Nunca o paciente soube tanto sobre ortopedia. E, paradoxalmente, nunca esteve tão confuso. Hoje, antes mesmo de sentar na cadeira do consultório, ele já passou por reels no Instagram, vídeos no TikTok, fóruns, grupos de WhatsApp, podcasts, depoimentos emocionados, artigos científicos mal interpretados e, mais recentemente, respostas prontas geradas por inteligência artificial. Chega com diagnósticos, nomes de cirurgias, opiniões formadas e uma expectativa clara de solução rápida.
O problema não é a informação. É o excesso desorganizado dela. A relação médico-paciente mudou radicalmente nos últimos anos, e 2026 consolida um cenário novo. O paciente não quer apenas ser tratado, ele quer validar aquilo que já acredita saber. Quando a consulta vira um espaço de confronto entre experiência clínica e algoritmo, algo se perde no meio do caminho.
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Informação sem filtro não é conhecimento
Existe uma diferença fundamental entre acesso à informação e capacidade de interpretá-la. A maioria dos conteúdos consumidos pelo paciente não é mentirosa. É incompleta, fora de contexto ou simplesmente inadequada para aquele caso específico.
Um vídeo que mostra uma cirurgia perfeita ignora critérios de indicação. Um estudo citado fora de contexto ignora população, viés e nível de evidência. Um relato pessoal ignora variabilidade biológica. Mas, no feed, tudo parece equivalente. A cirurgia que resolveu para um influenciador vira “a melhor técnica do mundo”. O tratamento que falhou para um conhecido vira prova de que “não funciona para ninguém”.
A medicina, que sempre foi baseada em nuance, virou refém de respostas binárias. O Google não vê o paciente. O médico vê. A internet trabalha com padrões médios. O ortopedista trabalha com indivíduos. Esse conflito é silencioso, mas constante. O paciente chega convencido de que precisa operar ou convencido de que jamais operará sem compreender que indicação cirúrgica não nasce de um exame isolado, nem de um vídeo de 30 segundos.
O exame de imagem virou protagonista absoluto. Ressonâncias são tratadas como sentença. Alterações comuns do envelhecimento são lidas como lesões graves. Achados irrelevantes ganham peso desproporcional. A dor vira detalhe secundário diante de um laudo mal compreendido.
Em muitos consultórios, o primeiro trabalho do médico já não é tratar, mas traduzir. Talvez a maior mudança da ortopedia contemporânea não seja técnica, mas relacional. O paciente chega com uma expectativa clara de resultado, muitas vezes incompatível com a biologia, com o tempo de recuperação ou com a própria adesão ao tratamento.
Quer voltar rápido, sem dor, sem limitação, sem reabilitação longa. Quer previsibilidade absoluta em um sistema que é, por natureza, probabilístico. Quando isso não acontece, frustração vira desconfiança. E a desconfiança, hoje, vira conflito. A judicialização da medicina não nasce apenas de erro técnico. Muitas vezes nasce de um desalinhamento de expectativas.
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O novo papel do ortopedista
Em 2026, ser um bom ortopedista exige mais do que saber operar bem. Exige saber comunicar melhor. Explicar riscos, incertezas, limites e caminhos possíveis virou parte central do tratamento. Educação não é acessório. É intervenção terapêutica.
O médico deixou de ser apenas quem prescreve. Passou a ser curador de informação. Alguém que ajuda o paciente a separar ruído de sinal, promessa de evidência, marketing de medicina. Isso cansa. Consome tempo. Não aparece no currículo. Mas define desfecho.Informado, sim. Confuso, também.
O paciente informado não é o problema. O paciente desinformado também não. O grande desafio da ortopedia atual é o paciente parcialmente informado, excessivamente confiante e profundamente inseguro. E talvez o futuro da boa prática não esteja em combater a informação, isso é impossível, mas em aprender a dialogar com ela. Com firmeza, empatia e clareza. Sem submissão ao algoritmo, mas sem arrogância técnica. Porque, no fim, a melhor tecnologia da ortopedia ainda é uma conversa bem feita.
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