A artrose do tornozelo, embora menos prevalente que a do joelho e do quadril, tem um impacto funcional desproporcionalmente alto. Diferentemente dessas articulações, onde a degeneração costuma estar associada ao envelhecimento, a artrose do tornozelo é, na maioria das vezes, consequência de trauma prévio. Fraturas, lesões ligamentares mal tratadas e instabilidades crônicas levam, ao longo dos anos, a um desgaste progressivo da cartilagem, culminando em dor incapacitante e limitação importante da mobilidade.

Historicamente, o tratamento cirúrgico padrão para esses casos avançados sempre foi a artrodese, ou seja, a fusão da articulação. Trata-se de um procedimento eficaz para controle da dor, mas que impõe uma limitação definitiva do movimento. Em pacientes mais jovens e ativos, isso frequentemente resulta em sobrecarga das articulações vizinhas e, não raramente, em degeneração secundária ao longo do tempo.

É nesse cenário que a artroplastia total do tornozelo surge como alternativa conceitualmente mais atraente. Ao substituir a articulação por uma prótese, preserva-se o movimento, melhora-se a biomecânica da marcha e, potencialmente, reduz-se o risco de degeneração das articulações adjacentes. Em países da Europa e nos Estados Unidos, essa técnica já está consolidada. No Brasil, entretanto, a realidade ainda é bastante diferente. A artroplastia do tornozelo ainda é um procedimento pouco difundido. Isso se deve a uma combinação de fatores que envolvem desde questões estruturais do sistema de saúde até aspectos culturais da própria prática médica.

Um dos principais entraves é o custo. As próteses de tornozelo são dispositivos de alta complexidade e, consequentemente, de alto valor. Diferentemente do que ocorre com próteses de quadril e joelho, amplamente incorporadas ao sistema público e suplementar, a prótese de tornozelo ainda enfrenta grande resistência por parte das operadoras de saúde. A negativa de cobertura é frequente, obrigando médicos e pacientes a recorrerem a processos administrativos ou judiciais.

Outro ponto importante é a seleção de pacientes. Diferentemente de outras artroplastias, a indicação no tornozelo exige critérios mais rigorosos. Alinhamento adequado, estabilidade ligamentar, qualidade óssea e condições de partes moles são fatores determinantes para o sucesso do procedimento. Em um cenário onde muitos pacientes chegam tardiamente, com deformidades avançadas e histórico de múltiplas cirurgias, a indicação da prótese pode se tornar mais desafiadora. Ainda assim, é inegável que estamos diante de uma mudança de paradigma.

Os implantes de terceira geração trouxeram avanços significativos em termos de desenho, fixação e durabilidade. Sistemas modulares, instrumentais mais precisos e melhor compreensão da biomecânica do tornozelo contribuíram para reduzir complicações e melhorar os resultados funcionais. Estudos recentes mostram taxas de sobrevida das próteses superiores a 85%–90% em 10 anos, números que começam a se aproximar de outras artroplastias já consagradas.

No Brasil, observa-se um crescimento gradual do interesse pela técnica. Cursos, congressos e fellowships internacionais têm contribuído para a formação de cirurgiões mais familiarizados com o procedimento. A troca de experiência com centros de referência no exterior tem sido fundamental para acelerar esse processo.

Outro aspecto relevante é o papel da informação. Pacientes estão cada vez mais conscientes das opções de tratamento disponíveis e passam a questionar abordagens tradicionais. A ideia de preservar o movimento, em vez de simplesmente eliminar a dor à custa da rigidez, é intuitivamente mais atraente,  especialmente para indivíduos ativos.

No entanto, é fundamental manter o equilíbrio. A artroplastia do tornozelo não é uma solução universal. A artrodese ainda tem seu espaço, com excelentes resultados em indicações bem estabelecidas. O desafio está justamente em individualizar o tratamento, oferecendo a melhor opção para cada paciente, com base em critérios técnicos e não em limitações estruturais. Quando olhamos para o futuro, alguns pontos parecem claros.

A tendência é de maior incorporação da artroplastia do tornozelo no arsenal terapêutico da ortopedia brasileira. Isso passa, necessariamente, por uma mudança na relação com as operadoras de saúde, com maior reconhecimento da técnica e de suas indicações. Estudos nacionais, com dados de custo-efetividade, podem desempenhar um papel importante nesse processo.

Além disso, a concentração de casos em centros especializados pode ser uma estratégia interessante para otimizar resultados. Modelos que priorizem volume cirúrgico e treinamento estruturado tendem a gerar melhores desfechos, aumentando a confiança na técnica.

Do ponto de vista tecnológico, o avanço não deve parar. Navegação, guias personalizados e até impressão 3D já começam a ser explorados, com potencial para aumentar ainda mais a precisão dos procedimentos. A evolução dos materiais também pode contribuir para maior longevidade dos implantes. Por fim, há um aspecto que muitas vezes passa despercebido: o impacto social.

A artroplastia do tornozelo no Brasil ainda está em construção. Entre desafios e oportunidades, o cenário é de transição. Cabe à comunidade médica, às instituições e aos gestores de saúde conduzir esse processo de forma responsável, baseada em evidências e centrada no paciente.

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Mais do que adotar uma nova técnica, trata-se de repensar a forma como lidamos com uma condição incapacitante. E, nesse contexto, preservar movimento pode ser mais do que uma escolha técnica, pode ser uma mudança de perspectiva.

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