Um presidente que queria ter uma única noite de diversão. Um ator que conhecia muito bem o texto que seria apresentado. O assassinato de Abraham Lincoln, 16º presidente dos Estados Unidos, em 14 de abril de 1865, foi um acontecimento extraordinário não apenas pela magnitude do crime, mas também por sua realização, algo inimaginável nos dias de hoje.

 

Numa sexta-feira santa, Lincoln foi com a mulher, Mary Todd, ao Teatro Ford, em Washington, assistir à comédia “Nosso primo americano”. Ator de uma família de atores, John Wilkes Booth não estava na peça – mas a conhecia de cor. Esperou até a metade do terceiro ato, momento em que a plateia cairia na risada, para chegar perto do presidente e dar o tiro fatal, que acabou abafado pelas gargalhadas. Booth conseguiu fugir.

 

Em cartaz na plataforma Apple TV+, a minissérie “Último ato” parte do assassinato para acompanhar a caçada a Booth – fuga que levou 12 dias. Criada por Monica Beletsky (“Fargo”), a produção partiu de “A caçada ao assassino de Lincoln: 12 dias que abalaram os EUA” (Record, 2007), livro de James L. Swanson.

 




Peso político

 

A narrativa transcende o que ocorreu no Teatro Ford – mostra como havia uma conspiração muito maior do que o crime em si. O peso político é grande, já que o assassinato ocorreu cinco dias após o término da Guerra Civil. Opositor da abolição da escravidão, Booth era simpatizante dos Confederados, o Sul escravagista que entrou em combate com os estados do Norte, a União.

 

Em “Último ato”, o protagonista não é o presidente ou o seu algoz. Edwin Stanton foi secretário da Guerra durante a maior parte do período do conflito entre Norte e Sul. Muito próximo de Lincoln, foi ele quem capitaneou a caça a Booth. Na ficção, é interpretado pelo ator britânico Tobias Menzies (o Príncipe Philip da segunda fase de “The crown”, papel que lhe valeu o Emmy), aqui em sua primeira série americana.

 

“Já interpretei muitas pessoas em papéis históricos, e elas geralmente são interessantes e complexas. Stanton não é necessariamente uma pessoa agradável, mas é um homem de muita moral, com grande energia política e integridade. Quando conheceu Lincoln, não gostou dele. Mas os dois criaram um tipo de relacionamento interessante, acabaram se tornando amigos próximos e aliados políticos. Quando a tragédia acontece, ele é jogado neste papel de manter o país unido, lamentar o amigo perdido e resgatar o projeto político que ambos estavam tentando alcançar”, comenta o ator.

 

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“Último ato” traz sete episódios. Os dois primeiros estrearam na última sexta-feira (15/3). O inicial conduz o espectador até o tiro no teatro – Lincoln só morreu na manhã seguinte. No segundo capítulo, Stanton tem que lidar com os preparativos para o funeral, além da descoberta de que existe uma conspiração maior. A narrativa traz vários flashbacks para mostrar todas as implicações diante do ocorrido.

 

Tobias Menzies faz uma relação entre os EUA de meados do século 19 e o país da atualidade para justificar o interesse pela série. “Não sou historiador, mas pode ser útil olhar para trás para encontrar lições para o tempo presente. O que está claro na história que contamos é que havia uma fragilidade profunda no país, e a democracia foi realmente colocada em grande perigo com a morte de Lincoln. E agora, com eleições importantes nos EUA em novembro, a democracia também precisa ser defendida.”

 

Intérprete de Lincoln, o ator Hamish Linklater se surpreendeu mais de uma vez com a história. “Foram enviados três assassinos naquela noite: um para o vice-presidente (Andrew Johnson), outro para o secretário de Estado (William H. Seward) e outro para Lincoln (o único bem-sucedido). Ou seja, é história muito maior do que um ator descontente matando um presidente. Não foi a caçada a um homem, mas uma caçada a quem estava por trás para enviar aquele homem na missão de assassinar.”

 

Daniel Day-Lewis como Lincoln no filme dirigido por Steven Spielberg

Dreamworks/reprodução


Day-Lewis, a referência

 

Abraham Lincoln é um dos presidentes mais retratados no cinema e na televisão, com mais de uma dúzia de intérpretes. A lista traz atores notáveis: Henry Fonda (“A mocidade de Lincoln”, 1939), Gregory Peck (“The blue and the gray”, 1982) e o obrigatório Daniel Day-Lewis (“Lincoln”, 2012), entre eles.

Hamish Linklater assistiu a vários deles para encontrar seu tom para o papel. Fica com Day-Lewis. “A performance dele é como um anjo interpretando um santo”, afirma o ator, que levava três horas e meia na sala de maquiagem para se transformar em Lincoln (e 45 minutos para se desvencilhar do papel).

 

“ÚLTIMO ATO”


Minissérie disponível na AppleTV+. Os dois primeiros episódios estão em cartaz; os outros cinco serão lançados, semanalmente, às sextas-feiras.

 

 

Abraham Lincoln governou os Estados Unidos de 1861 a 1865

Chicago History Museum/reprodução

 


O desafio da abolição

Outra série sobre Abraham Lincoln disponível na plataforma Apple TV+ é a documental “O dilema de Lincoln”. Com quatro episódios e narrada pelo ator Jeffrey Wright, a produção apresenta a complexa jornada do presidente, e daqueles que o cercavam, para abolir a escravidão. A narrativa vai da eleição dele, em 1861,até a abolição, quatro anos mais tarde,com a 13ª Emenda.

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