A frase “the book is on the table” (o livro está em cima da mesa) era ao mesmo tempo uma piada e uma frase clássica das aulas de inglês. Hoje não é mais o livro, infelizmente, é o celular que está sobre a mesa.
Não faço parte dos negacionistas da tecnologia, acho o smartphone uma invenção incrível. O que Bill Gates previu no começo dos anos 1990 está no aparelho: a função telefone é a de menos numa época em que ninguém liga mais para ninguém (infelizmente, isso muitas vezes é literal).
Ali está o nosso banco, e-mails, filmes, séries, aplicativos para todos os tipos de gostos. O lado negativo é que abduziu completamente a maior parte das pessoas e o tempo todo.
Antigamente, enquanto esperávamos o ônibus, um táxi ou quando estávamos na fila do cinema, olhávamos para a rua, para o céu, para o que estava em volta, as árvores, os carros, as pessoas passando, pensando na vida e assimilando as reflexões que surgiam dali. Hoje, todos estão olhando para aquele pequeno retângulo nas suas mãos.
Mas o mais deprimente mesmo é o celular à mesa, cena comum em qualquer restaurante onde duas pessoas ou uma família saíram para comer juntos e cada um fica olhando o seu aparelho. O pior são as refeições em casa. Comer junto é para ser um momento de inclusão, não de exclusão. De trocar ideias, conversar. Até mesmo eventualmente se desentender – faz parte – e se entender depois. E conversar no sentido clássico: enquanto um fala, o outro escuta, e vice-versa.
Hoje, infelizmente, a maior parte das pessoas quando fala só quer falar, não quer ouvir. São monólogos narcísicos, mesmo quando são queixosos. E não há interesse no que acontece com o outro. A vida excessiva nas telas trouxe também este fenômeno: o outro não é algo – até o momento – que o algoritmo escolheu para nós, então não interessa.
Como o Golum de “O Senhor dos Anéis”, o celular virou o “meu precioso”. Experimente interromper o idílio de uma pessoa que está vendo um dos muitos vídeos do dia ou, pior, pedir para ela desligar, afastar o celular ou tentar tirar da mão dela. Como a maldição do anel, um “godzilla” furioso surgirá na nossa frente, a voz muda, as feições ficam irreconhecíveis.
Na maior parte das vezes, não há nada tão urgente que não possa esperar terminar uma refeição. Se houver um ente querido numa UTI, é compreensível, mas, em 95% dos casos que em que chega uma notificação, não era nada demais.
Todos sabemos que somos rastreáveis em todos os sentidos. Antigamente, quando saímos, ninguém sabia onde estávamos. Às vezes, ligávamos de um telefone público ou pedíamos licença na casa de alguém para dar um telefonema e dar notícia. E estava tudo bem.
Felizmente, a tão cacarejada inteligência artificial ainda não é tão inteligente. O algoritmo achando que gosto de muita coisa de que não gosto só porque gosto de uma coisa similar. E ter que marcar hidrantes para confirmar que eu não sou um robô é um exercício bem básico.
É sabido que estão surgindo transtornos psiquiátricos pelo excesso do abandono da vida real. O filme “Matrix” fez, de fato, uma profecia, os avatares de muita gente são os que vivem de fato a vida de seus criadores. A depressão nesses casos é inevitável.
Escrevi uma vez que robôs ainda não podem cozinhar e, principalmente, não podem comer. Nada supera os aromas fumegantes de um bolo recém-assado, de um belo cozido, de ervas sendo adicionadas, de cebola dourada na manteiga, de um assado recém-tirado do forno.
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Podemos usar, sim, a tecnologia a nosso favor mas, de fato e felizmente, não somos robôs.
