Desde o começo do ano, uma nova thread tomou conta das redes sociais. Seus adeptos dizem que “2026 é o novo 2016”. Pessoas comuns e celebridades passaram a usar filtros nostálgicos e postar fotos de 2016, dando a entender que há 10 anos o mundo era muito melhor do que é hoje. O movimento surgiu como uma tendência estética, mas nada impede que façamos uma análise um pouco mais filosófica daquilo que pode ser apenas um sintoma de um tempo de profundas incertezas.
Se olharmos de perto, esse fenômeno nos remete a algo que o filósofo coreano-alemão Byung-Chull Han diagnosticou há algum tempo. Segundo ele, vivemos em uma sociedade que parece ter perdido a capacidade de habitar no tempo. Há um esvaziamento e uma aceleração da experiência humana de tal modo, que nos sentimos exaustos e sobrecarregados de estímulos, incapazes de viver o presente com profundidade.
O que as redes sociais oferecem é velocidade, e não presença, e onde há apenas velocidade, o agora se torna insuportável. Em seu livro, A Sociedade do Cansaço, Hans descreve esse sujeito contemporâneo como alguém que não consegue mais construir narrativas, e sem narrativas, o tempo se fragmenta em posts e filtros.
Portanto, ao que parece, não é propriamente o passado que as pessoas querem de volta quando entram na thread, mas sim um lugar para poder permanecer com presença. O presente hiper estimulado e sem espessura que Han descreve não é capaz de nos oferecer morada, então buscamos refúgio em uma memória editada e confortável. As fotos de 2016 poderiam, nesse sentido, representar uma tentativa de fuga para fora desse fluxo que nunca cessa, uma tentativa de buscar aquilo que Han chamou de duração, que seria justamente aquela dimensão do tempo que permite que as experiências sejam sedimentadas e ganhem sentido.
Verdade seja dita, 2016 não foi um ano idílico, nem no Brasil nem no mundo. Houve ataques terroristas na Europa, a guerra da Síria se intensificou, o Brasil viveu o impeachment de Dilma Rousseff, com o aprofundamento da polarização política, além do desastre da chapecoense, recessão e desemprego em alta.
Mas nada disso aparece nas threads. Parece que a memória coletiva foi editada e dela se preservou apenas aquilo que conforta. Han, se pudesse, diria que é exatamente isso que a sociedade do desempenho produz, qual seja, indivíduos que não conseguem suportar a negatividade do tempo, nem do presente, nem do passado real, e constroem em seu lugar, uma positividade artificial: sem atrito, incapaz de comportar qualquer coisa que machuque, mas também incapaz de comportar qualquer coisa que verdadeiramente transforme.
Em última instância, a nostalgia que circula nas redes sociais não parece ser, portanto, memória de fato, mas sim design. Uma curadoria emocional que transforma o passado em lugar de conforto, enquanto o presente segue em sua velocidade alucinante, sem que ninguém habite nele de fato.
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Hans nos lembra que uma sociedade incapaz de suportar o tempo real é também uma sociedade incapaz de o transformar. Contudo, quem só consegue viver no passado editado acaba por perder o único tempo em que a vida acontece de fato. O presente pode não ser confortável, previsível ou oferecer garantias, mas ele é o único lugar onde a vida acontece de fato e onde é possível agir. Refugiar naquilo que não existiu é uma forma contemporânea de desistir.
