Em 9 de julho, em Betim, um lar de idosos, que acolhia 33 pessoas, entre 59 e 93 anos, foi interditado após denúncias de maus-tratos e constatação de irregularidades. Em 25 de junho, outra operação, na zona oeste do Rio de Janeiro, prendeu em flagrante a responsável por um lar de idosos, sob acusação de maus-tratos e omissão de cuidados. 

Em reportagem de 27 de setembro, dados da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas mostraram que famílias estão abandonando seus idosos em hospitais. Em 2025, o Ministério Público do Amazonas ajuizou uma ação envolvendo 12 idosos internados havia mais de seis meses, já de alta e não buscados pela família. Os casos não são uma exceção, já que a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, até setembro de 2026, registrou 154.634 denúncias de violações contra idosos.


O que pensar das pessoas que submetem os velhos a maus-tratos? É instintivo achar que essas pessoas são monstros. Essa é uma resposta emocional e isso não a torna falsa, mas a simplificação esconde o problema, ao colocar o mal “do outro lado”, nos deixando “do lado de cá”.


Quando Hannah Arendt analisou o julgamento de Eichmann, um oficial nazista responsável pela morte de milhões de judeus, afirmou que teria sido reconfortante acreditar que ele era um monstro. Se acredito que alguém é um monstro, não tenho nada a aprender, pois aberrações não devem ser comparadas às pessoas ditas normais. Contudo, esses números nos levam a perguntar se a tal “monstruosidade” não é bem mais comum do que queremos fazer parecer e se, por isso mesmo, talvez não seja monstruosidade, mas sim algo bem mais rotineiro do que gostaríamos de admitir.

Para a autora, Eichmann não era uma exceção. Muitos eram como ele, “terrível e

assustadoramente normais”, e essa normalidade era muito mais apavorante do que todas as atrocidades cometidas. Na visão da autora, ele constituía um novo tipo de criminoso, aquele que, pelas circunstâncias em que age, pode nem mesmo perceber que está agindo errado. 


A escala e o contexto histórico, evidentemente, são outros. Mas o que Arendt descreveu não foi o tamanho do crime, mas o modo como ele se torna possível. Por certo, os maus-tratos a idosos podem prosperar, inclusive em instituições de longa permanência, quando o descuido passa a ser percebido como normal entre os cuidadores. 


Diante dos desafios que a atenção à pessoa idosa exige, pode-se instalar uma normalidade própria daqueles que pararam de pensar na extensão do mal que provocam a outro ser humano.


Uma revisão internacional citada pela Organização Mundial da Saúde apontou que 64,2% dos profissionais consultados admitiram ter cometido alguma forma de abuso contra residentes nos 12 meses anteriores às pesquisas.


Arendt dizia que Eichmann “simplesmente nunca percebeu o que estava fazendo”. Para ela, o oficial não era burro, era incapaz de pensar do ponto de vista de outra pessoa. As frases feitas e os clichês que repetia funcionavam como barreiras contra as palavras e a presença de outros seres humanos.


Fico me questionando se não é isso que se interpõe entre nós e nossos velhos. Enquanto eles definham em instituições de longa permanência mal estruturadas ou em leitos de hospitais após receberem alta, a nossa vida acontece sem que nos questionemos sobre essa barbárie. Essa irreflexão social convive muito bem com o proveito, pois há familiares que abandonam o idoso, mas continuam a usar sua aposentadoria.


Acho, então, que deveríamos trocar a palavra “monstro” pela palavra “irreflexão”. Chamar de monstros os causadores dos maus-tratos nos poupa da reflexão sobre os abusos.


Arendt não nos deixa em tal lugar, pois o mal que ela descreveu não exige maldade e pode prosperar simplesmente quando deixamos de pensar no outro. Não devemos, portanto, procurar os monstros, mas nos questionar quando foi que paramos de pensar e permitimos que o descaso passasse a ser visto como algo normal pelos que o praticam.

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