É doloroso assistir ao documentário ucraniano "20 dias em Mariupol",que estreia no Brasil nesta quinta-feira (7/3). E precisa ser doloroso, avisa o diretor Mystslav Chernov na narração do filme.


Vencedor do Bafta deste ano, indicado ao Oscar – e favorito na categoria –, o documentário tem como matéria-prima os 20 dias que Chernov, jornalista da Associated Press, passou na Mariupol sitiada pela Rússia ao lado do colega fotojornalista Evgeniy Maloletka, logo após a invasão russa, em fevereiro e março de 2022.

 




 

Eles foram os últimos remanescentes da imprensa internacional em Mariupol documentando os horrores da guerra que completa dois anos. Mantas Kvedaravicius, um documentarista lituano que também estava filmando na cidade, acabou capturado pelos russos e morto.


Mariupol, que tinha 450 mil habitantes antes da guerra, ficou reduzida a escombros após os bombardeios incessantes dos russos.

 


O filme de Chernov mostra o impacto da guerra sobre os civis e vai muito além dos noticiários efêmeros de todos os dias. Acompanha um pai que chora o filho adolescente morrendo no hospital, após ser atingido por um míssil enquanto jogava futebol; um médico tentando ressuscitar uma menina de 4 anos, dizendo para a câmera: "Continue filmando"; valas comuns preparadas para receber crianças, o bombardeio de uma maternidade.


Correspondente de guerra


A imagens também retratam o que é o trabalho de um real correspondente de guerra. E o imenso perigo que Chernov enfrentou para que suas imagens se tornassem públicas – os russos cortaram a conexão de internet e a equipe da Associated Press tinha que andar pela cidade após o toque de recolher procurando wi-fi.


Foi por causa desses jornalistas que o mundo pode ver, pela CBS News, France 24, Deutsche Welle e outros, qual era a realidade em Mariupol – apesar da intensa operação de desinformação empreendida pela Rússia. O Kremlin dizia que tudo era mentira e que Chernov e Maloletka eram terroristas da informação. A reportagem renderia a Chernov, Maloletka, Vasilisa Stepanenko e Lori Hinnant o prêmio Pulitzer deste ano pelo serviço público.

 


Perseguidos pelas forças russas, Chernov e Maloletka tiveram de ser resgatados pelas forças especiais ucranianas após 20 dias. Mas eles conseguiram contrabandear para fora de Mariupol 30 horas de vídeo.


E Chernov se deu conta de que precisava ir além das matérias jornalísticas. "Nossa história é contada por livros, literatura e filmes... é muito difícil de entender o impacto de tudo só com as matérias jornalísticas."


Ele entende que o filme pode ser difícil de assistir, mas ressalta que não há uma profusão das chamadas imagens gráficas – há, sim, muita emoção, ao se aprofundar nas histórias dos civis afetados.
Não foi a primeira guerra que Chernov cobriu. Ele se tornou jornalista especializado em conflitos quando a Rússia invadiu a Ucrânia, em 2013-2014. Desde então, esteve no Iraque, na Síria, Afeganistão, Gaza, Nagorno Karabakh e Líbia. Mas sempre voltava para a Ucrânia.


Cobrir a guerra em sua terra natal foi muito intenso. "É a minha terra, a minha comunidade que estão sob ataque. Todas essas bombas não destroem só prédios, destroem nossas memórias", afirma.
O documentário vem acumulando prêmios. Além do Bafta, ganhou o prêmio do público na categoria de documentário de cinema mundial no Festival de Sundance de 2023, e ganhou o prêmio de documentário da escolha dos críticos na categoria de melhor primeiro documentário. No próximo domingo (10/3), disputa o Oscar de melhor documentário.

Prêmios


"Toda vez que subo num palco para receber um prêmio, minha cabeça não está nesse palco, está em Kharkiv, minha cidade natal, onde uma família com três filhos acaba de ser morta e meus amigos jornalistas estão me mandando imagens dos corpos carbonizados das crianças. Esse é o tipo de sensação que quero transmitir para o público internacional quando falo sobre o filme. Parece tudo muito distante, mas, na realidade, está bem mais próximo do que muita gente pensa. E o desfecho dessa guerra vai influenciar a política internacional durante muitos anos."


Mesmo assim, ele reforça que os jornalistas não devem achar que têm uma missão. "Infelizmente, a informação foi transformada em arma, mas isso não nos transforma em soldados", diz. "É muito perigoso um jornalista achar que tem algum tipo de missão, porque ele acaba se tornando um ativista. E nós não queremos perder a confiança do público ao nos tornar ativistas."


Apesar de ser ucraniano e ter sua visão sobre a guerra, Chernov disse que não é isso que o filme mostra. "Quando você assiste ao filme, não me ouve dando lição de moral ou impondo minhas emoções."

 


A certa altura do documentário, Chernov diz: "Meu cérebro quer desesperadamente esquecer tudo isso. Mas a câmera não permitirá que isso aconteça".


"20 dias em Mariupol" consegue vencer o déficit de atenção generalizado que condena toda notícia, por mais trágica que seja, a ser esquecida em dois ou três dias. As imagens do documentário não vão deixar nosso cérebro esquecer os horrores dessa guerra.´

 

"20 DIAS EM MARIUPOL"
(Ucrânia, 2023, 95min.) Direção: Mstyslav Chernov. Documentário. Estreia nesta quinta-feira (7/3), no UNA Cine Belas Artes (Sala 3, 18h).

 

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