Há uma crença bastante comum de que, uma vez finalizada uma relação, retiramos o outro de nossas vidas para, enfim, seguirmos adiante. Mas vocês já perceberam situações nas quais as pessoas terminam uma relação, seja ela qual for, mas, ainda assim, permitem que aquele que foi excluído da convivência continue habitando suas vidas?
Nesses casos, de fato, o outro não pertence mais às nossas vidas concretas, mas segue mais presente do que nunca. O amor acabou, mas em seu lugar veio o ódio, que é responsável por um movimento no qual o outro é narrado e reencenado, o que mantém sua presença, ainda que apenas no plano verbal.
A ideia corrente é a de que o ódio afasta a pessoa de nossas vidas, mas é exatamente o oposto, pois quando eu odeio sigo dando atenção àquele que se foi. O ódio toma nossa energia e, em alguns casos, nos impede de verdadeiramente seguir adiante. Isso porque há um investimento emocional contínuo para a manutenção da raiva.
Nesse sentido, o ódio ainda ocupa o lugar do sentimento, pois ele ainda organiza nossos pensamentos e reações para que sigamos alimentando a relação, ainda que de modo reconfigurado. Ou seja, não mais uma atenção dedicada ao afeto, mas sim a um sentimento de raiva, ainda que implícito, pelo amor que se foi ou pelas promessas não cumpridas.
Quando o ódio se fixa no nosso pensamento desse modo, parece não haver saída, a não ser verdadeiramente nos libertar da presença invisível do outro. Por mais que a pessoa creia que tenha se libertado da relação ruim, enquanto a raiva permanecer, ela segue aprisionada pela força do ódio que a move.
Quando odiamos alguém temos a sensação de autonomia e posicionamento, já que o sujeito que odeia não percebe que o outro segue sendo referência em sua vida. Por meio da rejeição, cremos estar afirmando nossa liberdade, mas, ao rejeitar alguém com tamanha força, o que acabamos por conseguir é que ele ocupe um lugar central em nossas vidas, nos impedindo de avançar para o futuro.
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Por isso, muitas relações acabam, mas não terminam. Elas seguem existindo porque o que foi vivido não pode ser simplesmente apagado. Sem um mecanismo capaz de interromper esse fluxo, permanecemos vinculados ao que aconteceu, deixando o presente de lado em nome do passado.
Hannah Arendt diz que o perdão deve ser compreendido como uma faculdade da ação humana, a única capaz de interromper os efeitos daquilo que foi feito. Ao perdoar, diz a autora, não estamos sendo indulgentes ou mostrando nossa elevação moral, ao contrário, estamos impedindo que o passado continue determinando nosso presente.
Enquanto o ódio mantém a ação em curso, reativando tudo o que foi vivido, o perdão tem justamente o efeito inverso, operando como uma interrupção no fluxo. Só o perdão rompe com a cadeia de continuidade que liga passado e presente. Portanto, parece que é somente o perdão que pode nos libertar da prisão que, a cada dia, optamos por permanecer enquanto alimentamos o nosso ódio. Sem perdão, ficamos presos ao que aconteceu e o passado passa a nos governar.
É certo que o perdão não apaga o passado, mas retira dele o seu poder de comando em nossas vidas. Perdoar não implica reconciliação, elevação moral ou esquecimento, na verdade, o perdão não é sobre o outro, mas sobre nossa capacidade de seguirmos adiante e de nos libertarmos daquilo que nos machucou.
Quando odiamos alguém que já retiramos fisicamente de nossas vidas, não é o outro que permanece, somos nós que continuamos no lugar de onde pretendíamos ter saído quando a relação foi finalizada.
O ódio nos mantém ligados àquilo que já terminou, como se a relação ainda estivesse em curso. Mudamos o afeto, de amor para ódio, mas, no fundo, não rompemos o vínculo.
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Perdoar é um gesto capaz de fazer frente a essa lógica, pois só ele interrompe o fluxo da ação e encerra de fato a história. Há relações que só terminam quando deixamos de sustentá-las. Enquanto alimentamos o ódio, continuamos presos a elas, ainda que acreditemos já termos ido embora.
