista estava inserido no contexto do ativismo negro da década de 1970.

Para Stephen Bocskay, afirmar que Candeia era ativista é reducionismo. “Algumas letras dele objetificam as mulheres negras. Por isso, a gente não pode dizer que tal sambista era contra ou a favor de alguma coisa. Mas cada pessoa que coloco no livro, de Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento e Abdias do Nascimento aos sambistas, contribuiu, à sua maneira, para o ativismo. Embora isso não signifique que eu considere cada um ativista”, diz o pesquisador.

Natural do tradicional bairro de Oswaldo Cruz, na Zona Norte do Rio de Janeiro, Candeia é figura incontornável na história do samba e, sobretudo, da Portela.

Filho do flautista Antônio Candeia, o garoto cresceu cercado por sambistas lendários. Frequentava as rodas do bairro, inclusive as de dona Esther, a matriarca que abria as portas de casa, promovendo festas com Donga (1889-1974) e Pixinguinha (1897-1973).

Portela

O primeiro samba-enredo de Candeia chegou à avenida quando ele tinha 17 anos. “Seis datas magnas”, parceria com Altair Prego para representar a Portela no carnaval de 1952, venceu o concurso da agremiação e recebeu nota máxima do júri em todos os quesitos, algo inédito até então.

Candeia continuou compondo para a escola nos anos seguintes. Aos 22 anos, entrou para a Polícia Civil. Ganhou fama de enérgico e truculento.

Reza a lenda que, certa vez, pôs todo mundo para correr na Lapa. Apenas uma senhora permaneceu no local. Questionada por que não fez como os outros, respondeu: “Não corri porque não tenho medo de gente. Se você fosse bicho, eu correria, mas você não é bicho”.

Candeia, furioso, agrediu a mulher, que avisou: “Você me deu um tapa na cara, mas você não vai ter mão para dar tapa em ninguém”. O episódio foi interpretado como espécie de prenúncio – ou maldição – do que ocorreria logo depois.

Em dezembro de 1965, Candeia saía embriagado da comemoração de sua promoção a oficial de justiça. No cruzamento da Marquês de Sapucaí com Avenida Presidente Vargas, o carro colidiu com um caminhão. Sacou a arma e ameaçou os dois passageiros na cabine. Levou cinco tiros do motorista e ficou paraplégico.

O episódio marcou a virada na trajetória musical de Candeia. As composições ficaram melancólicas, ele passou a refletir com mais profundidade sobre o papel social do samba. Começou a escrever, debater e formular ideias sobre cultura popular, racismo e identidade negra.

Escola de Samba Quilombo

Rompeu com a Portela, por considerar que a azul e branco havia se afastado das raízes, e fundou o Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo.

“Candeia – O samba, o quilombo e o ativismo negro” passa por tudo isso, mas sem se aprofundar em todos os detalhes biográficos. Stephen Bocskay constrói ampla contextualização do movimento negro na década de 1970 para situar onde e como Candeia se inseria nesse cenário.

Na época, havia divisão entre os adeptos da black music e do samba, que vez ou outra se chocavam. “Não procuro as linhas retas. Procuro as ladeiras, porque a vida se define por elas. O livro deixa isso claro ao mostrar que Lélia Gonzalez poderia (com toda razão) implicar e se incomodar com o machismo na cultura do samba, mas, por ser muito próxima de Candeia e de outros sambistas, ela não era inimiga do movimento”, destaca Stephen. A filósofa, antropóloga e professora foi pioneira do movimento feminista negro.

Lugar de fala

Nestes tempos de forte debate sobre identitarismo, um norte-americano branco tratar do ativismo negro brasileiro pode provocar reações dos defensores do conceito de lugar de fala. Mas Stephen Bocskay não se preocupa com isso.

“O próprio Candeia disse que negros que alcançam certa posição social e econômica se esquecem dos problemas que envolvem os negros. Por outro lado, existem brancos que estão ao lado do movimento negro. Ou seja, a cor da pele não garante nada”, afirma.

“Basta lembrar o ex-presidente da Fundação Cultural Palmares Sérgio Camargo, que era contra cotas as raciais”, acrescenta. “Se quiserem me criticar, critiquem meu texto, e não a cor da minha pele”, finaliza.

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“CANDEIA – O SAMBA, O QUILOMBO E O ATIVISMO NEGRO”

• De Stephen Bocskay
• Malê Editora
• 262 páginas
• R$ 78

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