No princípio, somos corpo natural, sem marcas. Nossa chegada ao mundo, o primeiro oxigênio inspirado, o choro, a experiência inaugural de existir fora da proteção do corpo materno, do conforto da placenta onde amadurecemos para enfrentar a vida – serão esses os nossos melhores dias?
Nascemos errantes. Ignoramos tudo. Prematuros, incapazes da sobrevivência. Animais sem instinto, fora da natureza. Seres de linguagem. Dependentes, tememos o desamparo e precisamos de cuidadores por anos, até conseguirmos alguma autonomia. E, mesmo depois de atingi-la, ainda assim, nunca saberemos tudo.
Sem instintos que nos apontem como viver e, já adultos, restos de desamparo permanecem. Aprendemos com os erros. Por cada ação, pelo resto da vida, faremos escolhas, sem certezas absolutas, por mais que acreditemos o contrário.
Quantos acreditam demais nas certezas e, por isso mesmo, se equivocam? Como disse antes, somos errantes, e cada passo tem consequências. Podemos escolher por nós ou, mais generosos, pensar no futuro da coletividade. Nos que sofrem, menos favorecidos, nos indígenas massacrados, verdadeiros donos de nosso solo, nas matas destruídas e nas que ainda restam e gritam por socorro, que só virá pelas nossas mãos. Enfim, somos os responsáveis pelo futuro da vida.
Lembrando Pepe Mujica: “Ser de esquerda é ter uma posição filosófica perante a vida em que a solidariedade prevalece sobre o egoísmo”. É grande nossa responsabilidade e isso significa uma luta sem fim, até o nosso fim. Talvez inglória. Isso porque os donos da certeza, da ganância e da cobiça pouco se curvam ou pensam nos demais.
O próprio eu é tão si próprio que se danem os outros. Dividimos o oxigênio desde nascidos e até hoje, tantas vezes, choramos por isso. Ao contrário do que disse Mujica, cresci escutando o ditado popular: se a farinha é pouca, meu pirão primeiro. Expressão que retrata o egoísmo e o individualismo de garantir seu quinhão sem contar o outro, que remonta ao período de cativeiro no Brasil, em que os escravizados viviam na escassez, embora carregassem o sinhô nas costas. E ainda é assim. Desde sempre, o antagonismo entre patrão e empregado é reconhecido por grandes pensadores.
Hoje, o Brasil dividido entre direita e esquerda espelha uma realidade intransponível. Nunca seremos um. Somos múltiplos e não existem donos da verdade, embora muitos se coloquem nesse lugar. Atualmente, estamos no tempo dos sabe tudo. Os donos da certeza. Os empresários de si mesmos. Influenciadores incansáveis em busca de seguidores. Candidatos prometem suspender leis e arrecadações estaduais, o que sabemos, jamais será factível. Esse é um dos absurdos que estão por aí.
As pessoas perderam o pudor que a educação ensinou. Ao contrário, se expõem sem conteúdo ou valor.
Se acham. Imposturas assumidas e vendidas. E há quem compre. E quanto mais ideais vendem, mais enganosos os discursos. Ideais são sempre miragens e são furados pelo real. Esse derruba expectativas e promessas. Não temos garantias.
E se me perguntarem o que é o real, responderei o que li no prefácio de Musso Greco do livro de Antônio Beneti: “O real do goleiro é o frango”. Quando ideais desabam. “Descompletos”. Furo constante e inevitável.
Se, por um lado, as redes sociais têm o papel de transmissão de cultura, arte e informações; por outro, são também permeadas de discursos vazios, opiniões desagregadas enganosas e vazias, supérfluas e equivocadas. Na grande maioria, pouco acrescentam e só servem para enriquecer influencers.
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Nunca assistimos a tantos ensinadores em tempos em que grandes mestres do passado não existem mais. Qualquer um se filma. Se promove, sem compromisso com a verdade. Qualquer um vende seu peixe. Também se candidata. Eleitores defendem candidatos sob suspeitas, passam por cima de todas as informações e constatações já divulgadas nas mídias oficiais. As pessoas se contrapõem evitando fatos. Como podemos passar por cima de tantas suspeitas e, ainda assim, depositar nosso voto? Como defender o indefensável?
