Das páginas dos livros para a tridimensionalidade dos bonecos de massa de modelar e daí para a galeria de arte. Este é o percurso proposto pela exposição “Asa de papel”, de Marcelo Xavier, que será aberta nesta quarta-feira (1º/7), no CCBB-BH.

A mostra recria em ambiente imersivo e interativo os 40 anos de produção do artista, cuja obra atravessou fronteiras entre literatura, artes visuais, fotografia, escultura, teatro, carnaval, educação e cultura popular, construindo um universo reconhecido por sua poética.

No saguão de entrada, personagens criados por Xavier recepcionam o público, no que o curador Marconi Drummond classifica como preâmbulo de “Asa de papel”, título tomado emprestado de um dos livros mais premiados do artista. Em seguida, visitantes atravessam a instalação “Asa da palavra”, túnel formado por superfícies espelhadas, letras suspensas e paisagens sonoras que introduzem o universo do Xavier.

Bonecos remetem às figuras de massinha de moldar, personagens das histórias dos livros de Marcelo Xavier

Leandro Couri/EM/D.A Press

A partir desse ponto, o percurso se desdobra em diferentes ambientes inspirados em livros marcantes do artista, combinando instalações, videografias, objetos, desenhos, esculturas, sons e experiências interativas. Da vasta obra de Xavier, o curador escolheu oito títulos, dos quais extraiu o conteúdo e o conceito da exposição. O norte da curadoria foi trabalhar a ideia de livro expandido, afirma Drummond.

Livro expandido

“Todos os elementos dos livros de Marcelo – iconográficos, gráficos, textos e imagens – vão passear por esta mostra. Os títulos ganham citações por meio da expansão na espacialidade da galeria”, diz.

Ele destaca que a trajetória pessoal de Xavier, cadeirante que convive há duas décadas com a esclerose lateral amiotrófica (ELA), ocupa lugar central na exposição. O artista transformou sua experiência com a deficiência em reflexão sobre autonomia, pertencimento e inclusão.

Drummond observa que, na produção mais recente de Xavier, o corpo, a diferença e o direito à participação plena na vida cultural são temas fundamentais.

“Estamos falando de um multiartista que é ativista. Marcelo vive há duas décadas com ELA, mas desde os anos 1980 vem militando e propagando a ideia do direito à cidade, do direito aos corpos diversos. Fala de meio ambiente, cultura popular brasileira, enfim, de todas essas pautas que hoje estão na ordem do dia”, aponta.

Bonecos de massinha, personagens de Marcelo Xavier, interagem com o público no CCBB-BH

Leandro Couri/EM/D.A Press

Xavier trabalha pautas fortes, políticas e afirmativas para o público infantil, a quem a mostra é prioritariamente dedicada. “Marcelo confia firmemente que a criança é um ser político e é possível tratar com ela essas questões, convocando-a para pensar junto conosco.”

Responsável pelo projeto de acessibilidade da mostra, Luciana Miglio diz que ele é estruturante e está no cerne do que “Asa de papel” propõe.

“A acessibilidade deixa de ser ação de recurso de tecnologia complementar e se integra completamente à proposta. Em todas as salas, trabalhamos com linguagem simples, mediação sonora, conteúdo em Libras, braile, audiologia e exploração tátil”, explica.

Visitantes passam embaixo do túnel de letras que faz parte da exposição de Marcelo Xavier no CCBB-BH

Leandro Couri/EM/D.A Press

Responsável pelo projeto educativo e pela pesquisa de acervo da exposição, Luiza Xavier, filha do artista, diz que “Asa de papel” foi pensada para ser experienciada com todos os sentidos.

“A mostra fala da fruição plurissensorial. O convite é para um mergulho sem distanciamento. Meu pai convive com limitações físicas há duas décadas. Isso fez com que ele se deslocasse e enxergasse de outra maneira a forma como o próprio corpo ocupa os espaços. Isso foi absorvido primeiro como desafio, mas depois como uma forma de nutrir a sensibilidade, para que ele pudesse entregar ao mundo essas belezas todas”, explica Luciana.

Marcelo Xavier chamou a atenção ao transformar bonecos feitos de massa de modelar em protagonistas de seus livros

Leandro Couri/EM/D.A Press

'Gabinete MX'

Entre os destaques estão “Gabinete MX”, museu afetivo do artista, composto por fotografias, desenhos, objetos pessoais, sons e memórias; e a sala que reproduz uma floresta, com bichos, lendas e mistérios, dedicada ao universo de Mestre André, personagem que costura a trilogia formada pelos livros “Festas”, “Mitos” e “Crendices e superstições”.

Outras salas e seções são dedicadas a títulos como “Tem de tudo nesta rua”, “Truques coloridos”, “O dia a dia de Dadá” e “Se criança governasse o mundo”.

Duas obras chamam a atenção no CCBB-BH. Uma delas acompanha o bloco carnavalesco Todo Mundo Cabe no Mundo, que desfilou no Bairro Santa Efigênia pela primeira vez em 2016, mas cujo embrião remonta a 2012, a partir da iniciativa “Preconceito zero – Todo mundo cabe no mundo”, criada por Marcelo Xavier e defensores da diversidade.

Já a obra em vídeo “Pequenos governantes”, inspirada no livro “Se criança governasse o mundo”, foi desenvolvida na Escola Municipal Fernando Dias Costa, no Bairro Taquaril. Os alunos respondem à pergunta: “Se você pudesse governar o mundo, o que faria?”.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

“ASA DE PAPEL – MARCELO XAVIER”

Em cartaz desta quarta-feira (1º/7) a 12 de outubro, no CCBB-BH (Praça da Liberdade, 450, Funcionários). Visitação de quarta a segunda-feira, das 10h às 22h. Entrada franca, com retirada de ingressos no site do CCBB-BH ou na bilheteria

compartilhe