“Eu vou ficar velho e horrendo... ele jamais envelhecerá”. É exatamente desse desejo quase ingênuo que nasce o pacto central que está no cerne do livro O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Quando desejou que o quadro envelhecesse no seu lugar, Dorian desejava que a vida vivida não transparecesse em sua face.
Por meio de seu personagem, Wilde nos mostra que parte do processo de envelhecer é aceitar a ideia de transformação. Ao desejar que o retrato envelhecesse em seu lugar, Dorian queria a preservação de sua juventude física, sem dúvida, mas também ansiava pela manutenção da versão ideal que construiu de si mesmo.
No livro, enquanto Dorian permanece aparentemente igual, seu retrato no sótão se deteriora à medida que sua vida vai apresentando as crueldades, os excessos, os egoísmos, as frustrações e o vazio. O retrato se transforma porque o viver nos transforma e a existência humana não é compatível com permanências inalteradas. Uma das principais tarefas do tempo é modificar nossos desejos, desmontar nossas certezas e corroer o personagem que durante anos acreditamos representar nossa verdadeira identidade. Mas Dorian se recusa a esse movimento e permanece congelado numa única imagem de si mesmo, repudiando, ainda que sem conhecer, qualquer versão de si que não fosse a idealizada.
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O que torna o livro tão contemporâneo é exatamente porque vivemos em uma época na qual estamos todos obcecados pela manutenção de nossas versões desejáveis. São redes sociais, filtros, procedimentos estéticos e uma exposição tão contínua da vida, que propiciou o surgimento de uma cultura na qual não basta mais existir, é preciso, acima de tudo, sustentar uma versão desejável de si.
A lógica da performance invadiu com todas as suas garras o envelhecimento. A sociedade moderna não espera apenas que o velho envelheça bem, ela quer que ele envelheça sem demonstrar qualquer transformação, numa lógica em que a passagem do tempo só é aceitável se for invisível. O risco disso é que quando transformamos a juventude em patamar estético, começamos a tratar qualquer mudança como ameaça.
Não são poucas as pessoas que, em processo de envelhecimento, relatam experimentar uma angústia crescente. Isso acontece porque o corpo muda, mas também porque a mudança desorganiza nossos antigos personagens. Um homem que sempre se reconheceu na potência talvez tenha que aprender a lidar com fragilidades inéditas.
Do mesmo modo que a mulher que aprendeu, socialmente, a associar seu valor ao fato de ser desejada, precisará descobrir outras formas de existir que não dependam da validação estética. Nesse sentido, envelhecer é também o momento em que algumas partes da nossa identidade deixam de se sustentar plenamente. Mas, se isso pode ser profundamente doloroso, por um lado, por outro, é esse o tempo que nos revela o quanto confundimos nossa existência com determinados papéis que desempenhamos.
Dorian Gray ainda nos perturba porque uma parte de nós deseja preservar intacta certas versões idealizadas de nós mesmos. Mas, como sabemos, existir de fato implica em aceitar a transformação que modifica nossos corpos, nossos desejos e nossas narrativas sobre quem somos. Visto assim, o envelhecimento não é a derrota da juventude, mas sim a lenta e difícil sobrevivência ao personagem que um dia precisamos sustentar para merecer existir.
