Índia Morena, Dandara Ohana e Madona Show em 'Mambembe', filme que levou 16 anos para ficar pronto
- (crédito: Roseira Filmes/ divulgação)
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“Mambembe”, que acaba de estrear no circuito comercial brasileiro e está em cartaz em Belo Horizonte, é homenagem aos circos itinerantes e a seus artistas, mas também é um filme sobre a tentativa de fazer um filme, afirma o diretor Fabio Meira. O longa borra as fronteiras entre documentário e ficção, o que, de certa forma, foi fruto do acaso, devido à paralisação dos trabalhos por quase uma década.
O projeto nasceu há 16 anos, quando Meira finalizava o curso de cinema em Cuba. Ao retornar ao Brasil, iniciou pesquisa sobre pequenos circos no Norte e Nordeste, chegando a realizar filmagens em 2010, que serviram a uma produção aprovada em edital para curtas documentais e etnográficos. Esse material foi aproveitado para o início de “Mambembe”, mas a falta de financiamento fez com que o projeto só fosse retomado em 2018.
Em 2010, Meira já tinha as protagonistas, todas ligadas ao universo dos circos mambembes: a pernambucana Índia Morena, a potiguar Madona Show e a paraense Jéssica Alves. A primeira ideia era fazer ficção, mas com intervenções das artistas falando de seus personagens, como no filme “A paixão de Ana” (1969), de Ingmar Bergman. “Quando você vai entrevistar uma pessoa como Índia ou Morena, é um universo tão magnífico que a parte documental fica mais forte”, explica.
A retomada de “Mambembe” foi viabilizada pelo êxito do primeiro longa de Meira, “As duas Irenes”, que estreou no Festival de Berlim em 2017 e recebeu prêmios no Brasil e no exterior.
“Precisei voltar para 'Mambembe' de outra maneira. Acabou se tornando um filme sobre o filme inacabado. A ficção se tornou objeto da parte documental”, afirma o cineasta, que se valeu de uma chave metalinguística nesse processo.
O título “Mambembe” aparece no início da projeção e volta à tela transcorridos 30 minutos, tempo dedicado à apresentação das personagens reais Índia, Madona e Jéssica, como a dizer que ali tem início a ficção.
“Achei interessante demarcar o momento em que parece que o filme sonhado vai realmente começar. Mas isso não se sustenta, ele se transforma para virar outra coisa, ainda híbrida. Fomos quebrando todas as regras de muitos manuais”, destaca Meira.
A porção ficcional traz três mulheres de um circo itinerante, Índia Morena, Madona Show e Jéssica, que cruzam o caminho do misterioso topógrafo Rui, interpretado pelo ator brasiliense Murilo Grossi, estabelecendo conexões distintas com ele.
Diretor recorda circos de sua infância
Nascido em Goiânia e radicado em São Paulo, o diretor buscou circos no Norte e no Nordeste porque eles se parecem mais com o que tinha em mente. “Trago esse fascínio da infância, quando via, na minha cidade, os espetáculos e seus bastidores.”
Meira, a propósito, surge em algumas cenas e revela um pouco de sua vida pessoal, o que acrescenta outra camada ao longa. “Acabei entrando mais, seria honesto da minha parte. Mostro tanto a intimidade de Índia Morena e de Madona Show, achei que tinha de mostrar também minhas fragilidades. Fazer um filme é sonho que está sendo realizado, mas isso é muito difícil, são muitos percalços. Nem tudo vai sair como você imagina”, destaca.
Um dos percalços foi o fato de Jéssica, artista circense de Belém, não ter podido viajar para as filmagens em Pernambuco por conta de seus compromissos com o picadeiro. A solução foi convocar a atriz e assistente de direção carioca Dandara Ohana para o papel. Dessa forma, figuram em “Mambembe” tanto a Jéssica real, que ressurge na parte final, quanto personagem vivida por Dandara.
Affonso Uchôa: montador e conselheiro
O mineiro Affonso Uchôa, que ajudou a montar o longa ao lado de Juliano Castro, teve papel importante no processo de inserção do diretor na trama.
“Ele foi me convencendo, me incluindo no material”, revela Fábio Meira. “Resisti no começo, mas pensei: se estou expondo a vida das minhas personagens, preciso expor um pouco a minha também. Entra até uma questão familiar, algo que jamais pensei para este filme. É a questão do risco. A gente nunca sabe como as pessoas vão enxergar aquilo”, ressalta.
Índia Moreno foi premiada em festivais de cinema no Espírito Santo e Maranhão
Roseira Filmes/divulgação
Índia, atriz premiada
Índia Morena recebeu os prêmios de melhor atuação nos festivais de Vitória, no Espírito Santo, e Guarnicê, no Maranhão. Fabio Meira observa que ao longo de todo o filme é a personagem da vida real que está ali, mas isso não quer dizer que ela não esteja interpretando.
“No Festival de Vitória, a pessoa que escolheu Índia como Melhor Atriz foi Marcélia Cartaxo. Ela enxergou o valor dessa atuação. Por mais que não seja ficcional o tempo todo, Índia está o tempo inteiro trabalhando em função daquele filme, então está interpretando. Ela é excelente atriz, às vezes um pouco indomável, pela característica exuberante dela. Índia nunca espera menos do que o protagonismo”, elogia o diretor.
Brasil, 2024, 97 min., de Fabio Meira, com Índia Morena, Madona Show, Jéssica Alves, Murilo Grossi e Dandara Ohana. Em cartaz às 18h40, na sala 2 do Cine Belas Artes. Na quarta-feira (20/5), às 20h20, sessão única na sala 1 do Centro Cultural Unimed-BH Minas.